Tudo sobre células-tronco

Entenda a polêmica, quais doenças poderão ter tratamento e como estão as pesquisas no Brasil

Isis Nóbile Diniz |

As pesquisas com células-tronco adultas e embrionárias continuam sendo o tema mais polêmico da medicina da atualidade. Principalmente, as que possuem como base o primeiro estágio da vida do ser humano: o embrião.

Por mais incrível que seja, esse conglomerado de células menor que a cabeça de um alfinete pode oferecer uma segunda chance de vida para muitas pessoas. Afinal, proporciona uma revolução no tratamento de diversas doenças. Trata-se da chamada terapia celular.

Atualmente, o Governo Federal vai destinar R$ 10 milhões para esses estudos por meio de uma seleção de projetos de terapia celular. Até o mês de setembro, pesquisadores brasileiros podem se inscrever. Os selecionados serão os primeiros a integrar a Rede Nacional de Terapia Celular (RNTC) que tem como objetivo incentivar os cientistas. Assim, dos R$ 140 milhões que o Governo Federal vai disponibilizar para pesquisas em saúde este ano, R$ 21 milhões, serão destinados às células-tronco.

O montante é o segundo maior investimento em estudos na área da saúde. O primeiro, que receberá quase metade do valor total, será empregado no melhoramento tecnológico de equipamentos e materiais. É pouco se comparado  ao estado da Califórnia, nos Estados Unidos, que destinou US$ 3 bilhões. Mas esse é recomeço para uma longa história.

A discussão e o julgamento

Em 2005, foi aprovada a Lei de Biossegurança pela maioria dos deputados e senadores. Ela regulamenta o uso dessas células em estudos ou no tratamento de doenças. Logo em seguida, Cláudio Fonteles, então procurador-geral da República, entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) contra o artigo que permite as pesquisas com células-tronco embrionárias. Ele argumentava que o artigo ia de encontro ao direito e dignidade à vida.

Desse modo, em maio deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou essa ação. O resultado foi a autorização para as pesquisas científicas com células-tronco embrionárias de acordo com a lei.

Na época, Fonteles usou o argumento de que a vida começa no momento da fecundação. Não existe ainda uma resposta, ou um consenso, sobre quando se dá o início exato da vida, diz Marcelo Malaghini, um dos responsáveis pela área de biologia molecular da empresa Diagnósticos da América (DASA).

Acontece que essas células não possuem no laboratório autonomia para se desenvolver plenamente. Precisam ser incentivadas. Só se multiplicariam implantadas no útero, completa.

A Associação Médica Brasileira considera que o embrião humano tem status ético não comparável a nenhum outro material biológico usado em pesquisa. Como na fertilização in vitro é comum que sejam produzidos mais embriões que os utilizados, ela acredita que eles podem ser  usados em pesquisa. No lugar de serem destruídos.

Entretanto, destaca que, sempre que possível e apropriado, é preferencial o uso de células-tronco de doadores desenvolvidos.

Por sua vez, a maioria das religiões que existem no país é completamente contra as pesquisas com células-tronco embrionárias.

A Conferência Nacional dos Bispos no Brasil (CNBB), por exemplo, afirma que o embrião tem dignidade humana, por isso não pode ser manipulado e instrumentalizado em pesquisas ou terapias. A circunstância de estar in vitro - estimulada no laboratório - ou no útero materno não diminui e nem aumenta esse direito, disse a CNBB em nota sobre a decisão do STF. A alternativa apresentada continuaria sendo a célula-tronco adulta.

Quais embriões podem ser usados

No Brasil, mesmo com a aprovação da lei, é proibido usar qualquer embriões em pesquisas. Muito menos cultivá-los só para esse fim. Apenas podem ser empregados os provenientes da fertilização in vitro congelados há mais de três anos ou que, por algum motivo, não poderão dar origem a um bebê. Também, devem ter menos de 14 dias de vida, antes da formação do sistema nervoso.

Por sua vez, os pais precisam consentir e sua comercialização é proibida. As clínicas  de reprodução devem enviar relatórios anuais sobre a quantidade de embriões produzidos ao Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que tem como objetivo criar um banco de dados sobre o número de embriões armazenados nas clínicas e classificados como inviáveis. Estima-se que existam 30 mil, ou 3% do total, de embriões humanos congelados no Brasil nessas condições.

A maioria dos recursos destinados às pesquisas brasileiras é pública. Durante a contestação do ex-procurador-geral, os cientistas não receberam esse dinheiro para pesquisas com células-tronco embrionárias.

Os laboratórios ou empresas privadas, por sua vez, preferem financiar pesquisas desse tipo em suas matrizes. Apenas as pesquisas com células adultas deram continuidade no país.

De acordo com Malaghini, é difícil dizer se seremos prejudicados com essa pausa. A pesquisa em busca pelo conhecimento cientifico é uma corrida. Que não está disputando, deixa de ocupar um espaço que será preenchido por outros países. Mais cedo ou tarde, alguém vai ficar no lugar que poderia ser seu, conta Malaghini.

Se o Brasil parasse de investir nessa área, no futuro, seria necessário importar tratamentos. O que sairia caro. Mas, os brasileiros não precisarão correr o mundo. Tudo o que é de melhor também faremos aqui, disse, durante uma palestra em São Paulo, a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP).

