Uso de linguagem popular na sala de aula é orientação do MEC

Além do livro com “nós pega”, outras obras didáticas abordam variantes da língua e dizem que não há única forma correta de falar

Marina Morena Costa e Tatiana Klix, iG São Paulo | 19/05/2011 11:00

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O livro Por uma vida melhor, da Coleção Viver, Aprender, que defende construções da língua popular como “nós pega o peixe” segue os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) do Ministério da Educação (MEC). A obra criticada por especialistas, professores e pela Academia Brasileira de Letras após o iG revelar trechos que abordam a linguagem falada não é o único material didático a apresentar as diferenças entre a língua popular e culta. 

Publicados em 1998, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, os parâmetros do MEC foram elaborados por educadores e pesquisadores para construir referências nacionais de ensino que respeitassem as diversidades regionais, culturais e políticas. As diretrizes defendem conceitos de linguística (ciência que estuda a linguagem humana) e afirmam que não há uma única forma correta de falar, somente de escrever. 

O documento explica que a língua portuguesa está em constante transformação e apresenta diferentes variedades (de pronúncia, de construções sintáticas, morfológicas, etc). Entre essas variedades, a de maior prestígio é a padrão, também chamada de norma culta, e por isso deve ser usada em ambientes formais, acadêmicos e na escrita. Já as demais variedades (linguagens urbanas, regionais, coloquiais), consideradas inferiores ou erradas pela gramática, podem ser utilizadas em ambientes familiares ao falante. 

Em determinado trecho do livro Por uma vida melhor, distribuído pelo MEC a escolas de Educação de Jovens e Adultos, os autores afirmam: “Você pode estar se perguntando: Mas eu posso falar ‘os livro?’. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. Kátia Lomba Bräkling, professora de linguística e uma das elaboradoras dos PCNs de língua portuguesa, avalia que o material “está perfeito”. “A gente comete coisas piores ao falar. ‘Comemos’ o ‘r’ final de todos os verbos no infinitivo. Dizemos: ‘falá’, ‘cantá’, ‘brincá’. Mas se eu estiver em um contexto familiar, posso falar do jeito que eu quiser”, defende. 

Mitos

O documento que dá as diretrizes para o ensino de língua portuguesa no segundo ciclo do ensino fundamental (do 6º ao 9º ano) – mesmo segmento do livro Por uma vida melhor – afirma: “No ensino-aprendizagem de diferentes padrões de fala e escrita, o que se almeja não é levar os alunos a falar certo, mas permitir-lhes a escolha da forma de fala a utilizar”.

Em outro trecho, o documento diz que a escola precisa “livrar-se de vários mitos”. E elenca: “o de que existe uma forma ‘correta’ de falar, o de que a fala de uma região é melhor da que a de outras, o de que a fala ‘correta’ é a que se aproxima da língua escrita, o de que o brasileiro fala mal o português, o de que o português é uma língua difícil, o de que é preciso ‘consertar’ a fala do aluno para evitar que ele escreva errado”. De acordo com os parâmetros nacionais, não há “erro” na fala, mas sim “adequação às circunstâncias de uso, de utilização adequada da linguagem”.

Formal x informal 

Foto: Reprodução

Trecho do livro "EJA", da coleção Tempo de Aprender, também distribuído pelo MEC

O iG teve acesso a outras obras didáticas de língua portuguesa que abordam as diferentes linguagens. O livro EJA 6º ano, da coleção “Tempo de Aprender”, também distribuído pelo MEC, apresenta um depoimento autobiográfico de Patativa do Assaré, poeta popular. “Digo e não peço segredo” contém a expressão “Icelentíssima dotôra”. Ao explicar os níveis de linguagem formal e informal, os autores afirmam: “Tanto na fala quanto na escrita há situações em que é mais adequado empregar a linguagem formal e outras que requerem um nível de linguagem mais informal. Isso dependerá da situação comunicativa em que o falante se encontra”.

O livro Língua e Linguagem, de William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, utilizado no ensino fundamental de uma escola particular de São Paulo, tem um capítulo chamado “As variedades de uma língua plural”. Um trecho explica as diferenças da língua falada e culta: “Quando se trata de comunicação verbal, todas as variedades linguísticas são eficientes e possuem valor nas comunidades em que são faladas. No entanto, entre as variedades existe uma que tem maior prestígio social, pois é utilizada em livros, documentos, jornais, revistas e pessoas que tiveram mais acesso aos estudos. Trata-se da língua padrão, também chamada de variedade padrão ou norma culta”. Na seção de exercícios, propõe o seguinte questionamento:

“Em variedades não padrão da língua é comum não haver concordância em algumas situações. Observe e compare:

Variedade padrão: o pedal – os pedais
Variedade não padrão: o pedar – os pedar

A expressão ‘os pedar’ foge às convenções da língua padrão, mas há uma razão lógica que poderia justificar a falta de concordância. Qual é ela?”, questiona.

A professora Magda Soares, autora de livros didáticos de português, afirma que o livro Por uma vida melhor virou "boi de piranha". “Atualmente, todo o livro didático atualizado toca no tema do preconceito linguístico”, diz.

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    20 Comentários |

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    • Ana Beatriz | 01/06/2011 00:25

      Onde está nosso futuro?vocês conseguem enxegar?sinceramente está muito dificil,queremos um Brasil AVANTE um Brasil de se admirar e não um Brasil que é de acordo a linguagem escrita informal.Ainda tenho uma esperança..

