Secretários comentam qualidade da educação infantil

Gestores municipais reconhecem falhas, mas questionam validade de pesquisa da Fundação Carlos Chagas, divulgada na segunda-feira

Priscilla Borges, iG Brasília |

Os secretários municipais de Florianópolis, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Belém, Fortaleza e Teresina admitiram os problemas apontados pela pesquisa Educação Infantil no Brasil: avaliação qualitativa e quantitativa, realizada pela Fundação Carlos Chagas em parceria com o Ministério da Educação e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O estudo, divulgado na segunda-feira, revelou que a maior parte das creches e pré-escolas das seis capitais funciona de forma inadequada.

Alguns secretários questionaram a validade estatística dos dados apresentados pelos pesquisadores. Odozina Braga, diretora de Educação da Secretaria Municipal de Educação de Belém, foi a primeira a questionar a generalização dos resultados para a cidade, o Estado ou mesmo o País. “Precisamos lembrar que temos inúmeros contextos diferentes em um país como o Brasil. Só em Belém, temos uma realidade na área continental e outra na insular”, disse.

Odozina ressaltou que apenas 6% das escolas de Belém foram avaliadas. “Não esperávamos um bom resultado, mas ficamos perplexos com alguns dados. Acho que o tempo dos pesquisadores, que passaram apenas três dias nas unidades, também foi muito pequeno. Porém, saímos mais fortalecidos da experiência”, afirmou.

“O nosso primeiro desafio foi tentar manter o ânimo das pessoas depois dos resultados, que desanimaram muito todo mundo. Apesar de nossas redes terem inúmeras características distintas, o estudo foi importante para sabermos para onde ir”, ressaltou Francisca Francineide Pinho, representante da Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza.

Para o secretário de Teresina, José Ribamar Torres Rodrigues, cujo município ficou entre as piores situações junto com Fortaleza e Belém, o estudo pode aperfeiçoar a metodologia para futuras edições, principalmente nos quesitos tempo de pesquisa, generalização e instrumentação. Mas ele admitiu que os resultados revelam a realidade da maioria das escolas.

Ribamar apontou justificativas para a má qualidade do setor: dificuldade de financiamento para a área, especialmente federal, a precariedade das relações de trabalho, a falta de formação dos profissionais e a visão assistencialista da educação infantil. Na opinião de Maria Cecília Amendola da Motta, secretária municipal de educação de Campo Grande, os gestores precisam encontrar novas estratégias de ensino.

“Precisamos valorizar a brincadeira, as características específicas das crianças nessa faixa etária atendida pela educação infantil, criar novas práticas pedagógicas”, ressaltou. Maria Cecília contou que a secretaria já promoveu cinco formações diferentes para os professores da educação infantil do município a partir das carências apontadas pela pesquisa. “Estou muito contente em poder dividir essa responsabilidade com os pesquisadores”, ponderou.

Sônia Cristina Fernandes, diretora de educação infantil do município de Florianópolis, destacou que os gestores do município enxergam os resultados como apoio para decisões políticas locais. “Não imaginávamos que a pesquisa seria uma foto. Mas é um recorte que permite muitas inferências. A gente está muito feliz por ter participado do estudo.”

Cláudia Costin, secretária municipal do Rio de Janeiro, também afirmou que os dados não a surpreenderam. “Já conhecíamos a fragilidade do nosso sistema. Agora, estamos buscando profissionais mais qualificados, temos de investir em uma supervisão mais competente da secretaria. A pesquisa nos ajudou a perceber que estamos avançando na direção certa”, disse.

Outro lado

Os pesquisadores se defenderam das críticas ressaltando que a pesquisa foi feita com base em parâmetros estatísticos confiáveis e reforçaram a ideia de que ela representa apenas parte da realidade brasileira. “Os resultados não podem ser generalizados porque a amostra é pequena, composta apenas de capitais e que são muito diferentes entre si. Mostramos uma tendência e não um retrato”, ressaltou a pesquisadora da FCC Eliana Bhering.

Eliana explica que a escolha das escolas foi feita com base em uma série de critérios, como tipo de atendimento, tempo de oferta (integral ou parcial), quantidade de alunos atendidos, entre outros. A amostra é variada. Ela acredita que, como os resultados não são positivos, causaram impacto negativo nos gestores. Segundo ela, as reuniões feitas em cada cidade para divulgação dos resultados estão contribuindo com a discussão e para a compreensão dos dados.

O prazo curto para as pesquisas, crítica feita pelos secretários, também foi lamentado por ela. “Em pesquisa, a gente sempre quer ter mais tempo. Mas essa é uma forma de fazer pesquisa, em que ganhamos tempo. E é válida”, reforçou. “É bom lembrar que, nas conversas com as secretarias, não encontramos nenhuma incoerência entre nossos resultados e a impressão deles”, garantiu Maria Malta Campos, coordenadora do estudo.

    Leia tudo sobre: bideducação infantil

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG