Presa aprovada pelo Enem espera sofrer preconceito de colegas

Cynthya Corvello, condenada por homicídio, teve pontuação suficiente para cursar história na Federal do Ceará e agora aguarda decisão da Justiça

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

Daniel Aderaldo / iG Ceará
Cynthia Corvello na biblioteca do presídio
A divulgação dos aprovados pelo Enem para ingressar em universidade pública é um alívio para os convocados. Não para todos. Cynthya Corvello, 40, que conquistou vaga no curso de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), terá que esperar mais uma decisão para comemorar.

Cynthya foi condenada a 25 anos e quatro meses pela co-autoria de um duplo homicídio praticado em Fortaleza, no ano 1993. Hoje, ela está presa em regime fechado no Instituto Penal Feminino, em Itatinga (CE), e aguarda uma autorização da Justiça para frequentar as aulas.

Mais notícias sobre o Ceará

A Defensoria Pública do Estado do Ceará entrou com um pedidona Justiça para que Cynthia seja autorizada a deixar a carceragem cinco vezes por semana e percorrer 30 quilômetros até Fortaleza para assistir às aulas do curso de História do Centro de Humanidades da UFC, no bairro Benfica, região central da capital.

Incentivo:
Detentos que estudarem poderão reduzir pena

“Eu tento trabalhar a minha mente para, caso haja uma negativa, eu não me sinta frustrada, e não desista desse sonho que é voltar a estudar, mesmo em cárcere”, conta.

Se conseguir o feito, a partir do dia 23, quando o semestre letivo começa, irá para as aulas com monitoramento eletrônico ou sob escolta policial.

nullCynthya diz que deve enfrentar o preconceito de seus futuros colegas.

“Se eu tiver vergonha da minha situação de apenada, e estar buscando crescimento mesmo em situação de cárcere, o preconceito vai me doer. Se eu tiver orgulho da minha situação de apenada, que mesmo em cárcere está buscando crescimento, eu acho que, pouco a pouco, as pessoas vão se aproximar, vão me conhecer, e, de repente, podem achar até positivo essa integração entre a sociedade reclusa e a sociedade liberta”, reflete.

Cynthya tirou 900 na Redação – a nota máxima é 1000. Nas provas objetivas, sua média foi 612. A boa pontuação, contudo, não foi suficiente para uma vaga no curso de Psicologia , sua primeira opção. Como as aulas do curso de Filosofia da UFC são à noite, a logística para comparecer às aulas seria ainda mais complicada. Restou História .


20 anos depois

Cynthya não estudava desde que concluiu o Ensino Médio, no final da década de 1980, no Colégio Anchieta, uma escola particular de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Lá, ela se formou também técnica em administração e logo começou a trabalhar.

Após passar mais de 20 anos afastada das salas de aulas, foi no presídio que Cynthya decidiu tentar concretizar o sonho antigo de cursar uma universidade. “Antes era mais difícil entrar em uma universidade. Isso ficou no sonho e pronto”, relembra no início da conversa com a reportagem do iG , na pequena biblioteca onde trabalha em troca da remissão da pena.

A rotina diária começa às 8h da manhã e só termina às 16h. Sua tarefa é passar por todas as alas da penitenciária com um carrinho carregado de livros para que as presas escolham o que querem ler. Quando não está ocupada com esse serviço, dedica seu tempo livre ao coral e lê. Lê muito. Em média, oito livros por mês, segundo ela.

"Foi essa leitura e a boa base que eu tive no Ensino Médio que me ajudaram na aprovação. Eu percebi que a prova do Enem é muito sobre a compreensão do que você está lendo. Você tem que entender a questão”, analisa.

Exemplo

nullO sucesso da colega de carceragem no vestibular inspirou outras detentas. Em 2011, 15 presas fizeram a prova do Enem . Cinco delas conseguiram uma pontuação considerável, mas não foram aprovadas. “Elas se sentiram mais motivadas a vir à escola, frequentar o Médio (Ensino) para neste ano, quando tiver o Enem de novo, tentarem e serem bem sucedidas”.

A direção do Instituto Penal incentiva os estudos. Além da biblioteca, há duas salas dedicadas a aulas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) nas instalações do presídio. Das 468 presas atualmente, 165 estão matriculadas tentando um diploma.

Heloisa da Guia Xavier, de 37 anos, acredita que possa ser a próxima a conseguir ingressar no Ensino Superior. Ela quer ser pedagoga . O resultado de Cynthya foi um estímulo.

Heloisa diz que fez o Enem 2011 sem se preparar. “Fiz mais para testar meus conhecimentos, mas agora, vendo o que a Cynthya conseguiu, com certeza vou me dedicar muito mais".

Condenada a 47 anos de prisão, depois de quatro anos, ainda precisa cumprir mais três antes de ganhar o benefício do regime semi-aberto. “Talvez eu tenha que tentar o direito de ir para a universidade na Justiça, como ela”.

    Leia tudo sobre: vestibularcearápresaenem

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG