Universidades americanas adotam "controle remoto" de alunos

Mais de meio milhão de estudantes estão usando dispositivo tipo "Big Brother" que informa presença e aumenta colaboração na aula

Jacques Steinberg, do New York Times |

Se qualquer um dos 70 alunos de graduação do curso de "Comportamento Organizacional" do professor Bill White na Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, estiver atrasado para a aula ou não estiver prestando atenção, ele vai saber sem ter que olhar para os rostos presentes na sala de aula. Os "cliques" denunciam.

Cada aluno da aula de White recebeu um dispositivo sem fio que parece um controle remoto de TV, mas tem um propósito muito menos divertido. Com seus cliques, os estudantes automaticamente marcam sua presença ao entrar na classe.

Em seguida, eles usam as teclas numéricas do dispositivo para responder a questionários de múltipla escolha que valem quase 20% da sua nota final e que sempre começam exatamente no primeiro minuto de aula. Mais tarde, com um clique, eles podem avisar o professor, sem levantar a mão, que estão confusos sobre a lição do dia.

Mas o maior impacto de tais dispositivos – que mais de meio milhão de alunos estão usando em milhares de campi universitários – pode ser cultural: eles alteraram, talvez irremediavelmente, a programação de quem acreditava poder tirar um cochilo no fundo da sala e tornaram mais difícil para os alunos responderem a mensagens de texto, e-mails e outras distrações durante as aulas.

Na aula de 90 minutos de White, como em classes semelhantes em Harvard, Universidade do Arizona e Vanderbilt, nem 15 minutos passam sem que ele peça a seus alunos que "usem seus cliques" para reagir ao que foi ensinado.

Embora alguns estudantes de Northwestern digam se ressentir do potencial Big Brother de tudo isso, Jasmine Morris, formanda em engenharia industrial, não é uma delas.

"Eu gosto", disse Morris após uma aula na semana passada. "Isso faz você ler. Faz com que você preste atenção e reforça o que você deve estar fazendo como estudante".

Inevitavelmente, alguns alunos têm sido tentados a ver os aparelhos como peças de um jogo de "gato e rato". Noshir Contractor, que ensina uma aula sobre redes sociais para graduandos da Universidade Northwestern, disse que começou a usar o aparelho na primavera de 2008 – e, não muito tempo depois, viu uma estudante lidar com cinco dos dispositivos de uma vez.

Os proprietários tinham escapado da aula, mas os aparelhos estavam lá.

Contractor disse que tirou o chapéu para a criatividade dos alunos – esta era, afinal, uma aula sobre redes sociais –, mas depois lembrou-lhes que "há outras maneiras de contar a frequência" e que, por sinal, todos haviam assinado o princípio de honra da universidade. A prática parou, ele disse.

Embora a tecnologia seja relativamente nova, estudos preliminares em Harvard e Ohio State, entre outras instituições, sugerem que envolver os alunos em sala de aula através de um dispositivo tão familiar para eles quanto um telefone celular – há até mesmo aplicativos que convertem iPads e BlackBerries em dispositivos de cliques – aumenta sua compreensão do material que poderia ser apresentado em aulas tradicionais.

O aparelhos de cliques também estão ganhando amplo uso no ensino fundamental e médio, bem como em encontros empresariais. Seja qual for o cenário, as respostas do público são recebidas em um computador na frente da sala e imediatamente traduzidas em gráficos de barras coloridas exibidos em um monitor gigante.

Os aparelhos utilizados na Northwestern foram feitos pela Turning Technologies, uma empresa de Youngstown, Ohio, e são compatíveis com o PowerPoint. Dependendo do modelo, o dispositivo pode custar entre US$ 30 e US$ 70 cada. Algumas faculdades exigem que os alunos comprem o aparelho, outras emprestam-nos aos estudantes.

Tina Rooks, diretora de instrução da Turning Technologies, disse que a companhia espera vender mais de 1 milhão de aparelhos este ano, com cerca de metade destinada a 2.500 campi universitários, incluindo faculdades comunitárias e instituições com fins lucrativos. A companhia disse que suas vendas ao setor do ensino superior cresceram 60% desde 2008 e 95% desde 2006.

Na Northwestern, mais de trinta professores usam os aparelhos em suas salas de aula. White, que ensina engenharia industrial, foi um dos primeiros a adotá-los a cerca de seis anos.

Ele sorriu conscientemente quando perguntado sobre alguns alunos não gostarem do dispositivo.

"Eles devem andar com eles nas mãos, na hora, e pronto", ele disse.

White reconheceu, porém, que o aparelhos de cliques não são uma solução para envolver os alunos, e que eles são apenas uma das muitas ferramentas que ele utiliza, incluindo vídeos, palestras e convidar os alunos individualmente a compartilhar seus pensamentos.

"Todo mundo aprende de maneira diferente", ele disse. "Alguns aprendem vendo coisas. Alguns aprendem ouvindo. Alguns aprendem através da leitura. Eu tento misturar tudo em todas as aulas".

Muitos dos alunos de White disseram que o ponto alto de sua aula é frequentemente a apresentação dos resultados de perguntas pelos cliques, quando eles conseguem ver se seus colegas compartilham as suas opiniões. Eles também disseram apreciar o anonimato e que, embora o professor saiba como eles responderam, seus colegas não.

Na semana passada, por exemplo, ele mostrou uma foto do presidente da universidade, Morton Schapiro, na tela, juntamente com uma pergunta: "Fonte de poder?", seguida por essas possíveis respostas:

1. Poder coercitivo (por vezes punitivo).
2. Poder por recompensa.
3. Poder legítimo (normalmente pela própria virtude).
4. Poder especializado (mais tipicamente aplicado a alguém como um eletricista ou mecânico).
5. Poder referente (geralmente ligado a forma como o líder é visto pessoalmente).

Para o alívio de White, uma clara maioria, 71%, escolheu a resposta número 3, um sinal de que eles consideram seu chefe supremo "legítimo".

E então, para seu deleite, os alunos saíram de trás do véu eletrônico para registrar suas opiniões à maneira antiga.

"Eles podem ser muito relutantes em falar quando pensam que estão em minoria", disse ele. "Quando eles vêem que não são os únicos, eles falam mais".


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