Para você, grafiteiro e tatuador são profissões?

É incrível mas, ainda hoje, há gente que torce o nariz para certas profissões. Grafiteiro é coisa de pichador. Surfista, só pode ser usuário de drogas. Humorista? Vagabundo. Os estigmas dos ofícios muitas vezes resistem ao passar do tempo e à mudança de realidade. E há as profissões que vão surgindo já com novos preconceitos tachados.

Redação iG Educação |

Um dos casos mais interessantes é o do tatuador , que durante muito tempo carregou a fama de criminoso, traficante. Atualmente, há inúmeros estúdios extremamente profissionais que se preocupam inclusive com os problemas que o cliente pode sofrer pela localização de uma tatuagem, por exemplo, nos braços.

Wagner Santaliestra viu pela primeira vez uma tatuagem aos 16 anos ¿ e ficou encantado. Mas teria que se passar mais de uma década até que ele conseguisse realizar o sonho de ser tatuador: no começo, o mercado de tatuagem era muito fechado, era impossível comprar os equipamentos. Então, fui perdendo o interesse.

Mas o tempo passou e... o interesse voltou. Depois de trabalhar um bom tempo como publicitário e ilustrador, Wagner resolveu abrir o próprio estúdio. E enfrentou grande oposição da família: falavam: você é um rapaz jovem, bonito, vai abandonar um emprego bom para fazer coisas de marginal?, conta o tatuador. Hoje, toda a família de Wagner vive da tatuagem.

Sabendo do preconceito contra pessoas tatuadas, Wagner durante muito tempo evitou fazer tatuagens nos braços porque não sabia se teria que voltar a procurar emprego um dia. E até hoje aconselha os mais novos a evitar esse tipo de tatuagem, que pode provocar problemas com profissionais que fazem entrevistas de trabalho, por exemplo.

Outro que vive o preconceito no dia-a-dia é o grafiteiro , muitas vezes confundido com o pichador. De fato, muitos que trabalham profissionalmente com isso começaram fazendo pichações nas ruas.

É o caso de Juneca, que há vinte anos está no ramo. Ele teve o primeiro contato com o grafitti quando foi convidado por um amigo para conhecer o assunto. Depois, resolveu entrar na faculdade de Artes Plásticas para estudar o tema mais de perto. Hoje, com tanto tempo no mercado, Juneca é chamado para vários trabalhos, o que não o deixa a salvo de estigmas. Na verdade, é muito difícil viver disso porque ainda há preconceito, é uma arte marginalizada, confundida com a pichação. O grafite já esteve em todos os museus e ainda não é totalmente reconhecido, relata o grafiteiro.

Quem raramente sofre preconceito, mas parece em ritmo de extinção, é a carpideira , aquela pessoa que é contratada para chorar em velórios. Localizamos uma na Zona Oeste de São Paulo, possivelmente uma das últimas da cidade. Itha Rocha aprendeu o ofício ainda quando era pequena, coisa que passou de geração em geração da família. Mesmo famosa, ela não vive de ser carpideira, ofício que encara mais como algo muito divertido.

Ela conta que hoje, a carpideira não se restringe a chorar. Às vezes, os parentes ficam brigados logo depois de um falecimento e a presença da carpideira serve para selar as pazes. Vou e choro, passo uma palavra de conforto para a família. Itha Rocha já até ficou amiga de alguns clientes e marcou um cafezinho para reunir todos os parentes.
Ela conta que o choro não deve sair assim, de qualquer maneira, mas deve vir de dentro, do útero. Quando a pessoa chora, mexe com tudo, se sente até mais leve. Fui criada sabendo que o choro da carpideira serve para a transição da alma.

Ela encara o trabalho com extremo bom humor e conta que vai mesmo para animar os parentes: hoje em dia, quem morre está levando vantagem. Missão cumprida. Ainda mais se já tem filho criado. Itha Rocha lembra que alguns parentes preparam o morto como se ele estivesse partindo para uma viagem: colocam joias, dinheiro e celular dentro do caixão ¿ mais uma oportunidade para brincadeiras: opa, se vai levar o telefone, deixa eu colocar meu número aí dentro para ele me ligar, ri a carpideira.

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