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    • lú castro | 31/05/2011 14:22

      quem mandou votar em analfabeto??? agora aguenta!!!!!!!!!!!!!!!!, ele não era o cara!!!!!!!!!!, sim uns verdadeiros caras de pau, continuam todos aí......um a um.......................... BEM FEITO.

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    • Fernanda Cristina de Siqueira | 23/05/2011 12:55

      Ê Brasil!! Fora Fernando Haddad!

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    • Perez | 20/05/2011 19:17

      O IG já recebeu o pronunciamento da ABRALIN (Associação Brasileira de Linguística)? Pelo jeito, sim. Já mudou um pouco o tom. Se não recebeu, compensa dar uma lidinha básica no documento. Se alguém contrai uma doença grave, procura um médico ou o charlatão da esquina? Ora, falar de língua e julgar um material didático sobre língua, sem consultar os linguistas, parece presunçoso. Foi isso o que o Brasil presenciou nas últimas duas semanas: jornais e revistas falando de uma "doença", sem consultar os "médicos". Recomendação de leitura aos "especialistas" que dão palpite neste espaço: "A língua de Eulália: novela sociolinguística", da Editora Contexto. É uma leitura agradável e pertinente.

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    • ivondina | 20/05/2011 11:33

      É um absurdo o MEC dizer que as escolas devem ensinar a forma popular de falar, se ainda até hoje existe pais que ensinam errado é por que, eles aprenderam errado. o Brasil já visto como um pais subdesenvolvido, as pessoas que vão trabalhar fora do pais, na maioria das veze conseguem apenas empregos de empregada domestica, garçons, e até mesmo garota de programa, memso tendo nivel superior, justamente por que somos, vistos como semi analfabetos lá fora, isso não é justo, a escola foi feita para ensinar o que é correto e não o que é errado, imagina a Nossa Presidenta falando "NÓS PEGA O AVIÃO PARA OS ESTADO UNIDO" tenho certeza que ninguem vai criticá-la no momento, mas com certeza iremos ver váras críticas em todos os meios de comunicação, temos que pensar na profissinalização das nossas crianças que são o futuro do Brasil.

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      Marcia | 21/05/2011 13:44

      Gente, desculpa, mas vocês não estão entendendo o que acontece aqui. Não se está ensinando como se DEVE escrever, a gramática continua a mesma, a linguagem culta, padrão, normativa, continua a mesma. O fato é que o MEC pretende mostrar que estas variantes existem e que fazem parte do nosso dia a dia. Quem de vocês nunca cometeu um erro de português, que atire a primeira pedra. A autora deixa bem claro que não está estabelecendo como padrão linguistico o escrever errado, mas está mostrando que existe. O erro do MEC foi divulgar este tipo de material para pessoas de nível intelectual baixo e para um país onde somente o que é errado ressalta aos olhos. Pensem um pouco no que estão dizendo, divulgando. Vocês é que estão dizendo estas barbáries, não o MEC.\nPara um maior aprofundamento neste assunto, recomendo o livro "A Língua de Eulália" de Marcos Bagno.\nAbraços a todos

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    • BRASISSSS | 20/05/2011 09:27

      TIRA ESSE FERNANDO HADDDDDD,,, DAIIIIIIIIIIIIIIII SOCORROOROROROROROROROROR

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    • Nilza | 20/05/2011 01:05

      Por favor, Senhor Ministro repense o que está fazendo. Assassinando o nosso portugues, incentivando de uma maneira incorreta o aprendizado nas escolas. Ministro da Educação, quando vamos para a escola, estamos indo em busca de melhoria de aprimoramento. Não venha com esta história em dizer que é preconceito quando temos que corrigir quem está falando errado, pois temos que corrigir sim, ensinar o certo sim. Temos que incentivar os alunos a conjugar os verbos.\nSinceramente, o senhor é uma decepção internacional. Pense e se vá!

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    • Luis Proteo | 20/05/2011 00:04

      Não costumo concordar com o MEC, ou com qualquer governo. Sou contra a escola com instituição porque, como a família e as igrejas, seu formato medieval adaptado só serve para formar robôs obedientes. E o pior é que todo papo cidadão e igualitário e humanista ensinado nelas desde a infância cai por terra diante da realidade feroz e desumana do mercado e do trabalho, na primeira busca por emprego. Mas é verdade que não existe forma "correta" de nenhuma criação social, por si. Achar que existe é ideologia, é falseamento da realidae. É achar que só presta a "verdade" da burguesia e que os pobres tem que se adaptar a ela. Discutir quem cria e impõe as normas gramaticais (acaso foi alguma Academia eleita pelo voto popular?) é sempre um avanço, embora isuficiente. Nos leva a questionar várias outras regras sem sentido que nos são impostas somente pela força e pela humilhação contínuas. Mas sempre é bom conhecer a norma culta pra uma coisa: entender como nossos dominadores a usam para nos enrolar, enganar e oprimir. É um veículo de arte e cultura (mas qual? de quem?), mas também, como dizia o grande Bezerra da Silva, a "gíria dos doutores pra trambicar favelado". E a reação furiosa das elites e dos proletários cooptados quanto a esta reforminha social-democrata mostra bem como há muito medo de que a massa entenda isso.

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    • Alessandro | 19/05/2011 23:19

      Não tecerei muitas palavras para contra-argumentar os comentários anteriores. Para tanto, irei fazer ,apenas, uma pergunta-reflexiva a respeito das exaustivas críticas expostas pelos , possivelmente, "nobres e cultos" internautas: vocês leram a obra?! ou estão ,pacoviamente - em homenagem a vocês-, acreditando nas "mirabolantes" notícias divulgas nos incontestáveis veículos midiáticos da atualidade?!

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