Agora com Dilma, Temer quase foi vice de Serra

Deputado, que trafegou da oposição à base do governo, concretiza na convenção do PMDB projeto político nascido há oito anos

Adriano Ceolin e Severino Motta, iG Brasília |

Ao ser oficializado neste sábado como vice na chapa presidencial de Dilma Rousseff (PT), o deputado Michel Temer (PMDB), 69 anos, realizará um projeto político que nasceu oito anos atrás. Em 2002, quando costurou com o PSDB a aliança para eleição presidencial, seu nome foi mencionado como possível vice do tucano José Serra, candidato a presidente naquele ano. No entanto, junto com a citação vinha uma frase recorrente: "O problema é que os dois são paulistas".

Os tucanos queriam um vice nordestino. Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE) era o favorito, mas preferiu disputar a reeleição ao governo do Estado e a vaga de vice acabou nas mãos de uma mulher do Sudeste: Rita Camata (hoje no PSDB-ES). “Eu me dou muito bem com o Temer. O nome dele foi cogitado, mas não cresceu tanto dentro das reuniões para composição da chapa. Falamos também sobre o Pedro Simon, sobre Jarbas, mas ficamos com a Rita, que é mulher e muito competente”, disse o ex-presidente do PSDB, deputado José Aníbal (SP).

Por sua da forte ligação com Serra e os tucanos, Temer não aderiu ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Manteve-se no grupo peemedebista da Câmara inicialmente identificado como oposição. Foi por isso que Lula preferiu apostar na aliança com a bancada do PMDB do Senado, liderada por Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-AP) - que o apoiou ainda no primeiro turno da eleição de 2002. Mas Temer tinha um diferencial: desde 2001 era o presidente nacional do PMDB. Sem ele, só parte do PMDB iria aderir ao governo. Fato que causaria problemas para Lula.

iG São Paulo
União entre Temer e Dilma dará ao deputado posição negociada na campanha tucana de 2002
O primeiro deles ocorreu em fevereiro de 2005, quando Severino Cavalcanti (PP-PE) elegeu-se presidente da Câmara, derrotando o petista Luiz Eduardo Greenhalgh (SP). Em maio daquele ano, veio também do Congresso a maior crise a ser enfrentada pelo governo Lula: o escândalo do mensalão, detonado a partir de uma entrevista do então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Sem base sólida e sem o PMDB, o governo e o PT viraram alvo fácil da oposição.

Foi quase um ano com três CPIs, duas só para investigar o mensalão. Na campanha de reeleição, Lula não pôde contar com o PMDB, que mais uma vez se dividiu. Temer apoiou Geraldo Alckmin (PSDB). Vencedor no segundo turno, Lula patrocinou uma troca de comando no PMDB, dando força para ala do Senado. Apoiou a reeleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) para presidente da Casa e incentivou Nelson Jobim a tirar Temer da presidência do PMDB.

Lula deixou ainda que Renan trabalhasse a favor da reeleição do deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) para a presidência da Câmara. O presidente, porém, não contava com o desejo de Arlindo Chinaglia (PT-SP) de disputar o posto. E, para conseguir êxito, Chinaglia foi pedir apoio ao PMDB. Temer só fez uma imposição: queria que dois anos depois o PT apoiasse o nome dele para suceder Chinaglia. Negócio fechado. Até parte do PSDB aderiu e Chinaglia foi eleito.

“Fui ao líder do PSDB, Jutahy Magalhães, e ele me disse que o partido aceitaria a proporcionalidade e iria com o PT ou PMDB. Ao saber disso, iniciei conversas com o Geddel ( Vieira Lima ), que também era pré-candidato pelo PMDB. Depois falei com Temer, que era presidente do partido, e com o Henrique Eduardo Alves. Consegui o acordo e depois retribuímos. O Temer, quando foi eleito, fez até uma referência sobre isso, à manutenção da palavra”, disse Chinaglia sobre o episódio.

E não parou por aí. A estratégia de Temer na eleição da Câmara acabou lhe dando força para minar a candidatura de Jobim para a presidência do PMDB. Apenas um mês depois da vitória de Chinaglia, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) teve de abandonar disputa pelo comando do partido. Temer foi reeleito e a bancada do Senado ficou sem representação na Executiva peemedebista.

É exatamente a partir desse ponto que Temer aderiu ao governo. Mesmo assim, não ganhou de imediato a confiança de Lula. Na verdade, o presidente se convencia à medida que aumentava a fidelidade da bancada do PMDB na Câmara em votações de interesse do governo. Temer ganhou pontos também ao tentar unificar o partido, reabrindo as conversas com a bancada do Senado. Ganhou mais um mandato, desta vez com o apoio de Renan.

