UnB estuda punição para quem promove trotes violentos

Campanhas educativas não tem sido suficientes para acabar com ritos que envolvem sujeira e brincadeiras constrangedoras

Priscilla Borges, iG Brasília |

Os estudantes que organizarem trotes violentos ou com brincadeiras que submetam colegas a situações constrangedoras poderão ser punidos na Universidade de Brasília (UnB). A instituição discute em colegiados a adoção de medidas punitivas para casos em que os trotes – ritos de passagem tão comuns nas universidades brasileiras – passem dos limites aceitáveis e exponham jovens a brincadeiras nada saudáveis. Para muitos professores, só as tradicionais campanhas educativas não têm sido suficientes para conter esse tipo de trote.

nullA discussão sobre as brincadeiras realizadas pelos veteranos com os estudantes recém-chegados à universidade virou tema de reuniões na reitoria e nos colegiados depois de mais um episódio desagradável na instituição. No último dia 11, 41 calouros levaram banho de tinta, ovos e farinha; andaram de mãos dadas na posição conhecida como elefantinho (um na frente do outro, passando as mãos por debaixo das pernas) e cantando o hino do curso . Depois, lamberam uma linguiça coberta de leite condensado (veja vídeo ao lado) e entraram em uma piscina feita no chão com água, legumes e verduras.

As cenas – apesar de não serem inéditas, já que se repetem todos os semestres – chocaram a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. O órgão encaminhou uma representação cobrando explicações da UnB já que nas imagens divulgadas pela assessoria da própria instituição as alunas aparecem lambendo linguiça, simulando sexo oral. Para a secretaria, uma discriminação contra a mulher, opinião semelhante à do reitor da universidade, José Geraldo de Sousa Júnior.

O reitor pediu explicações à direção da Faculdade de Agronomia e Veterinária. A faculdade, segundo o assessor da reitoria Rafael Barbosa, já havia sido notificada pelo Decanato de Assuntos Comunitários no ano passado por conta do trote do semestre passado. Com o documento enviado pela secretaria, segundo Barbosa, o processo administrativo aberto para apurar os responsáveis pelas atividades do trote foi acelerado. A comissão que investiga o caso terá 30 dias para apresentar um relatório. Os colegiados decidirão depois as possíveis punições dos culpados.

Luana Lleras/UnB Agência/Divulgação
Os estudantes de agronomia tiveram de procurar sabonetes em uma piscina de lama durante trote no semestre passado
“Nos últimos dois anos, temos tratado o assunto de maneira educadora e pedagógica, mas houve violação de direitos humanos neste caso e poderemos tomar medidas disciplinares, de acordo com a avaliação das responsabilidades do trote”, afirma o assessor da reitoria. Segundo Barbosa, os tipos de punição, caso sejam necessários, serão definidos pelos conselhos da UnB.

Barbosa reconhece que o processo de educar os estudantes contra o trote leva tempo e, por isso, apesar das campanhas, eles ainda ocorrem . “Hoje, menos alunos aceitam o trote e menos cursos realizam trotes sujos. São avanços consideráveis. É um processo”, opina. O diretor da faculdade, Cícero Lopes, enviou um texto de repúdio ao trote à reitoria nesta segunda-feira.

Vontade própria

O presidente do Centro Acadêmico de Agronomia, Caio Batista, garante que a participação no trote é optativa e que nenhum estudante é forçado a participar de nenhuma atividade. “As próprias alunas não se mostram indignadas e humilhadas. A cena não é bonita, é verdade, mas essa não é uma prática nova, só não tinha chamado a atenção antes”, conta. Ele afirma que as brincadeiras não têm a intenção de humilhar os estudantes. “Todos se dão bem no curso”, garante.

Agência UnB
Trote violento se repete na UnB
Batista conta que algumas atividades já foram modificadas ao longo dos anos para evitar problemas e constrangimentos. Não há mais bebida alcoólica, segundo o dirigente do CA, há três anos. “Não foram só as meninas que chuparam a linguiça. Se as pessoas não quiserem mais participar, vamos mudar as brincadeiras. Nossa intenção é divertir e integrar”, diz. De acordo com ele, todos estão tranquilos para responder a sindicância aberta pela universidade.

O assessor Rafael Barbosa afirma que as possíveis punições não fazem sentido sozinhas. Por isso, as campanhas educativas serão mantidas de todo modo. Para ele, os trotes precisam ganhar novos significados. “O fato de a vítima não denunciar não faz com que o delito deixe de existir. O trote tem três dimensões: psicológica, antropológica e sociológica. É verdade que a entrada na universidade é um momento histórico, mas ele pode ser comemorado de forma diferente”, destaca.

Andrea Maranhão, professora do Instituto de Biologia e integrante do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da UnB, acredita que a instituição precisa definir um código de conduta. O documento teria de tratar claramente dos comportamentos aceitos ou não dentro da universidade e das possíveis sanções que poderiam ser aplicadas a quem não seguisse às regras. "É preciso combinar a educação e a punição para que as coisas mudem. Em Brasília, por exemplo, não temos como negar que as pessoas respeitam a faixa de pedestre porque há multa. É o mesmo princípio", defende.

A professora também acredita que as faculdades e os institutos precisam assumir a responsabilidade pela aplicação dos trotes junto com os centros acadêmicos. "O trote precisa ser institucionalizado. O professor precisa saber dizer ao aluno que ele não pode agir de determinada forma porque há regras para aquilo", diz.

Regras claras

Nesta terça-feira, a comunidade universitária da UnB vai conhecer o documento preparado para estabelecer regras de convivência na instituição. A proposta, que passará por consulta pública antes de ser oficializado, proíbe o comércio de bebidas, estabelece normas para confraternizações e fixa limites de horário para festas.

As novas regras também proíbem qualquer tipo de trote que “submeta o calouro a tortura, a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante e a discriminação de qualquer natureza". Além disso, afirma que eles serão combatidos com medidas pedagógicas e educativas e até sanções legais cabíveis.

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