Projeto de expansão de cursos de Medicina enfrenta resistência

Entidades de médicos dizem que problema não é a carência de profissionais, mas a concentração deles nas capitais

Priscilla Borges, iG Brasília |

Com o objetivo de aumentar a quantidade de médicos no País, os ministérios da Educação e Saúde prepararam um projeto de criação de vagas em cursos de Medicina que levaria o Brasil a uma relação de 2,5 médicos para cada 1 mil habitantes. Para colocá-lo em prática, além do aval da presidenta Dilma Rousseff, precisarão vencer resistências de entidades do setor e de estudantes que entendem que não há carência de profissionais, mas apenas uma má distribuição deles.

No Brasil, de acordo com dados registrados pelo Conselho Federal de Medicina em 2011, há atualmente 1,95 médicos por cada 1 mil habitantes, relação inferior à de países como Estados Unidos (2,4) e Argentina (3,0). A maioria dos profissionais está concentrada nas capitais e grandes cidades.

“Não há estudo metodológico que comprove a necessidade de médicos no Brasil. O que precisamos é de uma carreira melhor, que motive os profissionais a ficarem no interior, e de médicos melhores”, comenta Dalvélio Madruga, conselheiro da Comissão de Ensino Médio do CFM. “Não é abrindo mais vagas que isso vai se resolver”, diz.

A proposta, segundo o ministro da Educação Aloizio Mercadante, é criar vagas nas universidades federais, auxiliar as estaduais e incentivar o setor privado a oferecerem novas graduações. Afinado com a preocupação das entidades médicas, o MEC garante que os câmpus das instituições no interior e os Estados mais carentes de profissionais seriam privilegiados com mais cursos de Medicina. O ministro também diz que a expansão não vai prejudicar a qualidade da formação, outro receio dos médicos.

Leia também: Plano prevê a criação de 2,5 mil vagas de Medicina

Diferentes entidades ouvidas pelo iG defendem a criação de uma carreira federal, à semelhança do que ocorre hoje com os juízes. “Assim, o médico iria para uma cidade muito pequena, com condições de acesso à educação e a serviços precárias, sabendo que depois de cinco anos, por exemplo, ele pode migrar para um lugar melhor”, pondera o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Florentino Cardoso.

Salários mais altos e melhores condições de trabalho também estão entre aspectos considerados fundamentais para atrair jovens para cidades menores e, principalmente, para o serviço público. “O médico é mal remunerado e não tem condição de trabalhar em algumas cidades, que não oferecem exames simples, como hemograma ou internet. Essa é a causa da má distribuição dos médicos pelo País”, opina Cardoso.

Reserva de mercado?

Há quem acuse as entidades de classe de serem contra o aumento de vagas por defenderem uma reserva de mercado. Edson Duarte, 20 anos, está no 5º semestre do curso e acredita que essa pode ser uma parte da explicação. Com esse argumento, ele não concorda. Para ele, é preciso sim aumentar as vagas nas instituições, mas depois de rever a estrutura dos cursos.

Alan Sampaio / iG Brasília
Gustavo Tarja Borges, aluno de medicina da UnB, defende mais vagas para medicina, porém só depois de criar infraestrutura nas universidades
“Acho que são oferecidas poucas vagas mesmo, mas é preciso pensar na infraestrutura antes”, conta o aluno da Universidade de Brasília (UnB). Gustavo Tarja Borges, 25 anos, diz que há alunos “subindo em um banco” para assistir a uma aula de anatomia. “Sou completamente favorável à ampliação de vagas. Só não se pode aumentar vaga sem estrutura ou professor. Não podemos deixar a qualidade dos cursos, que é boa, cair”, opina.

A UnB oferece nos processos seletivos tradicionais 36 vagas por semestre no curso de medicina. Além disso, recebe cerca de 11 ou 12 alunos a mais por semestre vindos de transferências obrigatórias – filhos de servidores públicos ou diplomatas estrangeiros, por exemplo, que vêm trabalhar em Brasília. A evasão, segundo o diretor da faculdade, Paulo César de Jesus, é zero.

“A relação professor-aluno aqui no curso é de 18 alunos para cada professor. O ideal em um curso de medicina é seis. Precisaríamos de um quadro docente muito maior para ampliarmos.”, diz Jesus. Jadete Barbosa Lampert, presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), considera o corpo docente o ponto crítico do projeto. Ela diz que a capacitação dos médicos para o ensino é falha – há mais dedicação à pesquisa – e não há profissionais interessados suficientes para atender essa demanda.

Residência médica

Para o diretor da Faculdade de Medicina da UnB, o tema da necessidade de expansão de graduação é polêmico “numericamente”. Ele destaca, porém, que as vagas em residências médicas não têm acompanhado a criação de novos cursos de medicina. Esse seria o outro ponto do projeto dos ministérios: incentivar a criação de residências no interior.

Hospitais de excelência, como o Sírio-Libanês e o Albert Einstein, serão convocados a discutir a possibilidade de criar cursos que atendessem às duas necessidades. “Para aumentar o número de vagas, precisaríamos de mais preceptores, que não temos”, reforça Cardoso, da AMB.

Beatriz Costa, presidente da Associação Nacional dos Médicos Residentes (ANMR), critica a “precarização” da carreira médica e da situação dos hospitais universitários. Para ela, a proposta é incoerente diante do corte de orçamento da saúde feito para 2012.

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