Profissionais voltam à sala de aula para aprender mandarim

Falar o idioma, mesmo em um nível básico, ajuda na comunicação com fornecedores e clientes chineses

Marina Morena Costa, iG São Paulo |

Na hora de escolher um terceiro idioma, dificilmente o mandarim aparece como primeira opção. As dificuldades são grandes – maiores que as das línguas ocidentais – e podem assustar quem procura um diferencial profissional. São mais de 46 mil ideogramas e pelo menos três anos para ter um bom conhecimento do idioma. Mesmo assim, escolas de chinês têm registrado crescimentos no número de matrículas.

Os cursos de mandarim têm a duração média entre três e quatro anos. Neste período, o estudante aprende a falar chinês pelo pinyn (sistema de representação dos fonemas em letras do alfabeto latino) e reconhecer cerca de 600 ideogramas – atualmente cerca de 5 mil são usados cotidianamente na China.

“Eu me diverti com a dificuldade do aprendizado e entrei sem nenhuma ambição de conseguir falar logo. Sei que é um projeto de longo prazo”, conta José Rubens Scharlack, 34 anos, advogado e sócio de um escritório especializado em atender investidores estrangeiros. Scharlack exibe um caderno caprichado, repleto de ideogramas, e lembra que se assustou com os tons da língua chinesa. “Há quatro formas de pronunciar apenas a ‘letra A’. É tudo cantado.”

Vanessa Lacerda, 33 anos, começou a estudar mandarim há dois meses e já notou diferença em seu cotidiano profissional. Gerente de desenvolvimentos de embalagens e importação de uma grande empresa de cosméticos, que importa 90% das embalagens da China e de Taiwan, Vanessa está constantemente em contato com fornecedores. “Muitas vezes eu ligava para a China e a atendente desligava o telefone, porque não entendia inglês. Agora sei algumas palavras em chinês, conheço a entonação da língua e consigo pedir para que transfiram a ligação para a minha interface. A partir daí falamos em inglês”, conta.

De olho no futuro, Luara Lopes, 31 anos, começou a estudar mandarim este ano. A consultora de relações internacionais não tem clientes chineses nem precisa usar o idioma no dia a dia. “Ainda”, aposta. “É uma perspectiva de longo prazo. Como o aprendizado é longo e desafiador, resolvi começar logo”, afirma.

Segundo a previsão de Leo Fraiman, psicoterapeuta e especialista em orientação profissional, empregabilidade e empreendedorismo, o idioma será bastante utilizado entre cinco e dez anos. “A presença maior da China no Brasil é uma tendência que não volta para trás. Aproveitar este momento para investir no aprendizado do idioma pode ser uma estratégia muito inteligente. Amplia as possibilidades de atuação e o cliente se sente mais confortável quando encontra uma pessoa que fala a língua dele”, avalia.

Procura por cursos

Scharlack, Vanessa e Luara são alunos da escola NinHao , no bairro dos Jardins em São Paulo. Fundada em 2005 pelos irmãos chineses Eny e Ming Wu, a escola começou suas atividades com 30 alunos e agora conta com 200, um crescimento de 560%. Em 2009, abriu duas filiais em Sorocaba e Campinas, no interior do Estado. “Não imaginávamos que houvesse tamanha demanda fora de São Paulo”, diz Ming Wu.

O Instituto Confúcio , órgão oficial do Ministério da Educação chinês, também teve um grande crescimento no número de alunos em pouco tempo. A instituição começou suas atividades no Brasil em 2009 com 40 alunos em sua sede, no centro de São Paulo. Menos de dois anos depois, as matrículas cresceram dez vezes. Hoje, o instituto conta com 400 alunos em nove cidades – além de São Paulo, há unidades em Marília, Assis, Presidente Prudente, Araraquara, Botucatu, Guaratinguetá, São José do Rio Preto, São José dos Campos e Santos. A expectativa é fechar o ano com 500 estudantes.

A instituição é uma parceria entre a Universidade de Hubei e a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Por ser subsidiado pelo governo chinês, o curso é oferecido a um preço mais acessível: a mensalidade custa R$ 100. Em outras escolas ou com professor particular, o custo do curso varia de R$ 160 a R$ 300 por mês, ou de R$ 1 mil e R$ 1,8 mil o semestre. A estratégia do governo chinês de difundir a cultura e a língua chinesa é mundial: há 322 Institutos Confúcio em 96 países.

Com exceção de Santos, as unidades do interior do Estado estão alocadas nos campi da Unesp. A maioria dos alunos cursa letras, relações internacionais e comércio exterior. “Recebemos também profissionais que entem necessidade de aprender chinês, dado ao fato da China ser nosso principal parceiro comercial, e as empresas chinesas serem o maior investidor externo no Brasil”, aponta Luís Antonio Paulino, diretor do Instituto no Brasil.

Para Paulino, todas as pessoas que têm uma interface com a China deveriam considerar o estudo do mandarim. “As relações interpessoais e de confiança têm um peso muito maior na China do que no mundo ocidental. Dificilmente você conseguirá desenvolver uma relação de negócio sem algum tipo de empatia. O conhecimento mínimo da língua ajuda nisso, pois o cimento para essas redes é a comunicação.”

Cultura

Um dos principais diferenciais de estudar o idioma é conhecer a cultura chinesa. “O mandarim faz parte do ‘ser chinês’. Tenho tentado entender a cultura para aprender a língua”, afirma Carlos Eduardo Pereira, 42 anos, gerente de compras da editora Unesp e aluno do Instituto Confúcio.

Anne Quezado, 33 anos, também aluna do Instituto, acredita que para aprender mandarim é preciso ser perfeccionista. “Existe uma ordem para cada traço do ideograma, e se você não escreve na ordem correta, o chinês percebe. Eles são muito perfeccionistas, muito disciplinados”, aponta. Para a servidora pública, a questão cultural é muito mais forte no aprendizado do mandarim do que de outros idiomas. “Você não precisa mergulhar na cultura americana para aprender inglês. Mas com a língua chinesa precisa.”

Chéng Jing, 31 anos, professora do Instituto, está no País há um ano e meio. “Muitos alunos me perguntam sobre o fato dos chineses comerem cachorro. É uma coisa cultural, assim como a vaca ser sagrada na Índia”, conta a docente da Universidade de Hubei. Cheng aprendeu a falar português no Brasil e avalia que a gramática da língua chinesa é muito mais fácil do que a portuguesa, pois os verbos não variam, não há feminino e masculino, nem plural e singular. Já a escrita chinesa é “muito, muito, muito mais difícil”.

A professora analisa que um ano de estudo é o suficiente para aprender a falar chinês no dia a dia, contanto que o aluno estude bastante e pratique. Para se aventurar na escrita e na leitura, ela aposta em cinco anos de aprendizado. “Aí você conseguirá ler um jornal simples, não muito complicado”, diz, entre risos.

Seja por necessidade profissional ou pessoal, é importante gostar do aprendizado da língua. Motivado, o aluno aprende e fixa melhor, lembra Leo Fraiman. “Temos que aprender aquilo que a gente quer aprender. Não adianta ter uma visão utilitarista do mundo, querer pular etapas”, pondera.

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