Ufopa, onde a floresta Amazônica é o laboratório

Privilégio é essencial para missões da universidade: integração e desenvolvimento regional. Mas desafio começa nos corredores

Priscilla Borges, enviada a Santarém (PA) |

Do alto do avião, a paisagem de Santarém impressiona. Cidade localizada a 1,4 mil quilômetros da capital do Pará, Belém, o município conta com grande extensão da Floresta Amazônica (que cobre 64% do território municipal) e abriga o encontro de três grandes rios – Tapajós, Amazonas e Arapiuns. É nesse bonito cenário que os estudantes da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) encontram um dos laboratórios mais privilegiados do País: a natureza.

O potencial hidrográfico e florestal dessa região paraense está no foco da proposta de expansão da rede federal de universidades planejada pelo Ministério da Educação com o Reuni. Considerada estratégica pelo potencial de desenvolvimento econômico e pela necessidade de preservação ambiental, a floresta que cobre Santarém está a pouco mais de 20 minutos dos campi da Ufopa, uma das novas federais criadas em 2009, que o iG apresenta em série de matérias até sábado .

Também chamada de Universidade da Integração Amazônica, a Ufopa carrega em seu projeto original a mesma missão da Universidade da Integração Latino-Americana (Unila) e da Universidade Integração da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab): integrar. Primeiro, os estudantes dos municípios vizinhos à cidade. Depois, a comunidade à floresta em que vive e da qual se alimenta. Por fim, países fronteiriços ao Brasil.

Para isso, definiu currículos diferenciados para formar os futuros profissionais . Todos os estudantes a partir do próximo semestre terão de aprender sobre os ecossistemas amazônicos e aspectos socioeconômicos da região. A formação, dividida em ciclos, começa com um semestre igual para todos, que pretende dar uma visão ampla sobre a realidade local e também dar noções de disciplinas úteis em qualquer área, como língua portuguesa.

Só depois, o estudante escolhe uma grande área de interesse entre as opções Ciências da Educação; Biodiversidade e Florestas; Ciências da Sociedade; Engenharia e Geociências ou Tecnologia das Águas. Após três anos nessa área, eles ganham um diploma de bacharel interdisciplinar. A partir daí, os alunos podem escolher uma formação profissional como direito ou engenharia florestal, por exemplo. Ingressar na pós-graduação será outra possibilidade.

nullRodrigo Ramalho Filho, pró-reitor de Ensino de Graduação, diz que a Ufopa nasceu dentro do projeto de inovação no ensino superior liderado pelo MEC. Ele acredita que modernização do ensino é mais do que necessária e trará benefícios para a região e o país. “Queremos criar mais do que mais uma universidade moderna. Queremos dialogar com o mundo. Nossa ideia é estimular a educação continuada”, diz.

Heranças

Para cumprir sua missão, a Ufopa precisará vencer primeiro um desafio único, não vivido por outras instituições criadas recentemente. Por ironia ou vocação, a tarefa se resume à integração: manter estudantes e cursos herdados de duas universidades, com os primeiros calouros de 2011, que serão os estreantes da proposta de currículo inovador da Ufopa. “Teremos de conviver com duas culturas universitárias completamente diferentes. Isso é muito difícil. O ensino universitário esqueceu de ousar e estimular a criatividade. Por isso, os modelos inovadores enfrentam resistência”, ressalta Ramalho Filho.

Apesar de sua criação ter ocorrido oficialmente em novembro de 2009, a Ufopa não começou do zero. Ela herdou dois campi de federais que já funcionavam em Santarém: uma unidade da Universidade Federal do Pará (UFPA), agora o Campus Rondon, mais próxima do centro, e uma da Federal Rural da Amazônia, o Campus Tapajós. Os atuais alunos dos nove cursos oferecidos pelas antigas instituições não serão transferidos para os novos currículos e seguirão nos modelos tradicionais.

As estruturas recebidas, já antigas, também precisaram de adaptações e os dois campi da Ufopa se transformaram em canteiros de obras. A biblioteca do campus mais antigo, o Rondon, ficou meses desativada para reforma. Agora, está pronta, mas não possui móveis. Por enquanto, funciona como uma grande sala de professores no andar de cima. No andar debaixo, fica vazia.

Os livros estão amontoados nos fundos dos laboratórios do campus Tapajós, porque não há espaço físico suficiente para improvisar salas de estudo ou estantes para que os alunos folheiem e emprestem materiais. As salas de aula também são insuficientes. Com o surgimento da Ufopa, muitas tiveram de ser transformadas em ambientes administrativos para abrigar funcionários ou em laboratórios para os novos docentes.

Difíceis adaptações

Tantas novidades provocam todo o tipo de reações pelos corredores. Há dúvidas e polêmicas sobre a eficiência e aceitação da nova formação pelo mercado – mesmo que os atuais estudantes não sejam afetados pelo modelo. Há desconfortos gerados pelas inúmeras obras e pelos diversos problemas de infraestrutura que envolvem o início de uma empreitada como essa. Mas também há elogios ao fortalecimento de uma federal no interior, à qualidade dos doutores recém-chegados e ao incentivo à pesquisa.

Géssica de Magalhães, de 19 anos, não teria a chance de estudar em uma federal na sua cidade, Monte Alegre, que fica a 125 quilômetros de Santarém. Comemora as seis horas de barco necessárias para visitar a família, bem menos desgastantes do que seriam os 850 quilômetros pelo Rio Amazonas até Belém. No 4º semestre de letras-português, ela admite que mudaria para um dos novos cursos da Ufopa se não tivesse de fazer vestibular porque está descontente com a graduação.

Assim como ela, os colegas de curso Simone Sousa, 21, Thaiza Silva, 19, Pâmela Silva, 19, Filipe de Almeida, 20, Amanda Mota, 20, Ervana Pantoja, 19, e Iris Laiana Melo, 19, admitem a importância do campus para desenvolver a região. Mas estão chateados com as condições de ensino. Sem biblioteca, eles estudam em mesas da lanchonete, debaixo das árvores. Para eles, faltou planejamento.

“Deveríamos estar com o resto das turmas de letras, mas tivemos de ser divididos nos dois campi, porque não tem sala. Chegamos a estudar seis meses no auditório quando ainda era UFPA”, conta Géssica. Além disso, eles se perguntam se o novo modelo vai funcionar. “É tudo desconhecido e ninguém explica as coisas para a gente direito”, critica Thaiza.

nullFernando Wallace Carvalho Andrade, 22 anos, no entanto, entende que a confusão provocada pelas obras faz parte de uma fase de adaptação. “Foi difícil, mas acho que as mudanças vão melhorar muito os cursos. Torço para que dê certo. A expectativa dos professores é muito boa e a presença dos novos docentes contribuiu muito para a qualidade da nossa formação, mesmo para quem já está saindo como eu”, afirma o estudante do 8º semestre de engenharia florestal.

A partir do ano que vem, a Ufopa receberá 1,2 mil calouros. O processo terá cotas para indígenas, que ocuparão 50 vagas. Durante a graduação, eles terão a chance de escolher entre 33 diferentes formações, que podem vir a ser mais numerosas no futuro. Ainda não há previsão para que estudantes estrangeiros sejam incluídos na universidade. Com tantos desafios de integração locais, esse é um projeto para o futuro, que ainda precisará ser debatido com a comunidade, segundo a reitoria.

Arte/iG
Fonte: Arte/iG

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