Para ser diplomata no País basta ter curso superior

Corpo diplomático reúne profissionais de áreas variadas como direito, engenharia, química, filosofia e biologia

Priscilla Borges, iG Brasília |

Por princípio, o diplomata precisa ter disposição para o diferente. Não só por causa das inúmeras viagens e mudanças de residência que fará ao longo da carreira representando o seu país, mas sim porque terá de atuar nas mais variadas áreas. Nos concursos realizados para o Itamaraty, não há determinação de formação para os candidatos. Qualquer pessoa com diploma de ensino superior pode participar da seleção.

Com isso, o corpo diplomático brasileiro reúne os mais diferentes e impensáveis profissionais, além dos óbvios bacharéis em direito e relações internacionais: engenheiros, físicos, químicos, biólogos, filósofos, designers. Os jornalistas também são numerosos entre os aprovados no concurso para diplomacia.

Na última seleção, 42 aprovados eram do direito, 23 de relações internacionais, 11 jornalistas, sete administradores, seis engenheiros, cinco historiadores, três economistas, dois psicólogos, dois filósofos, dois sociólogos, dois da área de letras, um analista de sistemas, um designer, um físico, e um formado em zootecnia. A diversidade de profissionais é valorizada pelo Itamaraty.

Todos os futuros diplomatas passam por um curso de formação de dois anos no Instituto Rio Branco (IRBr), órgão do Ministério das Relações Exteriores. “O papel do Instituto Rio Branco é fazer com que candidatos vindos de áreas diferentes passem a pensar como diplomatas e a entender que passam a fazer parte de uma instituição, de uma corporação, com seus valores e regras”, explica o secretário Márcio Rebouças, do IRBr.

Quando concluem o curso, os diplomatas iniciam as atividades profissionais nos departamentos do Itamaraty. “O Itamaraty é um microcosmo no qual todos os talentos são apreciados. O profissional que opta pela diplomacia não deixa necessariamente de trabalhar na área de formação inicial. Trata-se de uma escolha pessoal”, afirma Rebouças.

Em algum momento da vida profissional, no entanto, eles terão de lidar com temas diferentes de suas áreas. “O Itamaraty é o responsável por gerenciar as relações internacionais do Brasil nas mais diversas áreas”, destaca o secretário. Ele lembra que o diplomata negocia desde ações para promoção da cultura brasileira até um tratado internacional, passando pela assistência consular aos brasileiros que residem no exterior.

Curiosidade e vontade de aprender

As pessoas que largaram carreiras distintas da diplomacia para tentar ingressar no Itamaraty têm algo em comum: são curiosas, ecléticas e gostam de desafios. Por isso, não se arrependem de, em muitos casos, terem trocado emprego fixo e estável para estudar e encarar um dos concursos mais difíceis do País.

Quem se aventura a entrar na disputa pelas vagas oferecidas anualmente pelo Instituto Rio Branco precisa passar por uma maratona de avaliações. A seleção é dividida em quatro fases. Na primeira, os candidatos fazem uma prova objetiva que cobra conhecimentos de português; história do Brasil; história mundial; geografia; política internacional; inglês; noções de economia, direito e direito internacional público.

A segunda fase constitui-se de uma única prova de português. Na próxima etapa, o candidato tem de demonstrar conhecimentos mais aprofundados de história do Brasil, geografia, política internacional, inglês, economia e direito. Por fim, são aplicadas provas de espanhol e francês. Com tantos conhecimentos diferentes exigidos em uma mesma seleção, quem é aberto a novas ideias e gosta de estudar sai em vantagem.

Da universidade para o cerimonial

Marcos Brandão/OBrittoNews
Alexandre Gonçalves teve dificuldade em aprender o português
Alexandre Gonçalves, 31 anos, largou o emprego como professor na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, para tentar uma vaga no Itamaraty. Nascido em Santa Rita do Passa Quatro, no estado de Mato Grosso do Sul, ele chegou aos EUA com nove anos. Os pais foram tentar a vida longe do Brasil. Quando estava prestes a terminar o ensino médio, a família de Alexandre decidiu voltar. Ele ficou.

Com 16 anos à época, Alexandre logo conseguiu emprego e uma bolsa de estudos na Universidade de Columbia. Tinha de escolher entre um curso de engenharia ou de artes. Optou por engenharia química. As boas notas lhe renderam convites para continuar os estudos e dar aulas. Alexandre concluiu o mestrado e o doutorado na área na mesma instituição.

A possibilidade de construir carreira como professor o fez parar para refletir. E desistir. Alexandre achou que era hora de voltar ao Brasil. A família quase enlouqueceu. Não compreendiam como alguém poderia ter coragem de jogar tudo para o alto e recomeçar. “A diplomacia é interessante por causa da possibilidade de mudanças não só geográficas. E o vínculo com o Brasil é sempre muito forte”, analisa.

