Residência é o segundo vestibular de quem escolhe Medicina

Provas de seleção para especialização médica têm alta concorrência e taxas de inscrição que passam dos R$ 600

Marina Morena Costa, iG São Paulo | 24/07/2011 06:00

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Os estudantes de Medicina – a carreira mais concorrida em vestibulares do Pais –, após passarem seis anos na faculdade, tem mais uma peneira pela frente: os concursos de acesso à residência médica – pós-graduação que especializa o médico em uma determinada área. A concorrência é acirrada e nesta etapa as taxas de inscrição encarecem, variam entre R$ 300 e R$ 600.

Ao terminar a faculdade, o profissional pode atuar como médico generalista em hospitais ou unidades básicas de saúde, no Programa Saúde da Família (PSF), com salários que chegam a R$ 9 mil. Se ele quiser aprofundar os estudos e desempenhar uma especialidade, como cirurgia, ortopedia, psiquiatria, etc., precisa ingressar em um programa de residência, que oferece bolsa mesal de R$ 2.384, por um período de dois anos. Os salários altos só são conquistados depois de concluída a residência.

Segundo dados do Ministério da Educação (MEC), em 2010, foram oferecidas 11.263 vagas de ingresso em 3.514 programas de residência credenciados pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM). No ano anterior, se formaram 11.881 profissionais em cursos de Medicina. Apesar dos números não serem discrepantes, forma-se um o funil, porque a maioria dos médicos prefere fazer residência em hospitais universitários públicos, centros de referência em pesquisa, tecnologia e ensino.

Concorrência acirrada

Nos hospitais universitários públicos de São Paulo, administrados pela USP, Unicamp, Unesp, Santa Casa e Unifesp, a concorrência pelas especialidades mais disputadas, como Dermatologia e Neurocirurgia, chega a 30 candidatos por vaga. Número próximo ao registrado na Fuvest para ingresso no curso de Medicina da USP: 49.

Foto: Marina Morena Costa Ampliar

Farize Murad estuda há dois anos para passar em um programa de residência em Dermatologia

Farize Murad, de 25 anos, se formou em 2009 na Universidade de Santo Amaro (Unisa), instituição particular. Há dois anos ela estuda no cursinho preparatório para médicos SJT para ingressar na residência em Dermatologia de um hospital público. “A concorrência é muito grande. Estudei na faculdade mais as doenças, não como descobrir o que o paciente tem, que é o que as provas exigem”, diz.

No 6º e último ano de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Ronan Cipolla Hoffmann, de 25 anos, resolveu fazer cursinho ao perceber que seus colegas ingressaram no preparatório ainda no 5º ano. “Medicina é difícil em todos os aspectos: entrar, cursar – estudo integral e exigente, livros caros –, pagar – a minha mensalidade está em R$ 3,8 mil – e depois ainda tem a residência”, enumera. Para ele, o cursinho funciona como uma grande revisão, que resgata conceitos vistos desde o 1º ano de forma “organizada”.

Raimundo Araújo Gama, coordenador acadêmico do SJT, afirma que alguns estudantes chegam a desistir da especialidade que pretendiam por causa da concorrência acirrada. “São poucas vagas para um grande número de alunos que deseja fazer residência. Algumas especialidades são muito concorridas e oferecem menos de seis vagas”, destaca.

Já Henrique Ribeiro, 25 anos, residente do primeiro ano de Psiquiatria no Hospital das Clínicas (USP), não teve dificuldades. Formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, ele foi aprovado "de primeira" na residência da instituição onde estudou e da USP. “Passei sem fazer cursinho, mas estudei bastante e usei o material deles, que amigos me emprestaram”, conta. Henrique afirma que foi um dos únicos de sua turma de 96 alunos a rejeitar um curso preparatório: “Queria me testar”.

Foto: Marina Morena Costa Ampliar

Ronan Hoffmann quer se especializar em cirurgia-geral e começou o cursinho no último ano de Medicina

Apesar de conhecer os professores, profissionais e todo o funcionamento da Santa Casa, Henrique preferiu fazer residência no Hospital das Clínicas. O porte do maior hospital do País e a tradição na área de psiquiatria foram decisivos para a escolha.

Professor da Faculdade de Medicina da USP e um dos responsáveis pela seleção de residentes, Heráclito Barbosa de Carvalho afirma que os processos seletivos não são difíceis. O problema é a falta de vagas para especialização. “Muitas faculdades particulares não oferecem residência médica, não têm hospitais próprios e fazem convênios. Quando os alunos se formam, procuram os hospitais públicos”, explica.

Jornada “puxada”

Amanda Freitas, de 24 anos, está no 3º ano de Medicina da Santa Casa, e conta que a residência é uma preocupação desde o vestibular. Após se formar, ela pretende esperar dois anos para ingressar na especialização. “Quero trabalhar, juntar dinheiro e depois encarar a residência, que é bastante puxada. Há plantões de mais de 24 horas e não dá para engravidar nessa fase, por exemplo”, pondera.

