Profissão: juiz de futebol

Para quem ama futebol, ser árbitro pode parecer a profissão dos sonhos: viver viajando de jogo em jogo e assistir tudo do melhor lugar possível, de dentro do campo. Para Carlos Eugênio Simon, árbitro da FIFA e presidente do Sindicato dos Árbitros de Futebol do Estado do Rio Grande do Sul, o melhor da profissão é mesmo isso, viver no meio do jogo que se ama.

Mônica Magalhães |

Mas vida de árbitro está longe de ser só diversão. Ser árbitro é apaixonante, mas não é visto como uma profissão de verdade no Brasil, diz Simon, que defende um projeto que está em tramitação no Congresso para que a profissão seja regulamentada.

Sem a profissionalização, explica ele, os juízes não conseguem viver apenas dessa atividade, porque só são pagos quando apitam jogos: um árbitro machucado tem que fazer tratamento e fisioterapia por sua própria conta e enquanto isso fica parado.

Ele explica que hoje a profissão só é plenamente regulamentada na Inglaterra, mas que em muitos países, como a Argentina e vários Estados europeus as Confederações oferecem uma ajuda de custo aos juízes de futebol.

Simon começou a apitar jogos quase por acaso. Quando ainda era estudante de jornalismo, foi convidado para apitar a final de um campeonato estudantil depois que o juiz se recusou a continuar por causa de uma briga.

Um professor de educação física, que na época era árbitro aspirante à FIFA, achou que ele levava jeito e recomendou que ele fizesse o curso da federação local. Depois do curso, ele começou a apitar jogos municipais amadores em Porto Alegre e a subir na carreira.

O caminho até a CBF e a FIFA é longo. Simon explica que, depois de fazer o curso de um ano, teórico e prático, da confederação, o árbitro entra no quadro C. Conforme vai ganhando experiência e sendo bem-avaliado, sobe para os quadros B e A. As confederações indicam os árbitros para a CBF, que indica para a FIFA. No Brasil, há dez vagas para árbitros da FIFA, preenchida conforme os ocupantes param de apitar.

Simon levou 13 anos entre o curso e a FIFA, mas diz que hoje esse caminho é mais rápido, pois o tempo mínimo que um árbitro passa em cada quadro tem menos importância atualmente. Se um jovem mostrar competência ele pode ser promovido rapidamente.

A idade em que um árbitro se aposenta (Simon não usa esta palavra, uma vez que a profissão não existe oficialmente) também baixou de 50 para 45 anos, acelerando as substituições.

Simon conta que no começo da carreira é impossível viver da arbitragem. Um juiz de campeonato amador ganha por volta de R$ 300 por partida, um de segunda divisão ganha aproximadamente R$ 500, embora as quantias variem entre os Estados.

No início ele teve outros empregos, como jornalista, e apitava aos fins-de-semana. Conforme as exigências da carreira aumentaram e ele começou a ser requisitado para jogos em outras cidades ou países, um emprego em horário comercial se tornou inviável.
Como árbitro da FIFA, que é chamado para muitos jogos no Brasil e no exterior e ganha R$ 2800 por uma partida de campeonato brasileiro, ele hoje se dedica exclusivamente à arbitragem. Mas isso não quer dizer que ele só trabalhe em dia de jogo.

Além de viajar muito para apitar jogos, um árbitro em tempo integral tem que manter o preparo físico com treinamentos todos os dias, afinal ele corre tanto quanto os jogadores em campo. É exaustivo. Só nas vésperas de jogos o treino é mais leve, e em dias de jogo eu não treino, preciso estar descansado porque a partida é extremamente desgastante, diz Simon.

Quase dois anos antes da próxima Copa do Mundo, ele já está investindo em sua candidatura para essa possível terceira participação ¿ ele trabalhou nas copas de 2002 e 2006.

Isso acrescentou à sua rotina estudos extras e acessos diários ao site da FIFA, que coloca vídeos e questões para os candidatos responderem, sempre em inglês. Os treinos e estudos me tomam entre 5 e 8 horas por dia, diz ele, que não pode deixá-los de lado nem quando viaja.

Como se vê, para ser juiz é preciso muito mais do que gostar e entender de futebol, embora esse seja o primeiro requisito. Tem que ter muita personalidade, honestidade, caráter, integridade, diz ele. Isso porque o fã de futebol que vira juiz tem que abandonar de vez o time do coração: eu torcia, mas nunca fui fanático. Quando virei árbitro abandonei preferências de clube, e hoje torço só para a seleção brasileira, conta ele. Esse trabalho tem que ser encarado com imparcialidade.

A consciência limpa é a maior arma do árbitro contra as pressões enormes que ele invariavelmente sofre em seu trabalho: tem que entrar em campo tranquilo, não pode querer agradar todo mundo, tem que apitar de acordo com o que enxerga.

Uma postura íntegra em todos os momentos também preserva o juiz e a profissão em geral de tentativas e suspeitas de corrupção: em 25 anos de profissão, nunca recebi nenhuma proposta ilícita, assim como a esmagadora maioria dos árbitros. Não dou espaço para isso. De vez em quando aparece um corrupto que mancha a imagem de todos.

Ter senso de proporções também ajuda: O futebol é muito importante, mas eu gosto da frase que diz que ele é a mais importante das coisas menos importantes. Tem que ter em mente que o futebol não é uma guerra, não é matar ou morrer, reflete.

Simon dedicou sua vida ao futebol, mas nem por isso acha compreensíveis comportamentos violentos por parte de torcedores: Torcedores fanáticos são doentes, não dá para manter nenhum tipo de diálogo com um cara que parte para a agressão. Já os xingamentos dirigidos ao juiz, quase de praxe, ele encara tranquilamente: Faz parte. Futebol é uma válvula de escape, quem me xinga na verdade queria dizer aquilo para o chefe, para o prefeito, para o presidente. No começo eu sentia mais a pressão da torcida, hoje encaro isso com naturalidade.

Se as coisas continuarem no caminho que estão seguindo, logo o juiz de futebol vai deixar de ser uma profissão odiada. Hoje em dia essa coisa de xingamentos está diminuindo, há muito mais respeito, nosso trabalho é reconhecido, diz Simon.

    Leia tudo sobre: profissão

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG