Afastado de Marta, Mercadante ganha reforço de Marisa Letícia

Contrariando postura adotada em eleições passadas, Marisa Letícia vira presença recorrente na agenda do petista

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

De olho no voto feminino e cada vez mais distante da ex-prefeita Marta Suplicy (PT), o candidato do PT ao Palácio dos Bandeirantes, Aloizio Mercadante, ganhou nos últimos dias o reforço da primeira-dama Marisa Letícia na campanha. A esposa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que nunca foi adepta do corpo-a-corpo eleitoral, agora é citada por petistas como arma para tentar reverter o favoritismo do tucano Geraldo Alckmin no maior colégio eleitoral do País.

A 40 dias das eleições, Mercadante está em segundo lugar em todas as pesquisas, mas ainda fica longe do tucano – na última Datafolha, ele aparece com 20% das preferências, 34 pontos atrás do rival. Em meio a esse cenário, Marisa já esteve presente em cinco atividades ao lado do senador – duas delas em caminhadas pela periferia. Hoje, os dois estarão juntos mais uma vez, em uma visita a uma feira de cosméticos e beleza na capital paulista.

Nos eventos em que ela fica mais próxima da militância, petistas costumam agir como uma espécie de força de segurança da primeira-dama. Foi assim na última sexta-feira, quando Marisa caminhou pela Cohab de Carapicuíba, reduto do cantor e vereador Netinho de Paula (PC do B), que concorre a uma vaga ao Senado. Com calça e camisa jeans sobre uma camiseta vermelha com a estrela do PT, a esposa de Lula era protegida por todo o trajeto pelo presidente estadual do PT, Edinho Silva, e o prefeito de Carapicuíba, Sérgio Ribeiro (PT). “Onde tiver campanha eu vou estar”, disse a primeira-dama ao fim da visita.

Agência Estado
Marisa, que nunca foi adepta do corpo-a-corpo, agora é presença certa na campanha de Mercadante

Oficialmente, representantes da campanha investem na tese de que a chegada de Marisa ocorreu a pedido da própria primeira-dama. Nos bastidores, entretanto, a estratégia é vista como uma espécie de compensação pela demora do presidente Lula de intensificar sua agenda no Estado.

Quando aceitou disputar o Palácio dos Bandeirantes, abrindo mão da reeleição para o Senado, Mercadante ouviu do próprio presidente a promessa de que se empenharia ao máximo na campanha paulista. A promessa, agora, é de que Lula deverá ampliar a presença no Estado já a partir da próxima semana, com a realização de uma série de comícios em solo paulista.

Enquanto isso, o comando petista no Estado trabalha para tentar reverter a dificuldade de arrecadação da campanha. O comitê de Mercadante, que já disponibiliza sistema para doações online, declarou à Justiça Eleitoral ter arrecadado R$ 840 mil no primeiro mês de campanha. A previsão total de gastos é de R$ 46 milhões.

Distanciamento

A entrada de Marisa na agenda ocorre no momento em que Marta Suplicy se distancia cada vez mais do senador petista. Nos bastidores, líderes petistas afirmam que a ex-prefeita vem investindo cada vez mais em um voo solo, ensaiado desde o início da campanha.

Dentro do grupo de Mercadante, esse quadro é atribuído em parte à indisposição de Marta de firmar um acordo que dê ao senador a prioridade para disputar a eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 2012, caso saia derrotado da corrida deste ano. Ainda assim, o time do candidato ao governo minimiza o problema. "Ela está dando trabalho, mas não mais do que já esperávamos", ironizou um aliado do senador.

Petistas também mencionam como fator de desconforto a decisão de Marta de contratar o marqueteiro Duda Mendonça, que também assina a campanha do presidente licenciado da Fiesp, Paulo Skaf (PSB), ao governo paulista. A ideia da campanha de Mercadante era unificar o marketing da coligação nos publicitários Augusto Fonseca e Marcelo Simões.

Na campanha paulista, a ausência de Marta na visita de Mercadante e Marisa à Cohab, na sexta-feira, foi entendida como sinal de descaso. No mesmo dia, a ex-prefeita tinha entrevista marcada a uma rádio de São Paulo e cumpriu agenda na Praia Grande, litoral paulista. No local, santinhos distribuídos aos eleitores traziam a imagem da ex-prefeita ao lado apenas da presidenciável petista Dilma Rousseff.

O time de Marta nega qualquer resistência à campanha conjunta com Mercadante. Paulo Fiorilo, que deixou a Prefeitura de Osasco para assumir a coordenação da campanha da ex-prefeita, afirma que a ausência ocorreu porque ela não teria como desmarcar os compromissos previamente agendados. Segundo ele, uma reunião entre as coordenações de Marta e Mercadante definiram, na última quinta-feira, uma agenda comum. Fiorilo afirma desconhecer qualquer tensão dos candidatos. Segundo ele, novos materiais de campanha serão distribuídos a partir da semana que vem. Desta vez com fotos de todos os candidatos da chapa.

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Por enquanto, o apoio de Lula a Mercadante tem se dado principalmente no horário eleitoral gratuito, no rádio e na televisão. Ainda assim, o programa de TV provocou dor de cabeça na campanha paulista. A decisão de investir no voto em legenda e não levar ao ar imagens ou números dos candidatos petistas incomodou os postulantes a deputado do partido.

A estratégia, segundo alguns petistas, beneficiou apenas candidatos aliados da coligação. O caso mais simbólico é o do humorista Tiririca, que tenta se eleger deputado federal pelo PR. “Anticandidato”, segundo definição do próprio Mercadante, Tiririca virou sensação na internet ao admitir, no espaço para a propaganda eleitoral, que não sabia para que servia um deputado. “Vota em mim que eu te conto depois”, dizia o cantor, cujo slogan é: “Vote em Tiririca. Pior que tá não fica”.

Por pressão dos petistas, que não queriam ver o nome de Mercadante associado ao do humorista, o PR prometeu repaginar o discurso do candidato. O PT, de qualquer forma, decidiu rever a estratégia de pedir voto em legenda na TV. A imagem dos candidatos petistas a deputado deverá ir ao ar já na próxima semana.

*Colaboraram Clarissa Oliveira, Rodrigo Rodrigues e Ricardo Galhardo

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