Reformulação do vestibular causará impacto no ensino médio, dizem educadores

Duas das principais universidades estaduais do País, Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), reformulam os seus vestibulares a partir deste ano. Coordenadores de cursinhos pré-vestibulares e educadores de outras faculdades opinam sobre a necessidade das mudanças e suas consequências para o ensino médio.

Carolina Garcia, do Último Segundo |

Para a maioria, as mudanças são positivas e irão trazer benefícios para o ensino brasileiro. O assunto já virou pauta na esfera federal. Na quarta-feira (25), o ministro da Educação, Fernando Haddad, apresentou o projeto de unificar os vestibulares das universidades federais.

A proposta do ministro é criar um novo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que funcionaria como forma de seleção para essas instituições. O projeto formal será entregue à Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) na segunda-feira (30) para que seja discutido nas universidades. Caso seja aprovado pelos reitores, o Enem, já modificado, pode ser aplicado em outubro.

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Candidatos realizam prova da Fuvest

Nós queremos um exame que corrija as distorções do vestibular e do Enem. A forma do Enem perguntar é muito interessante, mas ele carece de conteúdos organizativos do ensino médio. O vestibular é fortemente conteudista, mas na maneira de perguntar distorce a realidade do ensino médio. Nós queremos ter um exame nacional que dê conta do conteúdo, mas de forma inteligente, que julgue a capacidade analítica dos estudantes e promova uma mudança na atuação em sala de aula do professor, compara o ministro.

De acordo com a assessoria do Ministério de Educação (MEC), a adesão ao vestibular nacional dependerá de cada instituição federal ou estadual, que tem autonomia garantida por Lei para decidir de que forma poderá avaliar o seu candidato. O modelo do exame ainda será discutido com as instituições, mas, segundo ministro, a ideia é que seja um meio-termo entre o Enem e o vestibular atual.

Reformulado, o Enem abordaria mais disciplinas e teria mais questões - hoje são 63 de múltipla escolha e redação. O exame incluiria questões dissertativas e objetivas, além de poder cobrar uma parte específica, direcionada a áreas como ciências, para candidatos a Medicina. Alguns cursos poderiam fazer uma segunda fase. A proposta é semelhante à forma de seleção do Programa Universidade para Todos (ProUni). Nele, o aluno escolhe curso e instituição com base na nota do atual Enem, com mínimo de 45 pontos.

Educadores afirmam que o novo vestibular, caso a proposta do MEC seja adotada, efetuará uma mudança crucial no ensino médio. A pressão exercida sobre esta etapa de ensino de treinar o estudante para passar no vestibular poderá deixar de existir. É o que afirma a coordenadora-geral do colégio e cursinho pré-vestibular do Objetivo, Vera Lúcia da Costa. Toda mudança e discussão sobre o processo seletivo brasileiro será fundamental para o ensino médio. O ensino do colegial deixará de ser engessado, pois o vestibular irá exigir essa renovação, afirma a educadora, dizendo que o mundo passou por grandes transformações nos últimos anos e isso exige  uma nova roupagem para o processo seletivo.

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Paula Sakaramoto, de 19 anos
Roberto Vianna, coordenador da Comissão de Acesso e Seleção da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), também acredita o modelo atual de seleção não mais atende às expectativas de alguns grupos sociais que desejam ingressar na faculdade. Para ele, "o ensino médio irá sofrer alterações positivas para auxiliar o acesso à educação superior". Desde 2001, a Unirio estabelece em seu processo seletivo o aproveitamento dos resultados do Enem e provas com o conteúdo do ensino médio. 

Vera Lúcia acrescenta ainda que o candidato não pode mais ter uma formação básica com conhecimento específico da sua área. O ensino médio nos moldes atuais ensina o que o vestibular pede, restringindo a formação do aluno. Por isso, a coordenadora do Objetivo considera normal que os grandes vestibulares do País passem a cobrar todas as disciplinas na segunda fase ¿ como já faz a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

Sobre a proposta do ministro de ter o Enem como modelo unificado, Vera afirma que essa é uma tendência nacional. O Enem é uma ótima prova, faz o aluno pensar e refletir para que os problemas das questões sejam resolvidos. A coordenadora ainda concorda com  a reformulação do exame. No formato atual, ele não é suficiente para avaliar o candidato. As próprias faculdades sabem disso e deverão criar um critério para selecionar os seus alunos.

Diante de um cenário contraditório - com a maioria dos alunos vindos da escola privada - as universidades públicas estudam democratizar o vestibular, intensificando o caráter de inclusão social. Em 2008, 138.222 candidatos disputaram a Fuvest, entre eles 85.458 (62,3%) cursaram o ensino médio em escola particular e os outros 27,7% (38.074), vieram da rede pública. Na mesma situação encontra-se a Unesp, que com 74.976 inscritos em 2008 disputando 6.374 vagas, aprovou 3.948 (63,3%) alunos da rede privada e 2.293 (36,6%) alunos da escola pública. 

O projeto de mudanças no processo seletivo da USP ainda está no papel e aguarda a aprovação final. Segundo a universidade, em fevereiro as alterações foram apresentadas por uma comissão que analisou o projeto no Conselho de Graduação. A expectativa é que o documento seja aprovado até maio. Já a Unesp teve o seu projeto final aprovado no dia 19 de março pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) e adotará as mudanças no próximo processo seletivo, em dezembro.

Como uma das principais mudanças na Unesp, a prova passará a ser realizada em duas fases, uma em novembro e outra em dezembro, com questões que não serão mais divididas em blocos de matérias. A primeira fase contará com 90 questões objetivas divididas por três conjuntos nucleadores de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) presentes no currículo do Ensino Médio.

A diretora acadêmica da Fundação Vunesp (instituição responsável pelo exame da Unesp), Tânia de Azevedo, explica que a primeira etapa terá atualidade como foco, buscando textos e fatos veiculados pela mídia. Já na segunda fase, o candidato responderá 18 questões discursivas dos três conjuntos nucleadores e prova de Redação. Caracterizada pela especificidade de cada área, a próxima etapa contará com questões mais elaboradas para respostas discursivas que também deverão ser mais elaboradas, explica Tânia.

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Paula de Bonis, de 18 anos
Porém, o coordenador-geral do cursinho pré-vestibular do Anglo, Nicolau Marmo, classifica as mudanças da Unesp como um retrocesso. A Unesp avaliava o candidato em três dias e agora, com a primeira fase eliminatória, vai passar para dois. Com dois dias de segunda fase não dá para avaliar o candidato. Para Marmo, o ideal é que a segunda etapa seja realizada entre quatro a cinco dias ¿ como as provas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o da USP. Para o professor e coordenador-geral do Poliedro, Henrique Ferreira Villares, a Unesp corre risco de deixar o vestibular fácil demais e ter mais alunos aprovados do que vagas.

Sobre a possibilidade de ter um vestibular fácil demais, a diretora acadêmica da Vunesp garante que isso não irá acontecer. Afinal, mesmo com as mudanças, o aluno terá que demonstrar que é estudioso, crítico e participativo, características positivas inerentes à personalidade e ao esforço do candidato, independente da sua escola de origem. Bárbara Falcão, coordenadora pedagógica do Cursinho popular dos Estudantes da USP (Acepusp), julga o projeto da Unesp como muito interessante, pois deixa de ser um ensino mecanicista e cobra uma formação mais ampla do candidato. O importante não é só saber fazer cálculo, mas ter uma postura diferencial e saber debater diferentes temas é fundamental.

Liderado pela Pró-Reitoria de Graduação, o projeto da USP defende mudanças logo na primeira fase, que se aprovada, passará a ser eliminatória e não contará pontos para o candidato. No formato 2008, os alunos paraquedistas acabavam sendo ajudados, chutavam questões e passavam para a segunda fase. Para o bom aluno é ótimo, porque ninguém sai com vantagem da segunda fase. A USP criou um excelente projeto e está dando uma bola dentro, afirma o coordenador-geral do Poliedro. É uma mudança benéfica, pois tende a valorizar os alunos mais preparados.

Leandro Tessler, coordenador da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), acredita que a proposta da USP faz com que o método de avaliação se aproxime do formato da universidade de Campinas. Acho muito positivo a Fuvest se preocupar com a formação ampla do candidato. Mostra que ela está se preocupando em definir um perfil de estudante.  De acordo com o projeto da USP, a segunda etapa do processo passaria a avaliar todas as disciplinas do ensino médio ¿ assim como o vestibular da Unicamp, por exemplo.

No formato atual, somente as matérias do curso escolhido pelo vestibulando são cobradas. Além disso, a universidade tem como objetivo inserir questões interdisciplinares, que contenham conhecimentos de mais de uma disciplina.  Porém, Bárbara, coordenadora do Acepusp, discorda e teme que a mudança piore a situação dos alunos da rede pública. No final do cursinho, dividíamos os nossos alunos em turmas de exatas e de humanas, mas agora a gente vai ter que remanejar tudo. Além disso, os nossos alunos terão que estudar mais.

Futuros candidatos

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Os amigos Henrique e Hélio, de 18 e 19 anos

No terceiro ano de cursinho, a estudante Paula Sakuramoto, de 19 anos, busca passar no processo seletivo da Fuvest para Administração. Como já está indo para a quarta tentativa, Paula acredita que as mudanças serão boas e que as pessoas com formação de cursinho não terão problemas. Com essas mudanças, os estudantes poderão provar que estão realmente preparados sem a injustiça da primeira fase, afirmou a estudante, dizendo que no ano passado as cotas geraram um cenário injusto na USP, quando estudantes de escola pública ganharam mais de 5 pontos na primeira etapa.

Já Bianca Alves, de 19 anos, vê como péssima a mudança no vestibular da USP. Segundo a estudante, que prestará Economia, as alterações irão prejudicar todos os candidatos. Eu sempre fui bem na primeira fase e mal na segunda. Acho que minhas chances de passar diminuíram. Receosa, Bianca garante que vai se dedicar mais aos estudos.

Com objetivo de passar na Universidade de Campinas (Unicamp) em Dança, Juliana de Bonis, 18, acredita que o processo seletivo da USP está se aproximando do formato da Unicamp. Na primeira tentativa, ela conta que chegou a zerar em Física na faculdade de Campinas e por isso decidiu entrar no cursinho pré-vestibular. Sobre a presença de todas as disciplinas na segunda etapa, Juliana diz: Acho um desperdício o aluno se matar para decorar todas as matérias. Se a proposta da USP e da Unesp é fazer o candidato pensar e não decorar, acho contraditório.

Na segunda tentativa para passar no vestibular para Direito no Largo São Francisco, o estudante Henrique Marum, 18,  se diz prejudicado com o novo formato de seleção. Para ele, um advogado não precisa saber Física tão aprofundado como o vestibular pede. Sem saída, Marum acredita que o único jeito de se dar bem é se dedicar mais. Já o companheiro e veterano no cursinho, Hélio Carvalho, de 19 anos, discorda totalmente do amigo.  Acredito que todos os candidatos deveriam possuir uma sabedoria ampla e saber lidar com diferentes temas. Nesse ponto, o projeto da USP irá ajudar.


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