UnB decide nesta sexta regras para trotes e festas

Apesar da aprovação de linhas gerais de “manual de convivência”, temas polêmicos voltarão à pauta de Conselho Universitário

Priscilla Borges, iG Brasília |

Discussões sobre o que alunos, professores e servidores podem ou não fazer no ambiente da Universidade de Brasília (UnB) já duram mais de um ano. Mas, nesta sexta-feira, as regras de convivência no câmpus, inéditas na instituição, serão finalmente definidas em reunião do Conselho Universitário (Consuni). Os pontos polêmicos – como trote e venda de bebidas em festinhas – não têm consenso.

Leia também: Trotes na divulgação do resultado do vestibular da UnB terminam em confusão

Há dez dias, na última reunião do Consuni – colegiado máximo da UnB –, as linhas gerais do manual foram aprovadas por 42 conselheiros. Nas diretrizes, elaboradas pelo professor David Renault, da Faculdade de Comunicação, a partir de sugestões recebidas em consulta pública, a comercialização de bebidas alcoólicas em festas em qualquer instalação dos câmpus fica proibida. Os trotes degradantes, também.

Esses dois pontos prometem gerar muitos debates ainda. Os estudantes que participam do Consuni não concordam com os termos das diretrizes propostos pelo relator do manual. Octávio Torres, 21 anos, coordenador do Diretório Central dos Estudantes da UnB, espera convencer os outros conselheiros de que é preciso mudar a redação de alguns artigos. “A mera proibição não muda nada”, pondera.

Alan Sampaio
Representantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UnB querem mudar termos do manual de convivência: para eles, não adianta punir sem educar

Trotes

Para os representantes do DCE , não está claro que tipo de trote será permitido na UnB. O texto diz que ficará proibido “o trote ou qualquer outra forma de violência que submeta o calouro e outro membro da comunidade acadêmica a ações que lhe atinjam a integridade física ou psíquica, a tortura, tratamento ou castigo cruel, desumano, degradante, constrangimento e a situações de discriminação de qualquer natureza”.

A primeira dúvida é: tinta, ovo e farinha continuam liberados? Ou a sujeira será considerada forma de violência? “Nós concordamos que não se pode tolerar trotes violentos ou que obrigue os calouros a participar, nem atividades que atrapalhem as atividades acadêmicas. Mas a mera proibição do trote sujo só fará com que as brincadeiras acontecem a 200 metros do câmpus. A discussão deve ser educativa”, opina Octávio.

Os estudantes também não concordam com a possibilidade aberta pelas diretrizes de convivência de penalizar, por causa de possíveis trotes violentos, as entidades estudantis. O documento propõe que o trote seja combatido com medidas pedagógicas e educativas, mas, em caso de processos administrativos e disciplinares, sejam punidos com suspensão ou mesmo expulsão . E os centros acadêmicos dos cursos também poderiam ser penalizados.

“A pessoa que comete a agressão deve ser punida, não a entidade como um todo. Se o centro acadêmico é julgado, todos os alunos daquele curso são julgados e estigmatizados junto, mas nem todos participam de trotes”, comenta Nilton Carlo Locatelli, 23, também coordenador do DCE. O diretório pretende convencer os conselheiros a aprovar também a punição apenas para os alunos reincidentes. “A função da universidade é educativa, em primeiro lugar”, diz.

Para o professor David Renault, desde que comprovada a responsabilidade, as entidades devem sim ser punidas. “Hoje, o trote sujo ou violento acontece em uma minoria dos cursos. Mas se essa minoria insiste em praticar esse tipo de atividade, é preciso combatê-la e as regras ajudam nesse sentido”, afirma.

Festas

Outro ponto polêmico é a realização de festas nos prédios dos câmpus . As regras de convivência não permitirão a venda de bebidas alcoólicas nos espaços usados pelos universitários para muitas festinhas: os centros acadêmicos. A venda de bebidas só poderá ser feita em festas de grande porte, que só podem acontecer no Centro Comunitário Athos Bulcão (que é grande e só abriga festas grandes).

Pequenas confraternizações podem continuar ocorrendo nos ambientes dos câmpus, mas só até as 22h30. No máximo, até a meia-noite, desde que combinado com a direção da unidade acadêmica. O consumo de bebida alcóolica nesses casos, “em caráter excepcional”, deve ser informado no pedido formal de realização do evento e pode ser vetado pelo responsável pela liberação dos espaços.

Na opinião dos estudantes, a medida prejudicará “a vida financeira” do movimento estudantil. Durante as festinhas, os centros acadêmicos e o próprio DCE arrecadam dinheiro – seja com a venda de bebida, comida ou ingressos – para financiar as atividades deles. Os representantes estudantis da nova gestão são unânimes em dizer que o patrimônio público precisa ser preservado, antes de tudo. Mas defendem políticas menos restritivas em relação às festas.

O argumento dos professores e gestores das unidades contra as festas, além do barulho que atrapalha as aulas, muitas vezes, é a falta de controle sobre quem participa dos eventos. “Já houve assaltos, tráfico, quebra-quebra em departamentos por causa de festas, por isso elas ficaram proibidas nos prédios dos câmpus. Mas temos de ficar em cima para não ocorrerem. O instrumento ajuda nesse sentido”, comenta.

Desconhecimento

Pelos corredores da universidade, os estudantes ainda estão divididos sobre o tema. Muitos desconhecem, inclusive, o teor do manual em discussão pelo Consuni. Marcelo de Oliveira, 22, Marina Bacha, 22, Anna Luísa Portela, 21, Rodrigo Rezende, 22, e Lara Araújo, 23, alunos da Arquitetura, admitem não conhecer os detalhes do manual. Mas discordam da proibição já existente de festas no câmpus.

“Havia happy hours muito específicos, dentro dos departamentos, só para os alunos, bem organizados. Todo mundo sente falta”, conta Rodrigo. Eles concordam que é difícil controlar os convidados, mas acreditam que os organizadores deveriam se responsabilizar por possíveis estragos e contratar seguranças para vigiar as confraternizações. Acabar com elas é a pior solução na opinião dos alunos.

Leia também: UnB define datas para processos seletivos em 2012

Sobre os trotes, o consenso também está longe. Para muitos, as brincadeiras – mesmo que com farinha e tinta – podem ser saudáveis. “Há um lado positivo, da confraternização, que não aparece. Além disso, acho perigoso que as pessoas comecem a procurar outros espaços, sem tanta gente pra ver e, de certa forma, colocar ‘limite’, para realizar os trotes”, comenta Caio Batista, 22, presidente do Centro Acadêmico de Agronomia.

    Leia tudo sobre: unbtrotesfestasdceconsuni

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG