Quem foi Calígula?

Uma infância inteira em acampamentos militares, uma nomeação precoce ao Império de Roma e um resultado catastrófico. Caio César Germânico não foi só mais um imperador qualquer. O Calígula, como foi apelidado ainda criança, ficou conhecido por seu governo autoritarista e aterrorizante.

Aline Vieira, especial para o iG |

"Oderint dum metuant", repetia Caio César Germânico de boca cheia. A frase, que quer dizer "deixem-nos odiar, desde que tenham medo", passou a ser dita com cada vez mais frequência depois que o imperador quase morreu de uma suposta depressão nervosa meses após assumir o Império de Roma, em 37 d.C.

Antes da doença misteriosa que mudou radicalmente seu comportamento, Calígula, nomeado imperador aos 25 anos de idade, tinha um futuro promissor no governo herdado de seu tio-avô e pai adotivo, Tibério. Naquela época, o povo já não suportava mais Tibério. Além de uma reputação duvidosa em sua vida pessoal, na qual era acusado de abusar de crianças, as regras impostas por ele enquanto esteve no poder eram totalmente absurdas, explica o professor de filosofia Antônio Augusto Salles.

Quando Calígula assumiu o poder, ele ordenou, logo nos primeiros meses de comando, que trouxessem de volta do exílio milhares de pessoas inocentes, fez questão de congratular e premiar sua guarda e ainda perdoou dívidas e traições cometidas no passado. Não se sabe ao certo o por que Calígula ia contra todas as injustiças do governo anterior. Já é nessa parte da história dele é que as coisas começam a ficar contraditórias, diz Salles.

Os poucos meses de melhoria foram o suficiente para despertar no povo um sentimento de mudança cada vez maior. Por algum tempo, Calígula chegou a ser aclamado e idolatrado pela sociedade. Mas então, o garoto, que cresceu em ambiente instável e violento, resolveu mostrou a que veio.

O império de Roma, nos meses pós-doença de Calígula, ficou insuportável: o imperador mandava matar quem era contra suas idéias, esbanjava o dinheiro público em festas e jogos e ridicularizava e humilhava membros de seu próprio governo. Nos dias atuais, a história não parece tão absurda, já que nossos políticos também roubam, mas Calígula não só tirava um pouco de dinheiro aqui e outro ali. Ele confiscava os bens dos romanos descaradamente, conta Salles.

Mas nenhum desses casos era absurdo o bastante comparado ao que se seguiu: Para provar que era poderoso o suficiente e capaz de fazer o que bem entendesse, Calígula nomeou seu cavalo de corrida, Incitatus, como senador.

A sede de Calígula por saciar seus desejos e fazer tudo de sua forma foi percebida mais tarde. Ainda no poder, o imperador abriu casas de prostituição e vivia uma vida sexual cada vez mais escandalosa. Dizia-se até que ele mantinha relações incestuosas com as irmãs.

Segundo historiadores, esses surtos de Calígula aconteceriam cedo ou tarde. O imperador cresceu em acampamentos militares da Germânica Inferior ¿ seu pai, que na época comandava o exército imperial, o levou para viver no local quando o garoto tinha apenas dois anos de idade. O ambiente faz o ser humano. Uma criança que é praticamente criada rodeada por autoritarismo e violência tende a ir pelo mesmo caminho, opina o professor.

Os únicos amigos de Calígula eram, além dos dois irmãos e três irmãs, os soldados de seu pai. Foi dessa ligação existente entre o "filho do chefe" e os militares que surgiu o apelido "Calígula"- que são sandálias militares. Caio César Germânico recebeu esse nome porque todos achavam graça vê-lo andando com aquele tipo de calçado nos pés.

Ao contrário do que se pensa, Calígula teve uma educação de primeira. O garoto falava grego, era bastante inteligente, assimilava tudo rapidamente e dominava por completo a arte da retórica. Esses fatores, porém, não foram os únicos que ajudaram Caio a chegar ao poder.

Calígula tinha como tio-avô o segundo imperador de Roma, Tibério, que já pregava terror naquela época. Desde a ascensão do tio, a família inteira passou a ser alvo de perseguições perigosas e insaciáveis.

O pai de Caio, Germânico, foi assassinado de forma estranha e ainda desconhecida. Acredita-se, na verdade, que Caio morreu envenenado pela própria esposa, revela o professor Salles. Sua mãe ¿ Agripina - e seus irmãos mais velhos também foram levados para o exílio e, em seguida assassinados pela guarda. A Calígula restou apenas suas três irmãs. A solidão fez com que o jovem rapaz se mudasse para a casa de sua bisavó, Lívia Drusa.

Depois de assumir, governar de forma errante e ser odiado e perseguido pelo povo, Calígula foi assassinado por quem mais confiava: sua guarda. Cansados das maluquices do imperador, senadores e militares resolveram dar um fim à vida de Caio, que foi morto no túnel que ligava o Palácio ao Fórum de Roma, em 41 d.C.

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