Os argumentos utilizados por estudantes de jornalismo para defender a volta do diploma para o exercício da profissão são variados. Eles citam desde o aumento da concorrência na busca por uma vaga no mercado de trabalho até a formação de uma mídia mais parcial.

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Lívia (a direita) com amigas
Quem está perdendo não são só os jornalistas, é a sociedade toda, que pode colocar qualquer um para trabalhar com informação, afirma a estudante Lívia Lamblet, do 4º ano da Faculdades Integradas Hélio Afonso (FACHA), no Rio de Janeiro.

Lívia já participou de protestos em sua cidade e é radical ao dizer por que não concorda com a decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF): é errado você se formar em outra profissão e querer ser jornalista. Nenhum jornalista se mete em outra área.

Hugo Leonardo Gaspar, de 26 anos, da Universidade Estácio de Sá, vê como um passo atrás a decisão e considera que ela pode provocar mudanças na forma de se produzir notícia. Nós aprendemos a captar o melhor dado da informação que é passada e a transformá-lo em texto. Você aborda a informação de um jeito diferente. Não é apenas chegar e escrever, diz.

"No nosso campo é difícil achar emprego, acontece muita indicação"

Ana Salex, de 23 anos, também aluna do 4º ano da Faculdade FACHA, já prevê que terá mais dificuldade para arranjar trabalho quando estiver formada. No nosso campo é difícil achar emprego, acontece muita indicação. Agora, sem necessidade de diploma, vai ser ainda mais fácil disso acontecer, lamenta. Ela, que nunca pensou em fazer outro curso, afirma que se sentiu lesada com a notícia. Ainda mais porque faço uma faculdade particular, afirmou.

"Decisão não irá mudar muito"

Dividida, a estudante do 3º ano de jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, Fernanda Kiehl, de 20 anos, acredita que a decisão não irá mudar muita coisa e afirma que não é 100% contra a não obrigatoriedade. Algumas teorias só quem fez faculdade tem. Mas acho que a profissão é de quem escreve bem. E um economista vai saber escrever muito melhor sobre assuntos da área econômica do que um jornalista, explica.

"Com ou sem exigência de diploma, qualificação acadêmica sempre será um diferencial"

Opinião semelhante é partilhada pelo estudante mato grossense Nyelder de Sousa Rodrigues, de 20 anos, da Universidade Católica Dom Bosco. Ele acredita que, nos grandes veículos de comunicação, tudo continuará como era. No início me desestimulei um pouco, mas passou. Com ou sem exigência de diploma, qualificação acadêmica sempre será um diferencial, avalia.

Os novatos

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Adriano Lima, de Macaé
Se a decisão do STF já provocou dúvidas em estudantes que estão concluindo a graduação, ela foi ainda mais impactante para aqueles que estão começando a estudar jornalismo.

É o caso de Felipe de Paula, de 18 anos, aluno do 1º ano de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Quando veio a confirmação foi uma pancada forte, até porque eu tinha passado o dia inteiro fazendo trabalhos para a faculdade. Fiquei meio anestesiado, sabe?, conta.

Agora, ele diz que não se arrepende da carreira que escolheu. A faculdade tem sido muito importante. Em 6 meses de curso mudei muito o que pensava sobre o que é ser jornalista. Mesmo meu diploma não sendo obrigatório, vou me sentir mais preparado para entrar no mercado de trabalho, afirma.

Adriano Lima de Sá e Couto, de 18 anos, estudante do 1º ano da Faculdade Salesiana Maria Auxiliadora (FSMA), em Macaé, no Rio, decidiu que queria ser jornalista antes mesmo de terminar o ensino fundamental. No entanto, teme que a não obrigatoriedade do diploma possa banalizar a profissão. Se qualquer um pode ser jornalista, a tendência é que a qualidade do material produzido caia, diz.

Por outro lado, também considera que quem optava pela área de comunicação apenas para fugir das matérias exatas irá pensar duas vezes antes de escolher jornalismo.

Jornalistas divididos

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Denser é formado em letras

Roberto Denser, de 23 anos, de João Pessoa, na Paraíba, e Bruno Micheletti, do interior de São Paulo, têm em comum o fato de trabalharem com jornalismo sem serem jornalistas. Os dois, porém, têm opiniões bem diferentes sobre a exigência do diploma.

Formado em Letras e estudante de Direito, Denser chegou a cursar um semestre de Jornalismo, mas desistiu. Hoje, é editor da revista Oxê!, de cultura local, e trabalha como free lancer para jornais. Quando comecei a estudar Direito reforcei minha convicção de que não era necessário ter diploma para exercer a atividade. O direito de liberdade de expressão está garantido pela Constituição, afirma.

Além disso, rebate que ética jornalística é algo que se aprende durante a vida e, não, na faculdade. Não dá para injetar ética em alguém, argumenta.

Já Micheletti, que trabalhou mais de seis anos como jornalista sem ter diploma e agora cursa o 1º semestre de Jornalismo, defende a graduação. Comunicação é um direito humano, tem que ser séria e feita com responsabilidade. Por isso, é preciso uma formação mínima, considera.

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