Qualidade de ensino depende de boa gestão

Experiências bem sucedidas de aprendizagem dependem do preparo e envolvimento da direção e corpo docente com projeto pedagógico

Priscilla Borges, iG Brasília |

Quando saem da faculdade, os professores não imaginam a realidade que os aguarda dentro das salas de aula nas milhares de escolas brasileiras. Durante a graduação, ninguém os avisa ou prepara para lidar com problemas que vão muito além da dificuldade de aprendizagem de um aluno.

Hoje, os professores e os diretores têm de elaborar projetos pedagógicos, estabelecer planilhas de gastos, administrar recursos da escola e manter o colégio em funcionamento com pouco dinheiro ou infra-estrutura.

Nina Cláudia de Assunção Mello, coordenadora do curso de pós-graduação em Gestão Educacional da Universidade Católica de Brasília (UCB), ressalta que os professores não estão preparados para viver os desafios impostos a eles hoje. “O diretor de um colégio público tem muitas funções. Isso desanima o professor, porque parece algo impossível”, lamenta.

A professora defende o investimento em capacitações na área de gestão aos líderes escolares, por se tratar de tema estratégico na construção de aprendizagem escolar. “Um bom diretor precisa saber trabalhar em equipe, de maneira descentralizada. Todos os professores e funcionários têm de estar envolvidos nas atividades da escola”, afirma.

Maria de Jesus Ferreira Amorim, diretora do Centro de Atenção Integrada à Criança (CAIC) Areal, escola localizada em uma comunidade de baixa renda no Distrito Federal, conhece bem as dificuldades enfrentadas por quem quer fazer um bom ensino. O colégio que dirige tem mais de 1,5 mil alunos, da creche ao ensino fundamental.

O CAIC Areal está localizado em um grande terreno. Os prédios construídos são grandes, mas estão velhos e precisam de reformas. O esforço dos 74 professores que trabalham no local para manter a escola bonita – as paredes são coloridas e enfeitadas com cartazes coloridos e quadros pintados pelos próprios alunos – é constante. Mas faltam recursos para melhorar o espaço físico.

Para Maria de Jesus, o empenho dos professores e o contato com as famílias das crianças e a comunidade são os diferenciais da escola, que enfrenta desafios. “A rotatividade dos alunos é me preocupa. Precisamos diminuir a evasão e a repetência. Trabalhamos a auto-estima dos estudantes o tempo todo por causa disso”, conta.

Além de projetos culturais e artísticos, os professores dão aulas de reforço às crianças e de esporte. À noite, o colégio abre as portas para os moradores da comunidade. São oferecidas aulas de futebol gratuitas para eles. “Era uma necessidade da comunidade, marcada pela violência e pela falta de oportunidades”, conta.

A diretora só reclama da responsabilidade de ter de administrar a escola financeiramente e pedagogicamente, mesmo sem ter formação específica. “É muito difícil dar conta de tudo. Ter o dinheiro nas mãos facilita na hora de arrumar um chuveiro ou fazer pequenos reparos. Mas não fazemos muito mais que isso. Não podemos”, lamenta.

Avaliações
Historicamente, o Distrito Federal se sai bem em avaliações nacionais e tem a educação pública reconhecida como uma das melhores do País. Mas é preciso ir além, defende Leila Pavanelli, coordenadora de Supervisão Institucional e Normas de Ensino da Secretaria de Educação do DF.

Com o nível de formação dos professores – que ainda recebem salários acima da média nacional –, ela acredita ser possível melhorar muito mais. Para orientar o trabalho, a secretaria criou um sistema de avaliação interno, feito em todas as escolas públicas da rede. “Agora, vamos investir mais no currículo. Precisamos incentivar a leitura, construir bibliotecas e contratar pessoas para lidar com essas ferramentas”, diz.

Continuidade
No estado do Paraná, considerado um bom exemplo de investimento, gestão e qualidade de ensino, a educação é prioridade nas políticas públicas. A secretária de Educação do estado, Yvelise Freitas de Sousa, atribui os bons resultados nos exames nacionais ao grande investimento feito governo estadual nas políticas educacionais – 30% do orçamento do Paraná – e a continuidade do trabalho desenvolvido.

Yvelise defende que as políticas sejam de estado e não de governo. A continuidade dos programas, segundo ela, é essencial para amadurecer projetos e fortalecê-los. “Tivemos a sorte de ter duas gestões seguidas na secretaria. Durante os primeiros anos, discutimos os princípios dos programas com os professores, ouvimos sugestões, aprimoramos os projetos. Criamos perspectivas de futuro, o que faz toda a diferença”, analisa.

Divulgação
Professores das escolas estaduais do Paraná são treinados para usar televisão adaptada para pen drive. Eles podem preparar aulas mais dinâmicas com a ferramenta
Atualmente, a rede estadual paranaense tem 1,4 milhão de alunos e conta com 60 mil professores. Apesar de comemorar os bons resultados, Yvelise aponta problemas. “Temos de enfrentar a evasão e a reprovação. Temos o maior número de estudantes que ingressa no ensino médio do País, 54%. Mas é pouco. Os recursos não são suficientes para cumprir todas as metas”, lamenta.

A secretária paranaense acredita que algumas ações foram fundamentais para garantir a qualidade do ensino, além dos investimentos financeiros. Em todas as salas de aula das 2.136 escolas estaduais, há uma televisão adaptada para receber pen drives. Com isso, os professores podem planejar a utilização de vídeos, apresentar imagens ou filmes, sem precisar solicitar auditórios ou laboratórios de informática.

A valorização dos professores também contribuiu para alavancar o comprometimento deles com os projetos pedagógicos. A média salarial no estado é de R$ 2,6 mil para 40 horas semanais. Para subir na carreira, o professor precisa se qualificar. O material didático utilizado pelos alunos é produzido pelos professores da rede. “Nós os valorizamos pela produção”, pondera Yvelise.

Desafios antigos
Em 2007, o Rio Grande do Norte atingiu 3,19 no Ideb para as séries iniciais do ensino fundamental. Nota bem abaixo da média brasileira, que é de 4,2. Mas, entre os mais pobres, é o estado com mais recursos disponíveis para a educação: R$ 2.254 por aluno. O valor ainda é insuficiente para reverter a realidade educacional na região.

Otávio Augusto de Araújo Tavares está à frente da Secretaria de Educação do Rio Grande do Norte há oito meses. Ele conta que um dos maiores desafios do estado é resolver um problema bastante antigo: resgatar adolescentes e adultos que largaram a escola. Um terço da população jovem do estado não concluiu o ensino fundamental, de acordo com ele.

Além disso, é preciso formar professores. Muitos docentes estaduais – a secretaria não sabe precisar quantos – dão aulas sem o diploma de graduação. Eles cursaram apenas o magistério antes de se tornarem professores. A secretaria firmou parcerias com todas as instituições de ensino superior públicas do estado para oferecer a formação aos professores.

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