A maior dificuldade de Alexandre foi estudar português. Longe do País muito tempo, sofreu para perder o sotaque estrangeiro e escreve bem na língua materna. Em um ano e meio de estudos, a aprovação no Itamaraty chegou. Agora, feliz e realizado, Alexandre atua no cerimonial. Para ele, quem passa no concurso é capaz de aprender qualquer coisa. Por isso, a formação inicial não faz diferença.

Dividido entre a física e a política

ARQUIVO PESSOAL
Leonardo Loureiro é físico, mas resolveu ser diplomata por gostar de política
Leonardo Loureiro Araujo, 36 anos, tinha fascinação pela ciência desde pequeno. Ao mesmo tempo, se inquieta para compreender melhor os assuntos sobre relações internacionais e políticos do País e do mundo. Eram curiosidades permanentes, que tinham lugar privilegiado entre seus interesses, junto com a física e a matemática.

O interesse pelas exatas o levou a escolher o curso de física no vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde se formou. Os bons professores do ensino médio que admirava o incentivaram a estudar a área também. Logo, ele se envolveu com carreira acadêmica e a pesquisa. Fez mestrado, doutorado e começou a dar aulas na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Apesar do enorme gosto por ensinar física, o interesse de Leonardo pela política o levou a pensar em outra profissão: a diplomacia. A vontade se transformou em sonho. Dois anos antes de entrar no Itamaraty, Leonardo adoeceu gravemente. Precisou ficar “de molho” um ano para se tratar. No ano seguinte, tomou coragem, largou tudo em Salvador e se mudou para Brasília a fim de se preparar para o concurso.

Ele garante que não deixa de ler muito sobre física e matemática. “Gosto muito da maneira pela qual o raciocínio nelas é construído”, afirma. Mas ele não se arrepende. Feliz com a nova carreira, hoje ele atua na área de cooperação jurídica internacional. “É algo fascinante para mim. Tomei uma decisão bastante ponderada antes de me comprometer com a carreira”, diz.

Para ele, a variedade de formação dos profissionais só contribui para a carreira. “A diversidade é uma das riquezas do Ministério das Relações Exteriores. Cada diplomata de formação ‘inusitada’ traz para o Itamaraty a possibilidade de um novo olhar”, sentencia.

Curiosidade acima de tudo

Marcos Brandão/OBrittoNews
Bruno d´Abreu faz estágio em uma divisão que lida com tecnologia e informação
Bruno d’Abreu, 31, se formou em desenho industrial pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2002. Quando ainda estava no ensino médio, ele pensava em se tornar um diplomata. Mas não apostou suas fichas na profissão porque considerava a seleção extremamente difícil. “Achava impossível conseguir. Como sempre amei desenho e tecnologia, optei pelo curso de desenho industrial”, conta.

“É muito difícil limitar nosso interesse em uma só área. Acho que a diplomacia traduz isso bem e oferece uma gama rica de áreas para explorarmos”, opina. Bruno trabalhou quase dez anos em veículos de comunicação, como diagramador. Por duas vezes, chegou a pedir demissão e viajar pelo mundo para aprender novas coisas, estudar e trabalhar. Estava sempre atrás de algo novo.

Foi quando decidiu largar o emprego e estudar para o concurso do Rio Branco. Preparou-se longe de Brasília, no Rio de Janeiro, durante um ano. Em 2009, foi aprovado. “Tomei a decisão certa, não tenho dúvidas. Há uma riqueza muito grande de assuntos no Itamaraty. Vou ter de circular pelo mundo e em diferentes assuntos”, ressalta. Para ele, os diplomatas têm um perfil curioso.

“Preparação é tão intensa para entrarmos na carreira que somos capazes de nos preparar para trabalhar com qualquer coisa”, brinca. Hoje, Bruno . “Tenho a impressão de que, para a diplomacia, curiosidade e paixão contam mais”, diz.

Saiba mais sobre a carreira do diplomata

- As provas de seleção para o Instituto Rio Branco são realizadas sempre no primeiro semestre de cada ano. São oferecidas, em geral, 100 vagas. Às vezes, um pouquinho mais. A seleção deste ano já começou e está na terceira fase.

- Se você pensa em entrar na disputa por uma das vagas oferecidas no Itamaraty tem de saber que a concorrência será grande. Em 2008, 75 candidatos disputaram cada vaga. Em 2009, a demanda foi de 87 por vaga. Este ano, ficou em 82.

- Quando é aprovado no Rio Branco, durante os dois anos de estudo, o diplomata já recebe salário. A remuneração inicial do Itamaraty é de R$ 12.413 e o cargo é terceiro secretário. O salário mais alto, do ministro de 1ª classe (embaixador), é de R$ 18.478.

- Ao concluir a formação inicial, os diplomatas iniciam as atividades profissionais nas diferentes áreas do ministério. Há muitas possibilidades: administrativas, políticas, jurídicas. Há grupos temáticos, como a cooperação com a África, a Ásia, a América Latina. A escolha pelas áreas é feitas de acordo com a classificação do aluno no concurso, que pode ser melhorada ao longo da formação no Rio Branco.

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