Remexendo o lixo

¿O que para uns é lixo, para outros é luxo¿. Foi assim que um aluno do colégio paulista Dante Alighieri definiu um punhado de sucata que buscou na própria escola.

Tariana Hackradt |

Como ele, centenas de estudantes de diversas escolas pelo Brasil afora também recolhem peças aparentemente sem valor, como garrafas pet, tampinhas de plástico e caixas de leite , para reutilizar em trabalhos de arte ou mecânica, entre outras matérias. A idéia é reciclar e reaproveitar, apostando na educação e no consumo consciente, pelo menos uma pequena parte das 230 mil toneladas de lixo produzidas por dia no Brasil.

Os projetos variam de colégio para colégio, mas todos têm o mesmo foco, reduzir o desperdício. No Dante Alighieri, por exemplo, o uso da sucata está ligado principalmente à oficina de robótica, uma matéria eletiva que trabalha com peças recicláveis .

A coordenadora pedagógica do Departamento de Tecnologia Educacional da escola, Valdenice Minatel, explica: nós acreditamos que é preciso olhar direito e melhor para o que está a nossa volta, e a possibilidade de trabalhar com sucata desenvolve um posicionamento mais crítico em relação à sujeira. É uma questão de cidadania . Para ela, investir em projetos com sucata, além de gerar ganhos sociais e educativos, dá uma chance aos estudantes de exercitarem sua criatividade, afinal, a sucata é o que a gente quer que ela seja, define.  

Outro colégio que desenvolve atividades com sucata é a Escola Viva, na zona sul de São Paulo. Saber a importância da preservação do meio ambiente e como embalagens e materiais de uso diário podem ser reaproveitados são ações que norteiam as aulas de educação artística da instituição. Desde 1991, atuamos nesse sentido e, até por isso, somos considerados uma referência na área. Nós temos uma preocupação muito forte com o meio ambiente e investir em programas que aproveitem resíduos sólidos ajuda a não ficarmos só no campo teórico e a entrar no prático. Olhamos para a sucata como material mesmo. E é como diria um dos nossos alunos, na escola não tem lixo, tem sucata, conta Sonia Tokitaka, coordenadora de meio ambiente do colégio.

A preocupação da Escola Viva não se restringe apenas às crianças. É uma parceria dos professores com a família e a comunidade. Estamos abertos à participação dos pais, todos são convidados a colaborar e trazer sucata, diz Sonia. A instituição também usa o que é recolhido, como potes de sorvete e tinta, para guardar material, como giz de cera, lápis, canetas, clips, percevejos e grampos para grampeador. Além disso, os latões de coleta seletiva estão disponíveis tanto para as famílias quanto para os funcionários da escola.

O trabalho com a sucata também é levado a sério na escola Stance Dual, de São Paulo. Por lá, os projetos são pautadas pela Agenda 21, um documento que surgiu a partir das diretrizes da ECO-92 e cujo objetivo é formular políticas que respeitem o meio ambiente, o homem e a sua interação, sempre sob a perspectiva da sustentabilidade. Nós temos três frentes aqui no colégio: a ambiental, a de qualidade de vida (saúde/alimentação) e a social (trabalho voluntariado). O que buscamos é a conscientização dentro e fora da escola, queremos formar cidadãos críticos e conscientes, afirma Débora Moreira, coordenadora de projetos da Agenda 21.

A Stance Dual, como a Escola Viva, também investe em ações que envolvam os pais e a comunidade. Uma das mais efetivas foi a instalação na Praça Contos Fluminenses, localizada em frente ao colégio, de quatro sacos de mil litros para a coleta seletiva de lixo . Os moradores do bairro depositam o lixo já separado e aos sábados os catadores da Associação Vira-Lata passam para recolher, conta Débora.

Outra iniciativa de bastante sucesso foi a arrecadação, por parte dos alunos, de 13 mil tampinhas de plástico, doadas posteriormente à Fundação Dorina Nowill, que ajuda deficientes visuais. Segundo a coordenadora, houve uma grande mobilização na escola, pra se ter uma idéia, um dos alunos do quarto ano mobilizou as pessoas a sua volta e arrecadou quatro mil peças. A fundação vende as tampinhas para uma empresa, que as derrete e reutiliza o plástico em outras finalidades. Com o dinheiro arrecadado, são comprados computadores e livros em braile para uso dos deficientes da instituição.

No Colégio São Luís, as atividades envolvendo sucata começam desde cedo. No maternal, por exemplo, as professoras utilizam material reciclado em todos os projetos desenvolvidos em sala de aula com as crianças. Já na educação infantil, os alunos de 4 a 6 anos, do curso integral, desenvolvem ações de reaproveitamento do lixo, confeccionando sozinhos brinquedos e materiais.

Com tantos projetos de conscientização por ai, as crianças estão cada vez mais responsáveis quando o assunto é meio ambiente. Não é à toa que, independente do projeto ou da escola, a sucata quase sempre é levada aos colégios pelos alunos. Aqui no Stance Dual, a iniciativa muitas vezes parte deles, que já trazem o material sem nem serem solicitadas, explica Débora. Nas outras instituições não é diferente. Eles trazem e nós separamos, conta Valdenice, representante do Dante. Os próprios alunos têm consciência do que pode ser reaproveitado e reciclado, completa Sônia, da Escola Viva.

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