Diálogo

Segundo o vice presidente do PMDB, Valdir Raupp, logo após o racha, Temer iniciou um processo para busca de diálogo. Foi atrás de Sarney, Renan e de Romero Jucá, e conseguiu, aos poucos, harmonizar o partido. “Temer queria acomodar o grupo do Senado na Executiva desde o início. Mas, como a disputa ficou muito acirrada, resolvemos não ir à convenção. Na Executiva Nacional só fiquei eu, que era líder no Senado. Mas, com a aproximação do Temer com o governo, e seu nome sendo cogitado para vice, ganhamos mais espaço e o partido se unificou. A reeleição dele foi com mais de 95% do partido”, disse Raupp.

Em fevereiro de 2009, o PT cumpriu o acordo e ajudou eleger Temer presidente da Câmara pela terceira vez. A primeira ocorreu na metade do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1997. Naquele ano, Temer teve papel importante ao intermediar a votação da emenda de reeleição para cargos no Executivo. Com FHC reeleito, Temer foi reconduzido para mais um biênio na Presidência da Câmara (1999-2001).

Temer conquistou a presidência nacional do PMDB após a queda de Jader Barbalho (PMDB-PA), então presidente do Senado que foi acusado de participar de um esquema de corrupção na hoje extinta Sudam (Superintendência de Desenvolvimento do Amazonas), em 2001. De lá para cá, Temer enfrentou todas as disputas internas entre as diferentes alas do partido.

Última batalha

Talvez a disputa contra o ex-governador do Paraná Roberto Requião -- que se inscreveu na convenção como candidato a presidente da República -- seja a última batalha pela unificação da legenda. Mas a maior das disputas tem sido travada com o próprio diretório paulista, no qual Temer mantém sua filiação.

AE
Internamente, presidente da Câmara se contrapõe ao ex-governador Orestes Quércia, que comanda PMDB paulista
O dono do PMDB de São Paulo é o ex-governador Orestes Quércia, antigo adversário de Temer. Aliás, em 1987, ele quase saiu do partido junto com José Serra, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e Franco Montoro para fundar o PSDB. Temer diz que ficou no PMDB a pedido de Montoro. Como governador de São Paulo (1982-1986), foi ele quem deu o primeiro cargo importante para Temer, nomeando-o Secretário de Segurança.

Temer foi escolhido por sua forte influência no meio jurídico. Diplomado em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco, fez o doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Nos anos 70, compôs na instituição um grupo de estudiosos em direito público com o qual mantém laços até hoje. O livro mais famoso de Temer chama-se Elementos de Direito Constitucional , que é adotado por centenas de faculdades do país e já está na sua 20ª edição.

Na infância, Temer sonhou em ser pianista. Porém, em Tietê, município da Grande São Paulo onde nasceu e foi criado, não havia professores. Orientado pelo irmão, resolveu fazer um curso de datilografia para "exercitar os dedos". Aos oito anos de idade, o menino Michel Miguel Elias Temer Lulia já usava a máquina de escrever quase como um adulto.

Temer não gosta de falar de sua vida pessoal. Ele tem três filhas do primeiro casamento. Também é pai de um menino de 10 anos de um outro relacionamento. Atualmente, Temer está casado com Marcela Tedeschi Araujo, 26 anos, que tentou ser modelo na adolescência.

Pela primeira vez em 24 anos, Temer não disputará uma eleição para Câmara dos Deputados. Durante seus seis mandatos, procurou evitar desavenças. A única conhecida ocorreu com o falecido senador Antônio Carlos Magalhães (DEM-BA), durante as discussões sobre a reforma do Judiciário em 1999.

Dentro do PSDB, além de Serra, Temer se dá muito bem com o ex-governador mineiro Aécio Neves. Em 2001, ele ajudou Aécio a se eleger presidente da Câmara, o que impulsionou a candidatura dele ao governo de Minas. Antes, porém, procurou Temer para uma conversa. Tentou convencê-lo a fazer o PMDB a largar o projeto de Serra. "Vou ser candidato a presidente e você o vice", disse. Com um mineiro na cabeça de chapa, o paulista Temer teria sua chance.

Em 2010, Temer será vice de uma mineira. Porém, um mineira petista que se formou como técnica no Rio Grande do Sul e disputará sua primeira eleição. O deputado, no entanto, não era favorito para o posto. Até o começo deste ano, Lula tentou transformar o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, no companheiro da chapa de Dilma. Sem provocar maiores estragos, Temer lutou por seu nome nos bastidores. Com apoio de quase todas alas do partido, venceu. Do alto de sua popularidade de 70%, Lula teve de aceitá-lo como vice.

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