Um mal visível

A poluição luminosa prejudica os observatórios astronômicos, gera problemas de saúde e ao meio ambiente. Conheça esse tipo de poluição e as discussões em busca de uma solução.

Isis Nóbile Diniz |

As estrelas observáveis no céu da capital São Paulo podem ser contadas nos dedos da mão. A culpa é da poluição luminosa, que priva um quinto da população mundial de observar, a olho nu, a Via Láctea. Além de apagar a beleza de um céu estrelado, esse detalhe pode trazer problemas à saúde, ao meio ambiente e comprometer o trabalho nos observatórios astronômicos.

No Brasil, os pesquisadores do Observatório Astronômico da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, não conseguem observar com clareza os astros na linha do horizonte localizado próximo à cidade. O Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA) do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), inserido no Pico dos Dias, município mineiro de Brasópolis, sofre com a interferência das luzes de Itajubá, Brasópolis, Campos do Jordão, Pouso Alegre e Santa Rita do Sapucaí.

Para tentar solucionar o problema, o LNA e a prefeitura de Itajubá realizaram um encontro dia 11 de maio. Foram convidados os representantes das cidades no entorno do laboratório. De acordo com Saulo Gargaglioni, do apoio operacional do LNA, elaborou-se um anteprojeto de lei com normas técnicas para combater a poluição luminosa. A tendência é que as cidades no entorno do laboratório cresçam, mas nós precisamos preservar, diz Gargaglioni. Brasópolis é, em linha reta, o município mais perto do observatório a 7,5 quilômetros. Também a cidade que nos causa maior impacto, afirma.

Jorge Renó Mouallem, prefeito de Itajubá, cidade com cerca de 85 mil habitantes, esteve presente no encontro. Propus que fizéssemos uma outra reunião para assinarmos um protocolo de intenção com o objetivo de reduzir a poluição luminosa, conta. A data ainda não foi definida. Mas, por enquanto, o prefeito conta que todas as luminárias públicas que precisarem ser trocadas e as novas extensões da rede serão feitas de acordo com normas internacionais para evitar o problema.

Por que, então, trocar todas as luminárias? Isso não é barato. Além disso, podemos resolver com mais urgência e sem custo a troca de holofotes que estão voltados para cima, por exemplo. Nossa intenção é se enquadrar, conta. Até uma penitenciária em construção na cidade de Itajubá foi visitada pelos funcionários do LNA. Verificamos como estava sendo instalada a iluminação do local. Eles estão seguindo os padrões para reduzir a poluição luminosa, conta Gargaglioni.

O que é poluição luminosa

Visão da poluição luminosa da Terra durante a noite. (Imagem/Reprodução Nasa)


A poluição luminosa é a luz artificial mal direcionada e, assim, aproveitada inadequadamente, diz Gargaglioni. Generalizando, trata-se da iluminação pública que deveria clarear as vias, mas acaba vazando para o horizonte ou para o céu iluminando a atmosfera da Terra e ofuscando a luz dos astros. Rodolfo Langhi, professor bolsista da Unesp e astrônomo amador, faz uma analogia: A poluição luminosa é como a luz interna do carro ao ser ligada à noite. Ela reflete no vidro, atrapalhando a visão do motorista que precisar observa o movimento externo.

No observatório da Unesp, em Bauru, os pesquisadores têm dificuldade ao observar o céu na linha do horizonte ao norte. No lugar das estrelas, há uma névoa esverdeada brilhante, diz Langhi. Resultado da iluminação da cidade de Bauru que possui, aproximadamente, 333 mil habitantes.

Isso é um problema sério. Muitas vezes é impossível estudar um conglomerado de estrelas ou uma nebulosa - nuvem brilhante de poeira e gás, afirma Langhi. Esses dias tentamos fotografar a galáxia de Andrômeda pelo telescópio, mas o excesso de luz da cidade de Bauru impediu, completa.

Quanto maior a cidade, pior a poluição luminosa. No caso dos observatórios astronômicos, a visibilidade é prejudicada se mais próximo aos municípios ou quanto maior for a densidade demográfica. Pode-se melhorar cerca de 50% da visibilidade do céu apenas ao enquadrar a iluminação pública ¿ dos postes de luz, monumentos, trocando as lâmpadas pela de sódio de baixa pressão ¿ de acordo com as normas, afirma Langhi.

Existem algumas normas técnicas que países desenvolvidos usam para evitar ou sanar o problema. Acabar com a poluição luminosa requer dinheiro e planejamento, diz Gargaglioni. Ele explica que, de modo geral, deve-se optar por luminárias de vidro plano e fixadas a 90 graus em relação ao post. Holofotes jamais devem ser dirigidos para o céu. Ao colocar em prática essas sugestões, energia elétrica será economizada e a iluminação pública, melhorada. Consequentemente, diminuindo inclusive a violência.

Problemas para a saúde e ambientais

 - São inúmeras as doenças agravadas ou causadas pela poluição luminosa. Além disso, ela interfere diretamente no ecossistema. Gargaglioni cita alguns exemplos:
 - Animais noturnos têm seu comportamento alterado, podendo ficar cegos;
 - A reprodução e a comunicação de espécies, incluindo diurnas, podem ser afetadas;
 - Os canhões de luz prejudicam a migração das aves;
 - Pássaros voam até a exaustão em torno de luzes de prédios e torres de transmissão;
 - Filhotes de tartarugas marinhas ficam desorientados; invés do mar, ao nascer seguem para o continente;
 - Insetos, como mariposas, podem morrer ao serem atraídos pela luz artificial;
 - Seres humanos com câncer podem ter o tumor aumentado ao trocar as atividades diárias pelas noturnas;
 - Mulheres que trabalham à noite são mais propensas a desenvolverem câncer de mama;
 - Os hormônios, em seres humanos, podem ser produzidos em menor quantidade como é o caso da melatonina.


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