De acordo com o estatuto da Comissão de Residência Médica da Faculdade de Medicina da
USP (Coreme), os residentes devem fazer uma jornada de 60 horas semanais. Mas estudantes relatam que só os plantões de áreas “mais puxadas”, como Clínica Médica e Ortopedia, ultrapassam o limite de horas. “Não existe denúncia deste tipo no HC. Ouve-se falar (em jornadas abusivas), mas é preciso que o residente faça uma reclamação para que isso seja apurado”, relata o professor Heráclito.

Má formação

O último exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), aplicado a estudantes formandos em Medicina no Estado, registrou o pior resultado de sua história na prova prática: 68% foram reprovados. Para o professor Heráclito da USP, as faculdades deixam para a residência toda a carga de aprendizado prático do médico, principal conhecimento exigido na prova de seleção, que cobra a resolução de casos clínicos.

Cirurgião e professor do cursinho STJ há 10 anos, Marcos Loreto avalia que as faculdades de Medicina deixam muito a desejar quanto a formação dos médicos. “Os alunos chegam com problemas básicos de conteúdo, não conhecem anatomia”, afirma. Marcos avalia que falta treinamento prático aos estudantes, principalmente em faculdades que não têm um grande hospital universitário.

Para o professor Heráclito, a residência deveria ser um pré-requisito básico para os médicos exercerem a profissão, pois é uma complementação da formação acadêmica básica. “Temos médicos recém-formados no setor público, que, na verdade, estão ‘treinando’ na prática. Isso é muito perigoso”, avalia.

Foto: Marina Morena Costa

Aula do cursinho SJT: professor Marcos explica como fazer uma avaliação de um paciente após uma operação

Números dos últimos concursos de acesso à residência médica em São Paulo:

Hospital das Clínicas de São Paulo (USP)
Taxa de inscrição: R$ 620
Especialidades mais concorridas:
Oftalmologia: 9 vagas, 115 inscritos, 12,58 candidatos/vaga
Neurocirurgia: 6 vagas, 69 inscritos, 11,50 candidatos/vaga
Radiologia e diagnóstico para imagem: 19 vagas, 201 inscritos, 10,58 candidatos/vaga
Otorrinolaringologia: 10 vagas, 103 inscritos, 10,30 candidatos/vaga

*O concurso realizado em 2010 foi o com maior número de vagas desde 2007, o que diminuiu a concorrência. Em outras edições, Dermatologia registrou entre 25 e 30 candidatos por vaga

Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP)
Taxa de inscrição: R$ 480
Especialidades mais concorridas:
Neurocirurgia: 2 vagas, 53 inscritos, 26,5 candidatos/vaga
Dermatologia: 4 vagas, 93 inscritos, 23,25 candidatos/vaga

Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp)
Taxa de inscrição: R$ 495

Hospital de Clínicas da Unicamp
Taxa de inscrição: R$ 330

Hospital da Unifesp
Taxa de inscrição: R$ 450

 

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Notícias Relacionadas


4 Comentários |

Comente
  • gustavo | 27/08/2011 12:38

    Curso de administração na fgv custa 2500 reais. Curso de medicina em faculdade particular custa 4000 reais, nem vamos falar de estrutura para o aluno! Veja o salário para médico em editais de concursos para prefeituras, efetivo!!! E não "bico"!O governo vai levar recém-formados para o interior, provavelmente na base da extorsão. Tipo: fica cinco anos "brincando" de médico na roça (onde nem há raio-x), e a dívida tá perdoada. Off: quando "eles" passam mal, qual é o hospital das estrelas lá em são paulo, que "eles" procuram? Quem perde e quem ganha? A SAÚDE NÃO VAI MELHORAR, LEVANDO SOMENTE MÉDICOS PARA O INTERIOR!

    Responder comentário | Denunciar comentário
  • José Antonio Coelho de Almeida | 25/07/2011 18:47

    Enviar dados e informaçôes sobre Educação Superior no Brasil e no mundo.

    Responder comentário | Denunciar comentário
  • ermelinddo de lima benedito | 25/07/2011 12:32

    Sendo assim, uma grande es\nculhambação, somente ricos conseguem passar por tudo isso. Os cursinhos são os mais caros, após passar para o curso, nota-se que ainda não é o definitivo, ainda tem uma residencia, que é uma coisa totalmente diferente, e mais dinheiro, e mais dinheiro, será que o ministro da educação sabe disso. Tenho um filho tentando entrar, e eu além de gastar tudo que tenho e ficar devendo muito, estou ficando com medo , pois para mim não é honesto, após longos seis anos expor o estudante, agora já médico a mais um estafante vestibular que via de regra é de carta marcada. Quem sabe iremos para a Argentina,

    Responder comentário | Denunciar comentário
  • marco | 25/07/2011 12:25

    Vai treinando!!

    Responder comentário | Denunciar comentário

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!




*Campos obrigatórios

"Seu comentário passará por moderação antes de ser publicado"

Mais destaques

Destaques da home iG


Ver de novo