Passei em mais de uma universidade. E agora?

Especialistas e estudantes que já vivenciaram a situação dão dicas aos vestibulandos indecisos a fazer uma escolha consciente

Priscilla Borges, iG Brasília |

À primeira vista, a aprovação em vários vestibulares traz só alegrias. Orgulho para os pais, reconhecimento e uma enorme sensação de dever cumprido para os próprios estudantes. O problema é que, em poucos dias, o que era felicidade pode se tornar uma tortura. Quando chega o momento de escolher uma instituição, muitas dúvidas pairam na cabeça dos estudantes, especialmente se, entre as opções, estão cursos diferentes.

As preocupações dos adolescentes começam na escolha da carreira. A pressão que se fazem é a de optar por algo que gostem (mesmo que não tenham total noção do que realmente é o curso) e traga boas oportunidades de trabalho. Depois, passam para os dilemas que envolvem a escolha da universidade: pública ou uma privada; longe ou perto de casa; condições de ensino; quadro de professores. Mas o pior mesmo é o medo de errar.

Hermano Portella Leite, 18 anos, acabou de viver esse dilema. Garantiu uma vaga no curso de Ciência da Computação pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB). Dias depois, foi aprovado no vestibular da Universidade de São Paulo (USP) para o curso de Engenharia Elétrica. Em um final de semana, precisava tomar a grande decisão. Ficar em Brasília, onde mora, ou se mudar para São Carlos.

Igo Estrela/Agência ObritoNews

Hermano passou em universidades de Estados diferentes

Quando se inscreveu nos processos seletivos das duas instituições, Hermano optou por carreiras da área de exatas por causa da afinidade com as disciplinas. Claro que me preocupo com o futuro, mas queria fazer algo que gostasse, afirma. Depois de avaliar os cursos e o mercado de trabalho das duas áreas, e conversar com a família, decidiu ficar em Brasília. Dá medo de arriscar errado. Queria passar pela experiência de morar fora. Mas tive medo de largar tudo por um curso que não fosse tão legal, conta.

Sonho realizado

Morar fora também foi um dos critérios que Pedro Alcântara adotou para escolher os vestibulares a que prestar, mas não o único. Eu queria morar no interior, por isso minhas prioridades foram a USP de Ribeirão Preto e a Universidade Federal de São Carlos. Mas além delas eu prestei para o Mackenzie e entrei na disputa por uma vaga na Federal do ABC com a nota do Enem, conta.

A opção pela USP já foi feita, a matrícula realizada e o trote tomado. Fiquei tão feliz em ver meu nome na lista da Fuvest, que nem acreditei!, comemora.

Estudar na FEA era um desejo do início do ensino médio, quando optou por fazer o curso técnico em administração. O sonho ganhou forças no ano passado, ao analisar a grade curricular de todas as faculdades a que ia se candidatar. Quando vi o currículo da FEA fiquei empolgado. Tirando uma disciplina ou duas que eu sei que vou ficar pensando o que é que eu estou fazendo aqui?, por que sei que serão muito difíceis, ela tem tudo o que eu sempre pensei em cursar.

A questão financeira colaborou para eliminar uma das opções. Prestei o Mackenzie mais para saber como era. Não teria condições de pagar as mensalidades (R$ 1.048 para os ingressantes em 2010). Não sei ainda como vou fazer para me manter em Ribeirão Preto, estou pesquisando onde morar, sei que vai bastante dinheiro para morar e estudar longe, mas meus pais estão me apoiando nessa opção, comenta.

Critérios objetivos

Os psicólogos aconselham os jovens que passam por essa situação a fazer uma escolha com objetividade. A primeira providência é reunir o máximo de informações sobre as carreiras pretendidas (como é o curso, quais disciplinas são estudadas ao longo da graduação, como está o mercado de trabalho para a área, em quanto tempo é possível se formar) e as universidades (localidade, como é avaliada pelo Ministério da Educação, qual o grau de formação dos professores).

Depois, a sugestão é montar uma tabela de prós e contras de cada item elencado pelo estudante. O jovem pode dar peso diferente a cada aspecto, de acordo com o que considera importante. Essa lista é importante porque torna objetiva uma série de critérios. Ele poderá ter mais clareza sobre as possibilidades. Talvez ele não consiga sozinho e pode pedir ajuda a um parente ou professor que confie, ressalta Carlos Aleixo de Barros, professor de Psicologia da Universidade Católica de Brasília.

Outra dica é conhecer as universidades antes de se decidir. A terapeuta Luciana de La Peña recomenda que os estudantes conheçam as instalações do curso antes de se decidir. Quanto mais nos informamos, mais somos capazes de fazer uma boa escolha, diz. O fundamental é que o jovem escolha uma profissão que, naquele momento, ele acredita que trará mais felicidade e prazer. Esse é um bom caminho para se obter sucesso, porque ele vai querer se dedicar, reforça Luciana.

Foi pensando nisso que Tiago Schwingel Goulart, 17 anos, decidiu cursar Engenharia Naval na USP. Esse era o curso que queria fazer desde o começo do 3° ano do ensino médio. Mas como não sabia se seria aprovado, apostou em outras alternativas. Marcou Engenharia Mecatrônica no PAS da UnB, Medicina no vestibular tradicional da UnB e Engenharia Mecânica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo. Passou em todos. Na UnB, ficou na segunda colocação geral nos dois processos seletivos.

Igo Estrela/Agência ObritoNews

Tiago deve que decidir entre diferentes cursos

Acho que a gente tem que estudar o que quer. Por isso escolhi Engenharia Naval. A instituição também é importante, pelo reconhecimento e a tradição que possui e a qualidade de ensino, pondera. Segundo Tiago, os pais o apoiaram em todo o tempo. Essa deve ser a postura dos pais, de acordo com os especialistas. Eles devem ajudar os filhos a reunir informações para que tomem decisões conscientes, mas devem se lembrar de que a profissão será dos estudantes e não deles.

Quem ainda está no 2° ou 3° ano do ensino médio deve começar a pensar na escolha e não ser apanhados pela armadilha de muitas escolhas diferentes. Nem sempre muitas opções facilitam, destaca o psicólogo Carlos Aleixo de Barros.

Prioridades

Bárbara Ferrarezi, 18 anos, foi aprovada em Medicina nos vestibulares mais concorridos de São Paulo, nas universidades públicas USP, Unicamp, Unesp e Unifesp, e na Faculdade de Medicina de Marília (Famema), também pública. A estudante aguarda o resultado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e acredita que tem chances de passar.

Luís Paulo Silva/Unicamp  
Bárbara passou em 5 públicas
Apesar de ter muitas opções, e entre instituições extremamente conceituadas, Bárbara não titubeou na hora da matrícula. A Unicamp sempre foi minha prioridade, porque moro em Campinas e prefiro ficar perto da minha família, afirma. Entre todos os resultados, o da Unicamp foi o mais aguardado e era o que realmente interessava à estudante.

Bárbara optou por prestar vestibular somente em instituições paulistas. E foram seis provas, para garantir uma vaga. Prestei todas porque tinha medo de não passar. Resolvi prestar todas as públicas de São Paulo, porque não queria estudar fora do Estado, nem em uma particular, conta.

Ao contrário de muitos alunos, Bárbara não quis comparar o curso de Medicina das universidades que prestou vestibular. Mesmo se eu pesquisasse [a grade curricular e o corpo docente] não iria saber o que significava, nem qual seria a diferença pra mim. Eu não saberia avaliar, por isso optei por não comparar, explica.


FAÇA SUA TABELA

Anote aspectos importantes e comuns a todas as carreiras em que você conseguiu uma vaga: matérias estudadas durante o curso, tempo de duração do curso, o quanto você gosta da área, as opções de trabalho que oferece, a remuneração dos profissionais da área, quanto custa em termos econômicos a graduação... Coloque cada um em uma linha na tabela. Depois, distribua em colunas as universidades em que você passou. No encontro entre a linha e a coluna, você colocará uma pontuação. Você deve definir os critérios, por exemplo: excelente (5 pontos), muito bom (4 pontos), mais ou menos (3 pontos), ruim (2 pontos), péssimo (1 ponto) ou de jeito nenhum (0 ponto).

Depois, faça uma listinha com as características das universidades. Enumere aspectos importantes como grau de avaliação do MEC, grau de formação dos professores dos cursos, localidade da instituição, entre outros. Atribua pontos também, de acordo com o peso que considerar necessário. No final, some os pontos e confira qual curso e instituição receberão mais pontos.


(Colaboraram Carolina Rocha e Marina Morena Costa, iG São Paulo)

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