Sem comodismos, eles buscaram concretizar sonhos

Jovens de baixa renda de diferentes regiões do País provam que oportunidades para melhorar a formação existem. Basta procurar

Priscilla Borges, iG Brasília |

Conformismo e resignação estiveram sempre distantes do cotidiano de Deborah, Guilherme e Lilian. Os três jovens, nascidos e criados em cidades bem distantes uma da outra, sempre foram bons alunos, souberam valorizar oportunidades e buscaram o necessário para atingir os próprios sonhos. Estudantes de baixa renda, sem recursos para estudar nas melhores escolas, eles encontraram caminhos em que recursos financeiros não importavam.

Os três ex-alunos de escolas públicas eram líderes em suas comunidades quando adolescentes, seja em projetos voluntários, seja em atividades de ensino e pesquisa onde estudavam. Ainda muito cedo, perceberam que mudar a própria realidade exigiria esforço e dedicação aos estudos. Pela educação, conseguiriam chegar em qualquer lugar. Por isso, não dispensaram nada do que apareceu: aprendizado de línguas, cursos extracurriculares e bolsas de estudo.

Deborah, Guilherme e Lilian foram jovens embaixadores, programa promovido pela Embaixada dos Estados Unidos para levar estudantes de escolas públicas, com perfil de liderança, para conhecer mais da cultura norte-americana. Depois da experiência, em que passaram duas semanas visitando projetos e monumentos históricos dos EUA, eles alçaram vôos mais longos. Ganharam bolsas de estudo em universidades estrangeiras, participaram de intercâmbios.

Márcia Mizuno, assessora cultural e coordenadora geral do Programa Jovens Embaixadores, acredita que a experiência no projeto da embaixada serve como um “alerta”. Para ela, eles percebem que têm capacidade para atingir qualquer objetivo. Descobrem que as oportunidades existem e que é preciso tentar. “O programa fortalece a autoestima dos participantes. Eles vêem que podem conseguir tudo o que quiserem”, afirma.

Segundo Márcia, os estudantes mantêm contato com a embaixada e as trajetórias são muito bem sucedidas. Eles são aprovados em vestibulares, conseguem bolsas de estudo dentro e fora do País, estágios e vagas em programas de talentos. “Uma coisa vai gerando a outra. Nós também nos sentimos responsáveis e indicamos outros projetos a eles. Há possibilidades até de eles conseguirem verba para tradução de documentos e custeio de correspondências para se candidatarem a universidades americanas”, conta.

Inspiração
Deborah Lins Rufino dos Santos, de 23 anos, se apaixonou pela língua inglesa ainda criança. Na escolinha onde estudava na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, aprendeu as primeiras palavras. Como não podia bancar um curso para aprender a língua, o tio resolveu pagar a mensalidade para ela. Depois de um ano, ele não conseguiu mais manter o curso.

ARQUIVO PESSOAL
Deborah Rufino, estudante carioca, participou do programa jovens embaixadores e depois conseguiu bolsa de estudo em universidade nos EUA
A jovem carioca estudou sozinha e, aos 14 anos, começou a fazer estágio. Com o salário, pagava o cursinho. No ensino médio, participou de simulações de reuniões da Organização das Nações Unidas (ONU), se encantou pelo curso de relações internacionais e escolheu o que faria no vestibular. Ela só não imaginava que outra oportunidade mudaria os planos.

Quando soube da existência do projeto jovens embaixadores, Deborah não acreditava que poderia ser selecionada. Apesar de avançar no processo de seleção, não alimentava esperanças de ser chamada. O resultado foi emocionante, ela conta. Nos EUA, ficou deslumbrada com o que viu. “Foi inspirador, todo mundo acredita em você no programa. Isso me faz acreditar mais em mim e ver que vale a pena investir no jovem”, pondera.

Deborah conseguiu uma bolsa de estudos na Pontifícia Universidade Católica do Rio, pelo Programa Universidade para Todos em 2006. Sentia-se realizada porque cursaria relações internacionais. Mas ficou sabendo que a Comissão Fulbright, outra entidade de promoção de estudos nos EUA, possuía um programa que financiava candidaturas a vagas em instituições de ensino norte-americanas.

Durante alguns dias, Deborah ficou em dúvida se deveria tentar ou não estudar fora. Até que foi convencida de que não perderia nada enviando o pedido. Alguns meses depois, foi aceita na Smith College, em Massachusetts. Deborah cursou ciências políticas na instituição e não se arrepende. “Tento mostrar a outros jovens que não é fácil, mas não é impossível. Quem não conseguiu nem tentou”, diz.

Autoestima
A história de amazonense do município de Tefé, interior do estado, Lilian Cléa Rodrigues Alves, de 20 anos, ganhou destinos que não imaginaria nos últimos anos. Ainda criança, sonhava ser “poliglota”. Imaginava que muitas portas se abririam se falasse muitas línguas. “Aproveitava a presença dos turistas e dos missionários estrangeiros pra praticar o inglês”, conta.

Filha única de mãe solteira, Lilian deixou Tefé pouco antes de entrar no ensino médio. Para ter uma educação melhor, abriu mão de ficar perto da mãe. Conquistou uma vaga no Colégio Militar de Manaus, onde se formou em 2006. Lá, também aprendeu o espanhol. A professora do idioma na escola, aliás, que a avisou sobre o programa Jovens Embaixadores.

Como sonhava em seguir a carreira diplomática, Lilian achou que aquela era uma boa oportunidade. Sabia também que estava dentro do perfil desejado para os participantes e se animou com a possibilidade. “Eu sabia do meu potencial, que era uma boa candidata. Mas o engraçado é que, ao mesmo tempo, na minha escola, eu não era a aluna em que todos apostavam suas fichas. Dei o meu melhor e esperei um bom resultado”, afirma.

“Eu passei a acreditar mais no meu potencial e nas minhas habilidades depois do programa. Voltei de lá com uma visão de que o mundo era muito maior do que eu pensava e que existiam situações e problemas que passavam do campo nacional. Eu comecei a ver que pelo meu próprio esforço, eu poderia conquistar todos os meus objetivos, por maiores que eles fossem”, conta. Lilian diz que, a partir daí, outras portas se abriram.

A jovem havia sido aprovada em jornalismo na Universidade Federal do Amazonas e em Direito na Universidade Estadual do Amazonas, quando foi selecionada para participar do programa Opportunity Grants/USAP, coordenado pela Fulbright Commission e EducationUSA. Ele financia e dá suporte aos estudantes que querem se candidatar a faculdades americanas. “Tive de viajar pra três cidades para fazer as provas requeridas pelas faculdades que eu estava me candidatando. A ajuda foi essencial para mim”, afirma.

ARQUIVO PESSOAL
Lilian Cléa Alves saiu de Manaus para estudar nos Estados Unidos. Agora, faz intercâmbio em Paris
Lilian está no terceiro ano do curso de relações internacionais na Mount Holyoke College, em Massachussetts. Já viajei para o Equador com a faculdade em uma missão voluntária e agora está em Paris, fazendo um intercâmbio. Estudando francês, ela já sonha com o aprendizado de mandarim. “O programa é importante para mostrar aos estudantes de escolas públicas que vale a pena estudar e, mesmo vindo de classe mais baixa ou do interior, eles têm chances de alcançar grandes feitos, por mérito próprio e através da educação”, ressalta.

Superação
Guilherme Luã da Silva Durães, de 19 anos, começou a trajetória de vitórias pessoais quando passou no concurso para estudar no Colégio Militar de Brasília durante o ensino médio. O brasiliense, morador da cidade-satélite de Ceilândia (uma das mais violentas e pobres do Distrito Federal), aprendeu com os pais a valorizar a educação.

Ele conta que, ainda com dez anos, foi matriculado em um cursinho de inglês pelos pais. Muito estudioso, participou de uma experiência piloto realizada na embaixada norte-americana em 2006, chamada de English Immersion. Ele ficou duas semanas aprimorando o idioma e conhecendo um pouco mais da rotina dos funcionários e cultura dos Estados Unidos. Depois, se inscreveu no Programa Jovens Embaixadores e foi selecionado.

“Sempre tive esperanças de chegar até o final da seleção. Felizmente, eu cheguei! Quando fui escolhido, senti que eu tinha vencido uma batalha bastante difícil, e vi que meu esforço de uma vida toda começava a dar resultado”, afirma. Guilherme diz que o programa o fez ser mais crítico, mais consciente das possibilidades de formação e crescimento pessoal.

Antes de concluir o ensino médio, Guilherme entrou em um cursinho pré-vestibular. Os pais se apertaram para conseguir pagar o preparatório. Guilherme queria uma vaga em um dos cursos mais concorridos do vestibular da Universidade de Brasília (UnB): direito. O esforço rendeu frutos. Ele foi aprovado. Ele só não esperava que, pouco tempo depois, se mudasse de vez para os Estados Unidos.

Ele foi selecionado em um programa de bolsas da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. Estuda relações internacionais e ciência política. “Quando olho para trás, me sinto muito feliz e um tanto orgulhoso da trajetória que minha vida acabou seguindo. Tenho consciência de que muitas das metas que tracei para mim foram atingidas”, reflete.

Para Guilherme, a lição que tirou de tudo foi a da insistência. “Desistir é pior do que perder, porque quando a gente tenta, acaba aprendendo no processo. Quando a gente conquista objetivos por esforço próprio, a vitória é muito mais empolgante”, diz.

Links interessantes
Programas Jovens Embaixadores

Comissão Fulbrigth

Campus France (bolsas na França)

Intercâmbio acadêmico Brasil-Alemanha

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