Com cinco campi, UFFS surgiu a partir da demanda de movimentos sociais e dá prioridade a alunos oriundos do ensino público

A jovem Diágora Joane Ungaratti, de 19 anos, estuda agronomia para seguir a tradição da família. Filha e neta de agricultores, quer se formar para ajudar na terra os avós e os tios, com quem morava em uma pequena propriedade rural até ingressar na nova Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em Chapecó, no oeste de Santa Catarina, a mais antiga e até agora bem estruturada das quatro instituições federais criadas desde setembro de 2009 e que fazem parte de série de reportagens que o iG publica até sábado . Antes de se tornar uma estudante universitária, Diágora concluiu o ensino médio em uma escola agrícola pública e frequentava um curso técnico, enquanto aguardava a universidade ser instalada.

“A gente sabia que a UFSS estava para nascer, e fiquei esperando”, conta.

Para realizar o sonho do diploma superior ao qual seus familiares não tiveram acesso – os avós foram até a quarta série do ensino fundamental, e a mãe até a oitava –, Diágora está se adaptando a uma rotina de estudos intensa. Pela manhã, frequenta as aulas do primeiro semestre no campus principal da instituição, em sua maioria de disciplinas comuns a todos os cursos , e à tarde se divide entre estudar mais e cumprir as atividades de iniciação acadêmica pelas quais recebe uma bolsa de R$ 450. Com esse dinheiro e uma pequena ajuda dos avós e da mãe, que mora com o padrasto em um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em Campos Novos (SC), ela consegue se manter morando em uma pensão na cidade e pode se dedicar só à UFFS.

“Tenho algumas dificuldades, principalmente em química e matemática”, diz Diágora ao lado de colegas com histórias de vida parecidas: frequentaram o ensino médio em escolas públicas, têm pais agricultores ou com profissões que não exigem formação superior, como pedreiro, comerciante, diarista, operário – a maioria deles não concluíram mais do que o ensino fundamental, podem ajudar pouco os filhos financeiramente e não teriam condições de arcar com uma mensalidade de uma instituição privada. Esses estudantes universitários estão matriculados nos novos cursos criados para atender necessidades da região onde a instituição está inserida, como agronomia, engenharia de alimentos, desenvolvimento rural e gestão agroindustrial e licenciaturas.

Origem nos movimentos sociais

Esse perfil dos estudantes na UFFS não ocorre por acaso – 91% deles são oriundos de escolas públicas – e vai ao encontro do objetivo da universidade: interiorizar o ensino superior federal e democratizá-lo.

“A UFFS foi criada a partir de uma demanda de movimentos sociais da região que compreende o noroeste do Rio Grande do Sul, o oeste de Santa Catarina e o sudoeste do Paraná e coincidiu com o esforço do governo de expandir as federais”, explica o reitor Dilvo Ristoff.

Toda a concepção da UFFS foi amplamente discutida e debatida entre movimentos como a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul), a Via Campesina e a Central Única dos Trabalhadores (CUT). O projeto que chegou, e depois foi aprovado, ao Congresso Nacional já definia uma série de características da nova instituição, que deveria ser democrática, contemplar os pobres e teria cinco campi, para suprir a carência de vagas na região. Mas algumas práticas acabaram sendo implementadas depois, segundo o reitor.

“Os movimentos sociais, por exemplo, queriam 12 cotas. Tinha cota para agricultores, atingidos por barragens, negros, pobres e outras que nem lembro mais. Seria absolutamente inviável fazer esse tipo de política, a experiência mostra que levaria a fraudes”, conta Ristoff. Para garantir que a universidade seja popular, como ele mesmo a apelidou, foi criada uma bonificação no processo de seleção – feito pelo Enem – para quem fez todo o ensino médio em escolas públicas.

“A UFFS é um sonho que surgiu em 2005”, conta a aluna do segundo semestre do curso de sociologia Camila Pelegrini, de 22 anos, que participou de caminhadas, passeatas e seminários para levar a universidade para a região. Filha de donos de uma pequena propriedade leiteira em Ipumirim, a 90 quilômetros de Chapecó, ligados a sindicatos rurais, ela própria já exerce sua militância dentro da igreja. Ficou cinco anos sem estudar até o início das atividades da instituição, período em que trabalhou em Chapecó na secretaria de uma paróquia e participou ativamente das discussões para criar a UFFS. E agora tem orgulho dela e quer divulgá-la. Para isso, recolhe dinheiro entre estudantes interessados em adquirir uma camiseta com o símbolo da universidade.

“Somos acadêmicos, com muito prazer, e temos que mostrar isso”, diz.

Arte/iG
Cinco campi

Entre as negociações que ocorreram antes da criação da UFFS, houve uma ampla disputa para receber um de seus cinco campi. Prefeituras, vereadores, deputados e senadores catarinenses, gaúchos e paranaenses entraram na briga mais do que com argumentos, mas com ofertas e contribuições.

“Hoje, temos mais de 500 hectares de área doada”, diz o reitor.

Para sediar o principal campus, Santa Catarina, o único Estado na Região Sul com apenas uma universidade federal até então, abriu mão de ter duas sedes. Um dos motivos que fizeram com que Chapecó fosse escolhida para receber a reitoria e o maior número de cursos é o fato de a cidade ter um aeroporto. No Rio Grande do Sul, foram instalados campi em Erechim e Cerro Largo, e no Paraná, em Laranjeiras do Sul e Realeza. Por enquanto, os campi são pequenos e ficam em sedes provisórias alugadas – o maior deles, em Chapecó, tem 724 alunos, 85 professores e 133 técnicos, e o menor, no município paranaense de 30 mil habitantes de Laranjeiras do Sul, tem 239 estudantes, 31 docentes e 29 funcionários. Ao todo, a universidade tem atualmente 1972 alunos em 33 diferentes cursos, mas o objetivo é chegar a 10 mil alunos e 500 professores em quatro anos.

