Viviane Senna: “A gente trouxe a larga escala para o 3º setor"

Há 17 anos à frente do instituto que leva o nome do irmão, terapeuta diz que melhora na educação é pequena perto da necessidade

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo |

A voz pausada e tranquila, típica da terapeuta que é, contrasta com as palavras duras e urgentes que Viviane Senna usa para falar da área em que atua há 17 anos. A educação no Brasil é para ela o principal motivo de indignação desde março de 1994, quando o irmão, o piloto Ayrton Senna, a procurou dois meses antes do acidente fatal e pediu que pensasse em uma forma de ajudar o País.

Ela não conhecia a rotina escolar, mas partiu de um levantamento do que era mais necessário e concluiu que devia concentrar esforços na educação de jovens e crianças. “Infelizmente não deu tempo de eu responder ao Ayrton, mas a família resolveu levar a ideia adiante.” Em novembro do mesmo ano nasceu o Instituto Ayrton Senna.

Veja também : Retrospectiva 2011 - O ano do poder das mulheres

Há 17 anos na presidência da organização, Viviane não é modesta ao enumerar as conquistas. “A gente trouxe para o terceiro setor a visão de larga escala, que não existia até então”, diz, ao mesmo tempo em que mantém a aflição de quem tem um grande problema a superar. “Ainda é um quadro muito grave.”

Leia a seguir depoimento ao iG sobre os principais pontos de sua carreira e da visão que tem sobre a preponderância de mulheres a frente das instituições em prol da educação:

História pessoal

Na verdade eu sou terapeuta, sou psicóloga. Trabalhei durante quase 20 anos na área. Quando o Ayrton veio conversar comigo sobre fazer alguma coisa para ajudar foi por causa disso, da minha experiência no campo de ajuda. Ele me disse para pensar e planejar alguma coisa para ser feito. Infelizmente não deu tempo, ele sofreu o acidente dois meses depois. Então, a gente como família decidiu levar adiante essa ideia e eu fui estudar o que seria mais importante e estratégico para o País. Continuei com consultório durante mais dois anos, pretendia conciliar, mas depois abri mão porque eram dois níveis de exigência muito altos. Os pacientes eu podia encaminhar, o instituto, não.

Criação do Instituto

A primeira coisa foi a definição do público: criança e jovem. Por mais que todos importem e tenha muito o que fazer em qualquer faixa de idade, esta é a mais importante porque o investimento rende para toda a vida. Vai trazer frutos para o Brasil ao longo de 50, 70 anos. A segunda foi o que fazer para esta faixa etária e foi escolhido educação, de novo porque é a escolha mais estratégica frente a todas as outras. O retorno é superior ao de saúde, infraestrutura, habitação ou qualquer outra área. Por isso, mesmo tendo origem na área da saúde, o que me guiou foi o que era melhor para o País. Hoje atendemos 2 milhões de crianças por ano em parceria com o sistema público, estamos em todos os Estados e em um quinto dos municípios brasileiros.

Divulgação
Viviane Senna em visita a projeto mantido pelo instituto
Maior contribuição

Vir de outra área é bastante benéfico porque você traz uma experiência e uma visão não viciada. A gente trouxe para o terceiro setor uma visão de larga escala que não existia. Você ia lá criava uma ONG, atendia 300, 500 crianças, coisas que são bastante pontuais e que têm muito mérito, porém do ponto de vista do desafio que o País tem, não dão conta. O problema em relação à infância e à juventude é genérico. Quem não está incluído não é meia dúzia, são os 99,9%. Não adianta vir com estratégia de varejo para enfrentar problema de atacado, não fecha a conta. Logo que começamos, a gente apoiava uma ONG aqui, outra lá e comecei a ficar muito aflita. As pessoas achavam que era um problema do governo ou de Deus e que fazer uma parte já estava bom. Era como criar um monte de ilhas no meio do mar.

Precisava de um alcance maior. Descobri que a melhor maneira de trabalhar em larga escala sem ser governo era usando um modelo que eu vi na psicologia. Freud e Young eram terapeutas famosos que atenderam durante suas vidas, 10, 20, 30 dúzias de pacientes, mas eles criaram um modelo, uma escola de pensamento que, esta sim, é capaz de atender milhões, no mundo inteiro. Para pegar ainda outro exemplo na área da saúde, você tem um vírus que está atacando a população, pode tratar uma pessoa ou criar uma vacina que pode distribuir em qualquer lugar do mundo. Esse tipo de estratégia era a saída. Foi assim que transformei o instituto em um laboratório ou centro gerador de conhecimento capaz de desenvolver metodologias e fórmulas que são capazes de ter altíssima eficiência em larga escala.

Educação atualmente

Existe uma melhora na questão da desigualdade por conta dos quase 40 milhões de pessoas saindo da classe D e E e indo para a Classe C, mas ainda é um quadro muito grave. Porque como ele era muito, muito sério, a despeito de ter melhorado, nós ainda somos o mais desigual dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A Educação nunca foi priorizada durante os 500 anos de história, fomos um dos últimos países a abolir a escravidão e também a instalar um sistemas de educação massivos, que veio só há 20 anos. A gente começou a compreender agora que há muito a fazer pela formação das crianças. De cada 10 que saem do ensino médio, só 2 sabem português direito e 1, matemática. Falta muito.

Mulheres e instituições ligadas à educação

Historicamente educação é um campo que tem uma presença feminina muito grande, então certamente a educação acaba tendo a ver com a mulher porque a gente tem uma preponderância maior. Mas não acho que seja algo exclusivo ou deva ser. Acho que a mulher tem um perfil natural, pelo lado materno, de propensão a desenvolver um ser. É natural que isso acabe levando ela às profissões que envolvam este tipo de vínculo, em prol do desenvolvimento do outro, mas pode ser em educação, saúde ou outra área. Tenho três filhos, de 32, 28 e 25 anos. Eles acompanham e ajudam a fundação, mas acho que meu lado profissional foi a base que direcionou minha carreira para educação e não o fato de ser mulher.

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