UnB devolve matrícula a aluno perseguido pela ditadura militar

Universidade de Brasília decide reintegrar estudante vetado pelo vice-reitor José Carlos de Almeida Azevedo, em 1972

iG Brasília |

Depois de 40 anos, Iraê Sassi voltará a ser calouro. A Câmara de Ensino e Graduação da Universidade de Brasília aprovou, por unanimidade, nesta terça-feira, a reintegração dele ao curso de letras/tradução. A decisão devolve ao paulistano de 59 anos o direito de estudar na UnB, que havia sido confiscado pela ditadura militar (1964-1985). "Estou muito feliz, luto por isso há anos", desabafou Iraê à Agência UnB, ao receber a notícia sobre sua readmissão.

Iraê foi aprovado no vestibular para engenharia mecânica em 1970, mas não conseguiu efetivar sua matrícula. "Participei do movimento secundarista, fiquei com o nome marcado", diz. O rapaz de 19 anos então pediu à reitoria que reconsiderasse a decisão, garantindo que se subordinaria às normas da universidade. Mas, em despacho, o vice-reitor è época, José Carlos de Almeida Azevedo, capitão de mar e guerra da Marinha, indeferiu o pedido. "Ele me considerava uma ameaça à ordem". Iraê recorreu à Justiça para tentar frequentar a UnB.

A batalha judicial entre o aluno e os advogados da reitoria só terminou no final do ano seguinte no Supremo Tribunal Federal (STF). Em sua argumentação, o então reitor, Caio Benjamin Dias, afirmou que a universidade não poderia "acolher em seu seio, numa posição cômoda, porém masoquista (...) estudantes hostis à ordem, à disciplina e à própria comunidade universitária."

Em 25 de novembro de 1971, o ministro do Tribunal Federal de Recursos (TFR), Armando Rollemberg, decidiu em favor do estudante. Iraê Sassi foi registrado com o número de matrícula 70/05695. Ainda assim, não terminou o curso. "Lembro que cursei as disciplinas de cálculo, mas logo a repressão aumentou e tive que sumir de circulação", conta o ex-militante do Partido Operário Revolucionário Trotskista Pousadista. Iraê não participou da luta armada, mas estava envolvido com atividades políticas de esquerda. Aos 21 anos, mudou-se para São Paulo para tocar o jornal Frente Operária e começou a viver na clandestinidade.

Integração

Enquanto Iraê Sassi se escondia do regime, o retiraram do quadro de estudantes da UnB. Em agosto de 1974, ele foi jubilado por rendimento insuficiente. No histórico escolar que subsidiou o desligamento consta que ele vinha frequentando as aulas desde 1970 e que estava matriculado em apenas uma disciplina: "ciências humanas".

"O aluno só conseguiu cursar a UnB em 72, depois da decisão do STF. E, além disso, não há registros de uma disciplina chamada ciências humanas", aponta Elaine Maria de Oliveira Alves, professora da medicina, a quem coube relatar o processo na Câmara de Ensino e Graduação. As duas informações, mais a documentação do processo judicial, serviram como evidência de que a direção da universidade à época queria afastá-lo do campus. A professora Elaine Maria conta que o trabalho da Secretaria de Administração Acadêmica (SAA) foi fundamental para que ela apresentasse parecer favorável a Iraê. "Eles recuperaram documentos que reconstituíram a trajetória de perseguição sofrida pelo aluno".

A reintegração de Iraê Sassi foi aprovada por unanimidade pelos 15 integrantes que estiveram presentes à sessão da Câmara de Ensino e Graduação. "Fizemos justiça a ele", comemora a relatora Elaine Maria de Oliveira Alves. Em setembro, quando começa o próximo semestre, o calouro de 59 anos, casado, pai de três filhos adolescentes, retomará sua caminhada em busca de um diploma de ensino superior. Vai cursar letras/tradução com habilitação em inglês.

* Com informações da Agência UnB

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