Unila persegue integração pela língua e convivência

Universidade da Integração Latino-Americana, mantida pelo Brasil, tem alunos de Argentina, Paraguai e Uruguai

Tatiana Klix, enviada a Foz do Iguaçu (PR) |

A palavra integração não é apenas um mero nome para a Universidade da Integração Latino Americana, inaugurada neste segundo semestre de 2010. Em suas salas ainda provisórias dentro do Parque Tecnológico da Usina de Itaipu, estudantes brasileiros, uruguaios, argentinos e paraguaios aprendem com professores que dão as lições em sua língua de origem: o português ou o espanhol. Quando a aula termina, eles retornam para a moradia estudantil, onde ficam hospedados em quartos duplos – sempre compartilhados por um brasileiro e um estrangeiro. Tudo isso ocorre em Foz do Iguaçu, na tríplice fronteira, uma região repleta de pessoas de etnias estrangeiras.

Nesse primeiro semestre de funcionamento, os 206 alunos – metade deles brasileiros e a outra parcela de fora – estão divididos em seis cursos, mas não têm sempre os mesmos colegas. Como a maioria das disciplinas são comuns para todos, a Unila faz questão de misturá-los por nacionalidade e opção de formação. As únicas cadeiras frequentadas só por brasileiros são as de espanhol, assim como todos os estrangeiros se juntam nas aulas de português.

“Isso aqui são várias integrações. Além da latino-americana, tem a brasileira – porque tem gente do Pará, do Rio Grande do Sul, de São Paulo –, a dos alunos com os professores e até com o reitor, que às vezes janta com a gente lá na casa de estudante”, conta o brasileiro Allan Francisco Camargo, de 20 anos, de Ribeirão Preto, que leva a sério a proposta da universidade também na vida pessoal e está namorando a uruguaia Kelen Lima, de 23 anos.

Para estudar na Unila, Allan abandonou o curso de ciências sociais no campus de Araraquara (SP) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que fica a 100 quilômetros de casa. Agora são 1000 quilômetros de distância, mas ele não se arrepende. “O curso me atraiu muito, me identifiquei, e está sendo melhor do que esperava”, conta.

Instituição brasileira também para vizinhos
Com o conceito de promover a integração dos países da América Latina e formar profissionais preocupados em desenvolver soluções aos problemas da região, a lei que instituiu a Unila, que é totalmente mantida e financiada pelo governo brasileiro, já estabelece as regras para isso: 50% dos estudantes selecionados devem ser brasileiros, e a outra metade, estrangeiros. Para os professores, a meta é a mesma, embora até agora somente sete do total de 24 professores seja de outro país, incluindo o vice-reitor uruguaio Gerónimo de Sierra. Alunos de três países, fora o Brasil, participam das aulas, mas o objetivo é ir até o Caribe. Para o próximo semestre, a reitoria trabalha para fechar convênios com o Chile e o Peru.

Segundo o reitor Helgio Trindade, o País chegou a propor aos líderes do Mercosul que fosse criada uma universidade supranacional, mas a ideia não vingou, e o governo brasileiro decidiu levar a proposta adiante sozinho e financiar o estudo de estrangeiros, apesar das críticas daqueles que consideram mais importante aumentar o número de vagas para brasileiros.

“Dado ao peso que a nossa economia tem na América Latina e ao papel que o País quer desempenhar, cabe ao Brasil uma responsabilidade maior. Tenho certeza que o investimento é de alto retorno em conhecimento para o Brasil e outros países”, diz o pró-reitor de planejamento e administração Paulino Motter.

No Brasil, os alunos são selecionados pela nota do Enem e os estudantes egressos de escolas públicas ganham uma bonificação. Para a seleção dos estrangeiros, foram estabelecidos critérios mínimos de formação e socioeconômicos, e os ministérios de educação dos países de origem fazem as indicações.

“Fiquei sabendo da universidade pelo site do Ministério da Educação argentino”, conta Maria Alfonsina, de Tucumã, na Argentina, que em uma semana se inscreveu na seleção, entregou uma pasta com documentos e já teve que tomar a decisão de viajar ao Brasil para estudar biologia. “Foi muito rápido!”, lembra.

Conhecimento voltado para o continente
Os cursos da Unila foram pensados para formar profissionais com foco no continente. Para isso, os alunos passam por um ciclo de estudos de dois semestres – que tem a participação de todos os professores da instituição – para prover conhecimentos sobre a América Latina, de formação científica (metodologia) e de línguas. A cadeira mais representativa desse esforço é a de estudos da América Latina, na qual professores de diversas áreas como economia, história, sociologia, geografia e biologia se revezam.

“Nem todos precisam ser especialistas na história da América Latina, mas têm que ter base para analisar e fazer propostas pensando nisso”, explica o pró-reitor de graduação, Orlando Pilati. “O engenheiro que se formar aqui não vai ser um engenheiro tradicional. Vai ser um engenheiro de infraestrutura, com um olhar para as questões da região”, diz.

A proposta do ciclo comum, que no início causou estranhamento naqueles que esperavam já iniciar os estudos das carreiras escolhidas (no primeiro semestre, há apenas uma cadeira de formação específica), está sendo bem aceita pelos alunos.

“A divisão de humanas e exatas na ciclo inicial é muito legal, diz o estudante Gilson César Francischini, de 23 anos, que chegou a estudar enfermagem na Universidade Estadual de Londrina, enquanto acompanhava o noticiário para saber quando a Unila começaria as atividades.

Universidade bilíngue
Para viabilizar a primeira universidade bilíngue do Brasil, é necessário esforço de alunos e professores. Como tudo é novo para todos, a professora de letras Diana Araújo Pereira, de 37 anos, do Rio de Janeiro, explica que somente as aulas de idioma do primeiro ciclo não serão suficientes e é preciso criar uma política linguística para a Unila.

“Já sentimos necessidade de ter um centro de línguas. Há alunos com níveis de conhecimento bem diferentes e professores também. Para complicar, muitos estudantes do Paraguai são da região da fronteira e tem como primeira língua o guarani. Vamos ter que dar atenção a esse terceiro idioma também”, diz.

Moradia estudantil faz parte da formação
Enquanto isso não acontece, boa parte do aprendizado acaba acontecendo pela conversação. O convívio se dá nas aulas e de maneira muito intensa na casa de estudante, um hotel primeiramente alugado e agora em fase de compra pela Unila, a primeira universidade a cumprir integralmente o decreto presidencial que institui o Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), que determina que as federais devem fornecer moradia, transporte, alimentação e atenção à saúde para alunos que tenham essas necessidades.

“Numa universidade com as características da Unila, que tem na própria concepção a integração como parte do projeto formativo, entendemos que a moradia estudantil é parte da experiência”, explica o pró-reitor Motter.

Tatiana Klix
Quase todos os 206 alunos do primeiro semestre da Unila moram na moradia estudantil
Na moradia, os alunos tomam café da manhã e jantam (o almoço é fornecido no refeitório do parque onde fica o campus provisório da universidade), e passam a maior parte do tempo livre. Alguns professores também moram no local, colocam um pouco de ordem na casa e acabam ajudando a preservar a segurança dos alunos. Quando o iG foi visitar o hotel, à noite, eles ficaram surpresos e explicaram que ninguém de fora poderia entrar sem autorização. Não é para menos. Logo na segunda semana de funcionamento da moradia, aconteceu um assalto, e agora há dois seguranças na porta.

Toda a facilidade do primeiro momento (os alunos contam até com serviços de limpeza) foi oferecida aos primeiros calouros da Unila – apenas os que são de Foz não estão lá. Mas à medida que a universidade for crescendo – o objetivo é ter 10 mil alunos em cinco anos –, a instituição terá que estabelecer critérios socioeconômicos para fornecer o benefício. O objetivo é criar 2 mil vagas de moradia nesse período. Ainda não está definido o que vai acontecer com os que já estão na casa e não atenderem esses requisitos.

Além do investimento necessário para chegar a essa meta, há ainda um desafio, novamente de integração, para colocar o plano em prática. Apesar de todos os estímulos que a Unila dá para a convivência de alunos de diversos países, a disposição dos alunos no refeitório mostra que fronteiras invisíveis permanecem. Grupos de brasileiros, uruguaios, paraguaios e argentinos se dividem entre as mesas.

O uruguaio Augustin Emiliano Casanova Torres, de 23 anos, conta que é assim mesmo. Há uma tendência de as pessoas conviverem mais com as que são do próprio país.

“É mais fácil ficar perto de quem tem a mesma cultura, mas isso não é um problema. Quando precisa, todo mundo se ajuda”, diz.
Tatiana Klix
Augustin Torres, uruguaio, e Paula Gerra, argentina, abrem o jogo: nem toda a integração é positiva na casa de estudante
No pátio da hospedagem há um campo de futebol, bastante usado pelos meninos, que normalmente realizam partidas entre países. Numa dessas ocasiões, o jogo, em vez de integrar, acabou na delegacia. Um brasileiro se machucou e fez uma ocorrência policial.

“Os argentinos não ficaram nada felizes nessa ocasião. Nossos papéis (documentos para legalizar a estada no Brasil) ainda não estavam prontos e isso poderia ter causado um prejuízo”, conta Paula Guerra, de 18 anos, de Salta, na Argentina. “Mas passou”, garante a estudante que, inclusive, namora um colega brasileiro. “Agora, o grupo envolvido na confusão se fala pouco, mas também não briga.”

Situações como essa, ou até mais simples, como a de como vão se entender dois colegas de quarto com atitudes distintas – um é estudioso e dorme cedo, e outro só quer saber de festa –, estão entre os principais desafios apontados por Motter para a moradia estudantil. Assim que tiver concluída a compra do hotel, está planejado um trabalho para estabelecer uma gestão compartilhada na casa, na qual os alunos terão de assumir responsabilidades. Numa universidade que tem na integração uma obsessão, o aprendizado será um grande teste para a própria instituição e seus conceitos.

Arte/iG
Fonte: Unila

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