Para Wanda Engel, o diferencial feminino é o “poder de síntese”

Superintendente do Instituto Unibanco diz que papéis múltiplos da mulher ajudam a lidar com situações complexas

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo |

A lista de cargos e conquistas de Wanda Engel é muito mais longa do que deixa transparecer a postura de educadora que mantém. Foi secretária, ministra, representante do Brasil em reuniões da Organização das Nações Unidas, funcionária do Banco Interamericano de Desenvolvimento e implementou políticas públicas que lhe renderam uma dezena de títulos em diferentes Estados e cidades do País.

Atualmente é superintendente-executiva do Instituto Unibanco e se prepara para assumir um papel no Conselho Internacional de Liderança Feminina, a convite da secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Fez isso tudo nos últimas 20 anos, junto com o doutorado na França e a criação de três filhos. Antes, acumulou duas décadas de experiência em sala de aula, do ensino fundamental ao superior e fundou uma ONG experimental.

Veja também : Retrospectiva 2011 - O ano do poder das mulheres

A receita? “Poder de síntese”, diz ela. “A mulher quando chega a um ponto, vem com uma experiência de vida que dá capacidade de lidar com a complexidade, de equacionar e de chegar ao simples e realizar.”

Em depoimento ao iG , ela diz que sua carreira foi decidida aos 11 anos, conta como houve tempos muito difíceis e atribui seu sucesso à educação. Veja os principais pontos:

Da sala de aula para o gabinete

Fui professora de primário, ensino médio e universidade sempre na rede pública do Rio de Janeiro. Chegou um momento da minha vida em que fui quase instada a desenvolver alguma coisa fora do governo e aí criei uma ONG no Rio, chamava Roda Viva e era voltada para a questão do jovem em situação de vulnerabilidade: o menino de rua. Essa experiência acabou me levando para o grupo que formulou o Estatuto da Criança e do Adolescente e fiz parte do primeiro Conanda (Conselho Nacional em Defesa da Criança e do Adolescente). Foi quando houve a Chacina da Candelária (1993) e os governos estadual e municipal do Rio foram condenados a ter políticas públicas para essa população. Então o prefeito (Cesar Maia), no qual eu não tinha sequer votado, me convidou para ser a secretária de desenvolvimento social da cidade.

Tive que pensar em uma política que não fosse só uma colcha de retalhos de programas como na ONG, mas que tivesse metas, proposta de cobertura e de integração. Foi marcante. Fiquei cinco anos neste cargo e tinha uma ação muito conjunta com a dona Ruth (Cardoso, então primeira dama). Possivelmente por influência dela, o presidente (Fernando Henrique Cardoso) me convidou para ser ministra de Assistência Social. Na prefeitura me sentia responsável por toda a população de rua. Eu olhava um menino e falava: ah, este é minha responsabilidade. Mas o governo federal me deu a possibilidade de pensar uma política pública nacional. Foi a época em que estava começando a ser implantada a lei orgânica social, um desafio muito maior.

Conjugação dos papéis

Quando veio a ideia de lançar a ONG foi preciso só poder de convencimento. Inicialmente, eu não pagava salário para ninguém. Eu tinha 40 anos e conjugava isso com as aulas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Tudo funcionava lá, muitos alunos eram voluntários. Tudo isso com três filhos pequenos. O menor tinha 10 anos, quando comecei. O mestrado também fiz pouco antes, quando o caçula tinha 7 anos. Então, administrar trabalho, progressão acadêmica e família faz parte.

A mulher, quando chega a um ponto na sua carreira, ela vem com experiência da vida. Muita gente me pergunta, como é que você consegue fazer tudo isso? Eu, de brincadeira, respondo: poder de síntese. São coisas que este perfil multifacetado da mulher te dá. A mulher tem que ser a melhor mãe, melhor mulher, melhor amante, melhor profissional, melhor cidadã, melhor tudo ou pelo menos atuar em todas estas linhas. Isso vai dando uma capacidade de lidar com a complexidade, de tentar equacionar, de chegar ao simples e realizar.

Divulgação
Wanda Engel ao lado de alunos em escola participante de projeto do Instituto Unibanco
Mulheres na educação

Definiu-se a minha carreira como professora quando eu tinha 11 anos. À época a possibilidade de uma família pobre colocar uma filha em uma boa escola se chamava Instituto de Educação, que era um curso de formação de professores que você entrava com essa idade. De lá a maioria ia para ciências humanas porque toda a formação acabava desenvolvendo esta área. Não saíam dali grandes matemáticas, mas grandes humanistas. E assim era em outros Estados também. A minha geração vem dessa formação em que a carreira do Magistério era a mais desejada: ganhava-se bem, você acabava o curso já empregada e era para as melhores, porque para entrar você fazia uma prova que tinha 6 mil candidatos para 90 vagas. Também possibilitava um pouco mais a conjugação de mãe e profissional porque tinha férias duas vezes por ano. Hoje, nas fundações você tem pessoas de outras origens, principalmente entre os mais jovens.

O foco no ensino médio

Antigamente, o trabalho social era na base da filantropia. Até as empresas que trabalhavam não queriam nem divulgar. Depois, na década de 80, a ideia era a do direito civil, social, etc. e da cidadania com direitos e responsabilidades. A evolução disso é a ideia do investimento social como um dos tripés da sustentabilidade. Você tem que produzir porque o País precisa se desenvolver economicamente, esta produção não pode acabar com o meio ambiente para garantir recursos futuros e você tem que pensar nas questões sociais para ter uma sociedade neste futuro. Se não aumentar a coesão social, não tem sociedade para ninguém.

Uma vez decidido investir no social você tem que pensar no investimento com retorno. Não o de curto prazo, de quem forma o profissional para ele trabalhar na empresa, mas a formação para haver sociedade. Para isso, tenho que buscar os pontos mais nevrálgicos, por isso que a gente escolheu o ensino médio . É ali que mora o problema. Este é o ponto básico para inserção das novas gerações e, se não inserirmos, estamos todos ferrados. Depois, a gente escolheu o desafio de conceber algo, experimentar e transferir para o Estado fazer. A gente testa por três anos e diz para o governo: isso funciona. É experimentar algo e passar para quem é o responsável pelo problema, o Estado.

Vida pessoal

Eu perdi um filho, o menor morreu aos 30 anos de um ataque do coração. A mais velha hoje tem 41 anos e a do meio, 40. Ele estaria com 37 anos. Tenho cinco netos. Minha família teve ascensão social devido à educação. Nem meu pai, nem minha mãe estudaram, foram só até a 4ª série, o que era normal na época. Meu pai, como era alemão, fazia assistência técnica para empresas que usavam máquinas importadas e tínhamos um padrão de classe média baixa: a gente morava de aluguel, mas as coisas iam razoavelmente bem. Aí ele teve diabetes e tuberculose e parou de trabalhar. Ficou com pensão de um salário mínimo, para o sustento de uma família de quatro: eu, minha mãe, minha irmã e ele, o que dava em pobreza absoluta.

Minha mãe foi procurar emprego. Devido à escolaridade, foi atendente de escola. Fez supletivo de todos os graus, chegou a terminar o ensino médio e teve uma progressão na vida, foi chefe de serviço. Quando eu e minha irmã nos formamos, a coisa melhorou. Meu marido também era filho de imigrantes libaneses e a gente começou sem nenhuma herança, para não dizer dívidas. Ou seja, minha alavanca de ascensão social foi a educação. Hoje estamos bem. A educação serviu pra mim e eu quero que sirva para um número maior de pessoas.

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