As pesquisas e os resultados

Os primeiros trabalhos com essas células, de que tenho conhecimento, constam de 1986, na Inglaterra, afirma Malaghini. No Brasil, por exemplo, Elenice Deffune, coordenadora de laboratório de pesquisas com células-tronco adultas da Universidade Estadual Paulista (UNESP), começou na área com a engenharia celular, em 1993, e  a engenharia tecidual com células-tronco, em 1999.

As células-tronco nos fazem olhar para dentro de nós mesmos como uma unidade celular. Lembrando que viemos de uma célula, afirma Elenice. E permitem um diagnóstico mais precoce, viver mais e com melhor qualidade de vida, diz.

Suas características possibilitam a recuperação de pacientes que sofrem com doenças neurodegenerativas e neuromusculares. Como é o caso do, respectivamente, mal de Alzheimer e de Parkinson. Podem recuperar tecidos nervosos como de lesão medular, o problema de que sofrem os paraplégicos. Também, ajudar a entender mais sobre o câncer, serem usadas em testes de medicamentos ou para a produção de insulina em quem tem diabetes.

Hoje em dia, algumas já são tratadas com células-tronco adultas. O transplante de medula óssea é um exemplo utilizado há 40 anos. Ele é a prova de que o uso da célula-tronco adulta dá excelentes resultados, diz Elenice.  Recentemente, também existe o uso do biocurativo - ver box com entrevista - com resultados na recuperação de pele lesada.

Mais recentemente, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Bahia, do Hospital Pró-Cardíaco do Rio de Janeiro e do  Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor/FMUSP) estudam, com sucesso, tratamentos com células-tronco em doenças do coração causadas pelo mal de Chagas e em decorrência de infarto.

Porém o uso de células adultas é limitado, afirma Malaghini. Um órgão é um complexo. É composto por diferentes tecidos. Como exemplo, no coração existem mais de cem tipos de células que só poderiam se regenerar devido às embrionárias   diferenciadas no laboratório.

Nem todos esses resultados serão imediatos. No mínimo, para os pesquisadores otimistas, as embrionárias serão usadas como tratamento em cinco ou dez anos. Inclusive, cada doença deverá ter um diferente. No caso da diabetes, por exemplo, a pessoa pode receber células pancreáticas que produzem insulina. Em outros casos, receberá um tecido da pele pronto. Isso dependerá da doença e do estudo.

É natural as pesquisas demorarem para ficar prontas. O importante é que sejam realizadas no Brasil aproveitando e incentivando o potencial dos pesquisadores. Também, estimulando a ciência e a discussão sobre o futuro da própria população. Os debates são fundamentais pelas questões éticas, disse Mayana. O assunto é delicado, mas um passo largo para o futuro.

O que são as células-tronco?
As células-tronco são aquelas que podem se diferenciar em várias outras do corpo. Existem dois tipos de células-tronco: as adultas e as embrionárias. As primeiras estão no sangue ou medula óssea e tem potencial limitado de assumir funções e formas distintas. As células-tronco embrionárias podem virar, na teoria, todos os tecidos do corpo.

Tire suas dúvidas na entrevista feita com Elenice Deffune, médica e pesquisadora de células-tronco adultas da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) da Unesp.

IG: Qual a diferença entre pesquisas com células-tronco adultas e embrionárias?
Elenice Deffune: Não existe diferença básica entre as pesquisas em si, mas sim na matéria-prima objeto de estudo.

IG: Por que os resultados das pesquisas com cada uma são diferentes?
ED: Devem ser diferentes, pois o potencial de cada uma é distinto. Aliás, a dissemelhança quanto ao potencial das células é que justifica os resultados que obtemos. Após formada, uma célula-tronco adultas já foi direcionada para se desenvolver em determinados tecidos. Jamais em outros.

IG: Qual o foco delas?
ED: É a engenharia tecidual. Utilizar as células-tronco adultas para produzir tecidos de diferentes órgãos em laboratório de cultura visando a regeneração dos mesmos. Trata-se de pesquisa em cultura celular. Processo pelo qual as células são desenvolvidas sob condições controladas.

IG: Como são as pesquisas que ajuda a desenvolver?
ED: Pesquisamos células-tronco adultas de diferentes espécies. Entre elas estão a humana, a murina (de camundongo) e de coelhos. Também, trabalhamos em colaboração com professores da faculdade de veterinária para estudar de equinos. Em humanos, nossa linha é de desenvolvimento de cartilagem articular - que cobre as articulações -; desenvolvimento de ossos; estudo da potencialidade da célula-tronco adulta originária de tecido adiposo - gorduroso.

IG: Qual a diferença entre as pesquisas em animais e humanos?
ED: Em animais, as linhas pesquisadas são as mesmas, mas com maior aplicação em modelo vivo. Na área humana, apenas fazemos pesquisa laboratorial tendo como objetivo o desenvolvimento de tecidos, a chamada Medicina Reparadora/Engenharia Tecidual. Apenas a linha Biocurativo está na fase clínica com uso amplo em seres humanos. Recupera feridas crônicas de membros inferiores. Ela  usa produtos secretados por células-tronco adultas para a confecção de curativos bio-ativos que ajudam na regeneração de pele.

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