Para ex-alunos, escola pública preservou-se até no que não devia

Pessoas que estudaram nos anos 70, 80 e 90 encontraram antiga escola em condições melhores do que esperavam, mas faltou inovação

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo |

O convite do iG a ex-alunos do colégio estadual Ministro Costa Manso, em São Paulo, foi aceito com muita curiosidade. A proposta era que três gerações diferentes, de formados nos anos 1970, 1980 e 1990, fossem a salas de aula, bibliotecas, quadras, diretoria, pátio e o que mais a instituição tivesse para mostrar e respondessem o que mudou desde a época em que estavam lá.

Os depoimentos ajudam a ilustrar a trajetória do ensino público nas últimas décadas. A conclusão é de que a situação não é nem tão boa como gostariam, nem tão ruim quanto esperavam. “Recomendo a experiência”, comentou o engenheiro Carlos Raul Andrade Caldas, que frequentou as salas de aula da instituição entre 1966 e 1972.

Também fizeram o passeio a empresária Rossana Scuderi, de 44 anos, e o jornalista esportivo Everaldo Marques, de 32. Uma das mudanças percebe-se pelo tempo que os dois últimos frequentaram a instituição. Ela entrou em 1985 e saiu em 1987. Ele foi de 1994 a 1996. A divisão entre primário, ginásio e colegial, que começou no fim dos anos 70, fragmentou também a vida escolar que passou a ser em duas ou três instituições diferentes.

Fundada em 1957 e localizada no já promissor bairro paulistano Itaim Bibi, a Costa Manso foi uma das que se encarregou da última etapa, que era a mais nobre: até os anos 1980, só 14% das pessoas tinham acesso ao atual ensino médio .

Veja mais imagens do antes e depois da escola Costa Manso

Da falta à sobra de vaga

Os três convidados tiveram de disputar uma vaga na escola em sua época de estudante. Para Carlos, esta é a lembrança mais remota da instituição. “Não fui admitido de primeira e voltava todo dia com minha mãe para ver se a lista de espera andou”, conta. Rossana foi bem na prova e passou direto. A família dela tinha tradição ali, como comprovou ao encontrar a tia em uma das fotos mais antigas, da turma de 1962.

Já nos tempos de Everaldo, o critério de seleção havia mudado para ordem de chegada. O jornalista pegou fila para estudar. “Lembro de passar a noite acampado em frente ao portão com um amigo e as famílias”, conta. Ainda assim, ele ficou surpreso ao saber que atualmente a maior parte dos alunos não mora no bairro. Segundo ele, já havia uma migração da elite para a escola particular, mas a Costa Manso ainda atendia a vizinhança: ele próprio morava no final da mesma rua, onde o pai era zelador.

A atual diretora, Oneida Toniol Fioriti, que assumiu em 2004, conta que hoje as famílias do bairro matriculam os filhos em escolas particulares e as turmas são todas formadas por pessoas de outras regiões da cidade. “Tenho muitos alunos de Parelheiros (extremo sul da cidade), por exemplo.”

Estrutura física

A mudança no perfil dos estudantes foi a mais marcante para Rossana. Embora tenha encontrado quase tudo igual como havia deixado – móveis de madeira maciça, a parede de troféus esportivos, o pátio, a mesma disposição das estantes na biblioteca e até as pinturas de parede feita por alunos e professores durante os anos 1970 e restauradas recentemente – ela achou a “paisagem” diferente. “Vejo uma mudança brutal no público, são outros alunos e outra escola.”

“Vejo uma mudança brutal no público, são outros alunos e outra escola".”

Para Carlos, desde a década de 70 a estrutura física teve modificações um pouco maiores. As carteiras embutidas foram substituídas e os uniformes completos abolidos. No entanto, o que mais lhe chamou atenção foram as grades. Barras de ferro cercam a escola e são usadas também do lado de dentro para separar alas e reforçar a porta da sala de audiovisual. “Já tinha visto a fachada e me intimidado, mas entendi. Agora, dentro da escola é difícil de aceitar.”

O mais jovem do grupo também notou diferenças. A sala em que estudou no primeiro ano se tornou ambiente de formação de professores. “A lousa ficava aqui”, disse, apontando para os armários que agora estão lotados de material didático. Também gostou de saber que a quadra, que era esquecida em dias de chuva, agora é coberta.

Ensino

Nos dias de visita, estavam espalhados em uma sala exemplares de livros para os professores elegerem os que vão usar em 2012. As obras serão enviadas de graça pelo governo federal a todos os estudantes, o que foi uma novidade para os três. “A gente comprava tudo”, lembrou Rossana, enquanto Carlos notava que alguns deles eram de inglês e outros de espanhol. “No meu tempo a escola ensinava inglês e francês”, contou, lembrando que aprendeu o suficiente para se fazer entender 20 anos depois, quando conheceu a França. Já Rossana e Everaldo só tinham inglês.

O jornalista também ficou impressionado com o interesse de um grupo de alunos que produz uma revista interna e aproveitou sua presença na escola para entrevistá-lo, assim como com relatos da diretora de que eles estão acostumados a ouvir palestras e fazer cursos externos de idioma bancados por uma parceria privada. “Até onde pude perceber, existe uma tentativa de busca da qualidade.”

“Pelo que vi, acho que a educação seria melhor do que a que eu tive".”

 Ao final, os três tiveram a mesma reação. Acenavam a cabeça positivamente, felizes pela conservação, mas sem grande entusiasmo. Concluíram que a escola está bem, mas não o suficiente. Carlos, cuja filha hoje com 29 anos estudou em instituição particular, diz que não a colocaria em uma pública, Rossana, que tem um menino de 4 anos, também não pretende fazê-lo. Os dois reclamam da falta de atualização para as necessidades da vida moderna. “Hoje todo mundo passa o dia no computador, as escolas particulares estão adotando tablets e as crianças não podem mais ficar com giz e lousa, como no meu tempo”, resume o engenheiro.

Everaldo, que ainda não tem filhos, ficou na dúvida. “Pelo que vi, acho que a educação seria melhor do que a que eu tive".

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