As cidades que sediam a UFFS, apesar de fazerem parte de uma mesma mesorregião que reúne 396 municípios (da Fronteira do Mercosul), não são próximas umas das outras: entre Cerro Largo e Laranjeiras do Sul, por exemplo, são mais de 600 quilômetros. Essa estrutura espalhada, também definida pelos movimentos sociais, faz com que a instituição já nasça com dois grandes desafios, o de integrar as unidades localizadas em três Estados com realidades distintas e a de criar uma cultura universitária em comunidades com número restrito de alunos e docentes.

Segundo o diretor do pequeno campus de Realeza, no Paraná, João Alfredo Braida, normalmente o percentual de estudantes que se envolve efetivamente com a universidade, participando de atividades de pesquisa, extensão, frequentando a biblioteca e as salas de estudo fica em torno de 10 a 20%.

“Num campus com 1200 alunos (número que a sede no município de 17 mil habitantes deve alcançar até 2015), corremos o risco de a universidade ser apenas um lugar em que as pessoas vão às aulas e logo depois voltam para casa”, diz.

O tamanho das cidades também é apontado como um fator que dificulta a criação da cultura universitária, uma vez que elas oferecem poucas – ou nenhuma - opções culturais.

“Na verdade, a UFFS vai ter que desencadear isso nos municípios”, prevê Braida.

Ações como uma mostra de cinema que reúne toda sexta-feira em torno de 100 pessoas no auditório da instituição em Laranjeiras do Sul cumprem esse papel.

O reitor compartilha da mesma preocupação e acrescenta mais uma, a de que o corpo docente, formado em grande maioria por professores de outras municípios ou Estados, acabe por não incorporar a universidade ao seu dia-a-dia: “O professor não pode dar sua aula e se mandar. Precisa viver a cidade, o campus e criar espírito de casa”.

Por isso, explica que defendeu que os campi não fossem inaugurados com menos de quatro graduações (o projeto inicial previa campi apenas com duas), sendo que cada uma das sedes tem uma espécie de carro-chefe, um curso que só tem naquele campus. É o caso da arquitetura em Erechim. O aluno Edgar de Souza, de 19 anos, mesmo sendo da cidade do campus principal, Chapecó, se mudou para o Rio Grande do Sul para fazer a graduação que ele sempre quis. Ele já havia passado em 2008 no vestibular na UnoChapecó, mas não teve condições de pagar a mensalidade. Agora, com a bolsa permanência de R$ 250 que recebe da UFFS e mais um trabalho à tarde em um escritório de engenharia, consegue se manter no município gaúcho. Está encantando com os professores e avalia que os materiais e laboratórios são bons para serem de um primeiro ano de universidade, mas reclama da falta de estrutura estudantil na cidade.

“O comércio não se ligou que tem uma federal aqui. Não tem apartamento adequado a estudantes para alugar e o restaurante popular fechou”, reclama.

Fazendo história

“É a minha vida que estou construindo aqui junto com a universidade”. O sentimento da professora e coordenadora do curso de arquitetura em Erechim, Daniella Reche, de 29 anos, é comum à maioria dos docentes, funcionários e alunos na UFFS. Natural de Chapecó, mas distante da região desde a adolescência, quando foi estudar na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde posteriormente também lecionou, Daniella está feliz em recomeçar a vida como concursada e com regime de exclusividade na nova instituição.

“Eu tenho muito mais a contribuir aqui, tanto na formação da UFFS como para pensar nas questões urbanas da região. Recebo toda semana ligações de prefeituras que pedem auxílio para criar políticas de patrimônio histórico”, conta.

Assim como a maioria dos professores, Daniella elenca como dificuldades a ainda incipiente estrutura do campus provisório instalado em um prédio alugado de um seminário católico e a falta de histórico e experiência. Tudo é novo, a cada disciplina que é ministrada, é preciso imaginar que tipo de laboratório será necessário, os materiais que serão usados e como será o cronograma das aulas. A essa realidade adiciona-se os processos burocráticos inerentes às instituições públicas, como licitações, aprovações de orçamento e concursos para professores.

“Mas tudo se dá um jeito, estamos fazendo convênios e às vezes até improvisando. Está dando certo”, diz.

Darlan Kroth, de 29 anos, coordenador do curso de administração, também considera um sonho trabalhar como professor em uma universidade pública e vê a instituição como um filho, mas sente falta de uma estrutura preparada de pesquisa. Muitos professores seguem tocando seus projetos pessoais, às vezes ligados a outras instituições, mas ainda é preciso desenvolver os núcleos dentro da UFFS do zero. O pró-reitor de pós-graduação já está trabalhando na criação de programas de mestrado e deve submeter os dois primeiros à aprovação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em julho de 2011. A meta é implantar sete programas em cinco anos.

Entre os primeiros funcionários a chegar a Chapecó, os relatos se parecem. Sabrina Vaz da Silva, de 23 anos, que trabalha na biblioteca, estava na primeira turma de 53 técnicos a tomar posse em fevereiro deste ano e lembra que no início todos tiveram que abrir caixas, disputar cadeiras para sentar, ajudar a montar móveis, para então começar a trabalhar.

“Foi bom, a gente sente que faz parte da história”, diz a bibliotecária que se mudou de Rio Grande (RS) para assumir a vaga na UFFS.

Conheça nesta quinta-feira a história da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém.

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