Tecnologias viram ¿armas¿ nas mãos de alunos

Recursos como foto, vídeo, música, acesso à internet estão sendo utilizados para desviar a atenção do quadro negro

Carolina Rocha, iG São Paulo |

Se a tecnologia na mão dos pais pode ser um instrumento positivo, na mão dos filhos, muitas vezes, pode acabar virando uma arma de dispersão e perturbação em classe. Aparelhos celulares, que a cada dia possuem mais funções, servem de recurso para alunos transformarem a sala de aula em palco para seus espetáculos.

“Não tem como a gente proibir que os alunos levem o celular para a escola, mas temos a regra de não poder usar o telefone durante a aula”, explica Regina Célia Crippa, coordenadora pedagógica do colégio Dom Aguirre, de Sorocaba.

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Estudantes fazem os mais diversos usos do aparelho celular e extrapolam limites
No colégio Santo Américo, de São Paulo, a regra também foi adotada. “Os alunos têm de desligar o aparelho na sala de aula. Eles podem usar na entrada ou na saída, mas durante a aula é proibido”, explica a coordenadora pedagógica Elenice Lobo.

A proibição não é apenas regimentar dos colégios. No Rio de Janeiro e em São Paulo estão em vigor há mais de dois anos leis que vetam a utilização de telefones celulares nas salas de aula. Entretanto, nem sempre ela é seguida.

Em fevereiro deste ano, os pais de uma aluna da Escola Estadual Joaquim Antônio Pereira, de Fernandópolis, interior de São Paulo, foram condenados a pagar uma multa de R$ 1 mil por permitir que a filha entrasse com o telefone celular em sala de aula mesmo depois de ela ter sido repreendida duas vezes por ter usado o aparelho durante as aulas.

Funções do celular

Usar o celular para falar ou deixar o toque atrapalhar a aula é incômodo, mas este pode ser o menor dos problemas que o aparelho nas mãos dos alunos é capaz de causar. Foto, vídeo, música, acesso à internet são alguns dos recursos que estão sendo utilizados para desviar a atenção do quadro negro.

“Hoje em dia eles têm esses celulares com acesso à internet e ficam na sala de aula tentando pegar o sinal wi-fi da lanchonete do lado. Os professores, que não são bobos, percebem que eles estão usando e retiram o aparelho para poder continuar a aula”, comenta a coordenadora do colégio Dom Aguirre.

“Uma vez eu estava com uma turma, num dia em que um professor havia faltado, e, quando vi, um aluno estava com um celular apontado para mim. Como era um aluno bonzinho, entrei na brincadeira e fiquei fazendo pose, achando que ele ia tirar uma foto. Quando percebi, eu estava no Youtube com o vídeo ‘coordenadora sem noção’”, conta Regina.

A brincadeira, por sorte, não gerou consequências graves para a coordenadora ou para os alunos. Mas nem sempre o caso tem um desfecho tão simples. Em novembro de 2009, uma estudante de São Luis do Maranhão foi filmada pelo celular de um colega de classe enquanto fazia um strip-tease para quatro garotos. O vídeo foi parar na internet e agora é alvo de investigação do Ministério Público do Estado.

Para a psicóloga da educação Isabel Parolin, é necessário que haja uma preparação dos jovens antes que eles recebam estes recursos tecnológicos. “Os alunos não sabem muitas vezes a diferença do público e do privado. É preciso orientar os alunos sobre essas questões.”

A responsabilidade da orientação deve ser compartilhada entre escola e os responsáveis. “Os pais dão os equipamentos e abrem a possibilidade de o filho entrar no mundo, mas não dão as orientações necessárias para eles usarem essas ferramentas”, avalia.

Por parte das escolas, a especialista diz que elas “não podem simplesmente ignorar ou banir o uso das tecnologias. Elas têm de normatizar, regular o uso, mas também devem acordar para a realidade dos alunos e trazer esses recursos para a sala de aula, tendo-os como aliados nos processos de aprendizagem”.

“O professor precisa ver a tecnologia como algo instrumental. Se o aluno está usando algo durante a aula, ele deve, com certeza, impedir que esse instrumento atrapalhe a explicação, mas por que não trazer esses recursos para a aprendizagem? Nada impede que o professor inclua o vídeo, a foto ou o twitter como recursos pedagógicos”, diz a especialista.

Isolamento

Aparelhos musicais, games, joguinhos em geral também são apetrechos usados por alunos na escola. Muitos os utilizam em sala de aula o que, na opinião de professores, atrapalha a aprendizagem.

Na opinião da psicóloga da educação, este ato representa dois aspectos: falta de ética do aluno e falta de adequação da aula à turma. “Num caso como esse, o professor deve orientar a turma sobre a falta de educação que é uma pessoa não participar quando uma conversa está acontecendo. A aula é isso, uma relação entre aluno e professor e deve ser respeitada”, alerta Isabel.

Para os professores, a especialista deixa uma dica: “Se o aluno se isola é porque a aula é chata. Nunca vi um aluno se isolar, colocar fone de ouvido ou ficar jogando joguinho em uma aula interessante”, defende a especialista.

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