Profissão: concurseiro

Profissionais formados congelam a carreira e estudam em tempo integral para concursos públicos, em busca do emprego dos sonhos

Marina Morena Costa, iG São Paulo |

Depois de enfrentar o vestibular, concluir a faculdade e, no caso dos advogados, passar no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), milhares de jovens recém-formados se veem novamente diante de uma prova para enfim ingressar no mercado de trabalho. Os altos salários e as garantias do serviço público mobilizam estes profissionais a congelar uma carreira já iniciada para estudar e conquistar o emprego dos sonhos.

Só em 2009 as organizadoras Vunesp, Cesgranrio, Fundep e Cespe realizaram concursos públicos oferecendo 71 mil vagas. A rede de ensino LFG, uma das maiores na área de cursinhos preparatórios para concursos públicos, conta com 80 mil alunos em 400 cidades no País e vê mercado para expansão em mais 2 mil cidades . Em 2003, ano de inauguração da LFG, a instituição registrava 5 mil alunos.

A advogada Tâmara Capato, de 29 anos, acredita que passar em um concurso público para a vaga de analista judiciário em um Tribunal de São Paulo com menos de um ano de estudo “é sonhar”. “Comecei há poucos meses e estou preparada para passar de um a três anos estudando. Esta é a estimativa. Para quem quer a Magistratura (ser juiz) a expectativa é de três a seis anos de estudo”, diz. A remuneração oferecida para o cargo desejado por Tâmara no Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo varia entre R$ 6,6 mil e R$ 8,1 mil.

Com dois diplomas no currículo, Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e Direito na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Tâmara optou por congelar a carreira e se dedicar exclusivamente aos estudos para concursos públicos. “As provas exigem profundo conhecimento da legislação e da constituição. Nos editais eles especificam o que vai cair e é preciso estudar exatamente o exigido”, afirma.

Investimento pesado

Fábio Manzono, de 28 anos, realizou o sonho de se tornar promotor público em fevereiro deste ano. E a realização veio em dose dupla: o advogado foi aprovado em dois concursos diferentes, para o Ministério Público Estadual do Ceará e de Pernambuco. “Estou esperando homologar o resultado. Depois vou ter acesso a algumas informações que me farão optar por um MP ou pelo outro, como estrutura de funcionários, política de remuneração, quantidade de membros na promotoria. Mas estou muito contente porque as duas opções são muito boas”, conta.

Manzono investiu aproximadamente R$ 180 mil reais nos cinco anos que passou estudando para o concurso. “Calculo ter gasto entre R$ 2,5 e R$ 3 mil mensais, com aluguel, despesas pessoais, alimentação e cursinho. Nesta conta não incluo as viagens e as inscrições em concursos”, diz o futuro promotor. O investimento, no entanto, será recuperado em menos de um ano de trabalho, já que a remuneração inicial para o cargo de Monzono é de R$ 18 mil.

O advogado mudou-se de Cândido, no interior de São Paulo, para a capital para se dedicar aos estudos e credita a este fato boa parte dos gastos. Neste período exerceu atividades jurídicas como representante de um escritório de sua cidade, experiência exigida pela Promotoria. “Sempre quis trabalhar no Ministério Público porque ele é o senhor da lei penal. É o MP quem comanda a ação penal e fiscaliza a lei. É este poder de iniciativa que me fascina”, avalia Manzono.

Para o administrador de empresas Carlos Augusto Beckenkamp, de 27 anos, a aprovação em primeiro lugar no último concurso de auditores fiscais da Receita Federal exigiu outro tipo de investimento. “Estudava quatro horas por dia durante a semana, depois do trabalho, e nove horas no sábado e no domingo no curso telepresencial da LFG”, lembra. Na época, seu filho tinha acabado de nascer e a dedicação à família ficou prejudicada por causa da maratona de estudos. “Graças ao apoio da minha mulher consegui me preparar para o concurso. Devo metade dessa conquista a ela”, diz.

Beckenkamp atualmente trabalha como analista judiciário no Tribunal Regional do Trabalho, em Santa Cruz do Sul (RS). Mas sempre desejou mudar para uma área mais financeira e menos jurídica. “Sempre quis trabalhar na Receita Federal por ser uma área que me identifico mais, de auditoria, ciências exatas. A remuneração (R$ 13 mil) é boa, quis mudar para trabalhar com aquilo que eu realmente preferia.”

Ao contrário de Beckenkamp e Manzono, a carioca Maíra Fernandes, de 26 anos, foi aprovada em um concurso público da Petrobras “meio por acaso”. A administradora de empresas estagiava em uma companhia de telecomunicação e sabia que não seria efetivada quando acabasse a faculdade. “O edital da estatal me interessou e comecei a estudar para a prova. Fiquei um mês estagiando e indo ao cursinho à noite, mas era muito cansativo e eu não tinha tempo nenhum para estudar. Resolvi sair do estágio antes do final do contrato e me dedicar integralmente ao concurso. Adotei um horário de estudo como se estivesse trabalhando, estudava das 9h às 18h00. Fiquei dois meses neste ritmo e acabei passando”, conta.

Para Maíra, um emprego público não era prioridade, mas ela se surpreendeu com o trabalho. “Tinha a falsa ideia de que em uma empresa estatal encontraria aquele clima de pouco trabalho e muita enrolação. Hoje vejo que o setor público não é aquilo que eu pensava, ou melhor, a área em que eu caí na Petrobras não é nada do que eu pensava. O ritmo é acelerado e, quando a coisa pega fogo, trabalho quase 12 horas por dia.”

Marina Morena Costa/iG
Angelo de Souza Ramos estuda há quatro anos para passar na Magistratura
Cobranças

Interromper a carreira, investir anos de estudo e milhares de reais exige persistência e objetivo. “É uma fase difícil, há muita pressão. A nossa sociedade gosta de respostas imediatas e as pessoas questionam, cobram. ‘Você ainda está estudando?’ Mas, na verdade, o profissional do direito é um eterno estudante”, desabafa o advogado Angelo de Souza Ramos, de 31 anos, que deseja ser juiz.

Desde 2006, Ramos atua como advogado do estado (acionado para defender pessoas que não têm como contratar um defensor particular) e estuda para o concurso da Magistratura. “Recentemente passei para a segunda fase no Maranhão. A prova foi cansativa, realizada das 13h às 19h. Tive que analisar um caso e elaborar uma sentença ou um despacho. Passei perto, mas ainda não foi desta vez”, diz.

“Escolhi a magistratura porque gostaria de contribuir para a sociedade decidindo. Na época da faculdade eu queria ser promotor, ‘estrela da justiça’, mas depois percebi que quem coloca a palavra final é o juiz. Por isso acredito que vou me realizar pessoal e profissionalmente sendo juiz. Acho que tenho o perfil desta profissão”, resume Ramos.

Como grande parte dos alunos passa o dia inteiro no cursinho, as instituições têm áreas comuns para lazer, como lanchonete e academia de ginástica. Ramos interrompeu a atividade física para falar ao iG, na academia do cursinho preparatório FMB, em São Paulo. Na hora da seção de fotos, pediu para colocar o terno. “As pessoas não vão entender. O cara quer ser juiz, decidir as coisas e está aí na academia malhando? De jeito nenhum”, alegou. Trocou de roupa posou para a foto ao lado.

Sonho distante

Carmine Lourenço Del Gaizo Netto, de 36 anos, é famoso nos corredores do cursinho LFG, em São Paulo, e conhecido pelo apelido de Xexê. “Bem mais fácil do que o nome verdadeiro, não é?”, brinca o advogado que há sete anos estuda para o concurso de delegado da Polícia Federal. Não só estuda, como espera. “A última vez que abriu concurso para este cargo foi em 2004. Fiz 68 pontos na prova e a nota de corte foi 69. De lá pra cá não abriu mais vaga para este cargo”, lamenta.

Nesse período, Xexê prestou concursos apenas para verificar como estava seu desempenho e os conhecimentos em direito e processo penal. “Há um ano e meio resolvi abrir o leque, porque não há previsão de abertura de concurso para delegado federal. Tenho prestado concursos para a magistratura, promotoria pública e para delegado civil pelo País”, afirma. Mas sua preferência pela Polícia Federal é clara.

Alessandra Gerzoschkowitz
Carmine Netto tem o sonho de trabalhar como Delegado da Polícia Federal
Atualmente, Xexê advoga na área criminal, mas gostaria mesmo de estar do outro lado do jogo. “Pretendo um dia estar indiciando pessoas, em vez de as defendendo e tirando da prisão.” O advogado diz ter “perdido a conta” do quanto investiu nos concursos. “Sei que já gastei mais de R$ 10 mil com passagens aéreas.”

Aprovação

Apesar do tempo longo de estudo, a certeza na aprovação é comum entre os concurseiros e estimulada dentro dos cursinhos. Nas paredes do FMB e do LFG, em São Paulo, há frases como: “Mentalize a aprovação para que a aprovação venha até você”. “Eu tenho certeza de que eu e todo mundo que está nesta sala vai passar”, profetiza Tâmara Capato. “Se você estuda, se prepara, uma hora vai passar”, acredita a advogada.

Xexê concorda: “Só não passa quem desiste. Tenho sete amigos que começaram a estudar comigo e não desistiram. Hoje, todos eles foram aprovados. Três passaram na magistratura e quatro no Ministério Público, todos em São Paulo”.

O conselho de Carlos Augusto Beckenkamp, aprovado em primeiro lugar no concurso concorrido para Receita Federal, é a persistência. “A maioria das pessoas não passa no primeiro ou segundo concurso e acaba desistindo, mas a gente sempre sai de um concurso melhor preparado do que estava antes. É um acúmulo de conhecimento que acontece”, diz o veterano, aprovado em três concursos – dois para o Tribunal Regional do Trabalho, como técnico e depois como analista, e mais recentemente na Receita Federal.

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