Professores suspendem aulas na UnB após ameaças

Após boatos de atentado pelas redes sociais, policiais não encontraram suspeitos no câmpus. Mas corredores ficaram vazios

Priscilla Borges, iG Brasília |

O clima de insegurança no câmpus da Universidade de Brasília (UnB) afetou as aulas de muitos alunos nesta sexta-feira. Novas ameaças de ataque aos estudantes da instituição, feitas em redes sociais, levaram alguns professores dos cursos de Ciências Sociais, Comunicação Social e Direito a suspender as aulas.

Alan Sampaio / iG Brasília
Estudantes do curso de Sociologia foram alvos de muitas ameaças
Durante a madrugada, a UnB acionou as polícias Civil, Militar e Federal e informou sobre a divulgação de ameaças de ataque aos alunos no câmpus do Plano Piloto, inclusive com bombas. Desde então, policiais à paisana circulam pelos prédios da universidade em busca de suspeitos. Até agora, não encontraram indícios ou suspeitos, mas alguns docentes paralisaram as atividades.

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De acordo com a assessoria de imprensa da UnB, a orientação dada pelos policiais e repassada aos departamentos e institutos era de que as aulas não deveriam ser suspensas por conta disso. Mas muitos professores se sentiram inseguros. Os representantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) também pediram, pelo Twitter, que os estudantes não comparecessem às aulas.

“Pedimos a todos estudantes que não compareçam à UnB hoje, pois o atentado marcado contra os estudantes é hoje, sexta-feira 13. Infelizmente, as ameaças continuam nas redes sociais, nos sites de conteúdos preconceituosos, machistas e homofóbicos. Há mais envolvidos”, postaram. Além disso, pediram ajuda aos universitários, para que eles denunciassem atitudes e pessoas suspeitas.

Em nota oficial divulgada há pouco, o reitor em exercício, João Batista de Sousa, pediu que as pessoas não alimentem boatos, informem movimentações suspeitas e "repudia ataques contra o ambiente plural, produtivo e democrático que é a UnB". Uma equipe de funcionários da reitoria vai acompanhar o caso durante todo o dia e o policiamento foi reforçado no câmpus.

Ameaças e prisão

A insegurança ronda o câmpus porque, há pouco mais de 20 dias, o ex-aluno da UnB Marcelo Valle Silveira Mello foi preso pela Polícia Federal por suspeita de incitar a violência contra mulheres, negros, homossexuais, nordestinos e judeus, e abuso sexual de menores. Os alunos de Ciências Sociais seriam alvo de um atentado de Marcelo e um comparsa, Emerson Eduardo Rodrigues, segundo a PF. A polícia diz que eles preparavam atirar contra os alunos em uma casa de festas próxima à universidade.

No post "Estudantes de Ciências Sociais da UnB, estamos a caminho", publicado no blog mantido por Marcelo, ele escreveu: "A cada dia que se passa fico mais ansioso, conto as balas, sonho com os gritos de vagabundas e esquerdistas chorando, implorando para viver. Vejo o sangue para tudo quanto é lado, manchando uma camiseta com o logotipo do PSOL/PSTU". Rapidamente, o texto se espalhou entre os universitários, que levaram sua preocupação à reitoria, em janeiro deste ano.

Marcelo estudou por apenas um semestre na UnB. Logo depois, abandonou o curso e foi desligado da instituição. Quem estava na universidade naquela época só se lembra de que ele era uma pessoa calada e dos problemas dele com negros, mulheres, homossexuais, militantes de partidos de esquerda.

Priscilla Borges
Corredores da universidade ficaram vazios, mesmo após policiais não terem encontrado indícios de problemas ou suspeitos
Corredores vazios

Na universidade, apesar de sexta já ser um dia de menor movimento, os corredores ficaram vazios. Os poucos alunos que circulavam pelo câmpus contaram a comunidade ficou dividida entre o medo e a sensação de exagero. "A gente não teve aula às 10h. Mas a turma das 8h da mesma disciplina teve aula normal. A mãe de uma aluna entrou na sala pra buscar a filha, porque ficou com medo. Eu acho que era só boato mesmo", comenta Isabel Ilha, 19 anos, caloura de Comunicação Social.

Martim Aguiar, 18 anos, também calouro do curso, disse que leu os primeiros boatos sobre o tema nas redes sociais na quinta à noite. "Para mim, foi tão distante, que não levei a sério. Acho que, quem quisesse fazer alguma coisa mesmo, não avisava. Fazia", comenta. As colegas da Física Aline Bessa, 29 anos, Camila Messias, 28, e Queila Silva Ferreira, da pós-graduação, contam que só descobriram que algo estava acontecendo no meio da manhã.

"Ficamos um pouco apreensivas quando uma professora chegou nos assustando, dizendo que tinha liberado os alunos. Nós estávamos no laboratório, no subsolo, isoladas de tudo. Mas o clima de insegurança aqui já é grande, porque falta segurança, os ambientes são muito abertos, pouco iluminados", reclama Camila. Para os estudantes, na segunda-feira, tudo já estará normalizado.

Confira a íntegra da nota divulgada pela Reitoria da UnB:

"A reitoria da Universidade de Brasília informa que reforçou a vigilância no campus Darcy Ribeiro e acionou as autoridades de segurança pública (Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Federal) a respeito dos boatos de ameaças de bomba contra a UnB que estão circulando nas redes sociais desde ontem. Contactadas pela Administração Superior, as forças de segurança enviaram equipes para o campus, realizaram detalhada varredura e não encontraram nenhum indício de perigo Como precaução, no entanto, durante todo o dia de hoje o policiamento foi reforçado na UnB e um grupo da Reitoria está destacado para acompanhar o caso. O reitor pede a todos que não alimentem boatos, informem movimentações suspeitas para os telefones abaixo e repudia ataques contra o ambiente plural, produtivo e democrático que é a UnB.

João Batista de Sousa
Reitor em exercício da UnB

Telefones de contato
DAC: 3107-0219 / 3107-0218 / 3107-0217
SEGURANÇA: 31075841"

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