Pais prezam mais a segurança do que qualidade em escolas

Pesquisa Ibope Inteligência ouviu quem tem filho em instituições particulares. "Amizades e companhia" também preocupam

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo |

Pais com filhos em instituições particulares se preocupam mais com a segurança dos alunos do que com a qualidade da escola. O dado é de pesquisa do Ibope Inteligência apresentada nesta quinta, dia 7, no em encontro de gestores de estabelecimento de ensino. Livres para apontar as principais preocupações, 87% dos entrevistados disseram segurança e 81% qualidade de ensino.

A pesquisa foi feita com 104 pais de instituições particulares de São Paulo, Distrito Federal, Aracajú, Salvador, Curitiba e Porto Alegre, por encomenda do grupo de alimentação GRSA. Foram escolhidas apenas unidades que terceirizassem serviços.

Em terceiro lugar, entre as preocupações dos pais, aparece disciplina, citada por 74% dos responsáveis pelas crianças e adolescentes e, em seguida, “amizades e companhias”, com 56%. O foco da pesquisa, alimentação , vem em seguida com 50% e ainda antes das atividades extra-curriculares, que são importantes para 42% desses pais.

Preocupações dos pais

Itens relevantes na escola dos filhos, na visão dos responsáveis por crianças matriculadas em instituições particulares

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Ibope Inteligência


Entre os 100 gestores ouvidos nas mesmas instituições, o resultado foi parecido. O ensino vem em primeiro lugar, com 96% preocupados com a manutenção do projeto pedagógico e 94% com a formação ampla dos alunos, mas logo depois, segurança é citada por 92% dos diretores, acima inclusive da capacitação e especialização do corpo docente (87%) e da gestão e sustentabilidade do negócio (85%).

“Qualidade é uma vaga ideia”
O especialista na relação entre saber e sociedade, Bernard Charlot, professor emérito da Universidade Paris 8 e visitante da Universidade Federal de Sergipe, ao analisar o resultado da pesquisa, chama a atenção para como o aprendizado e os princípios não aparecem entre as principais preocupações. “Os pais não falam de aprender coisas, entender a vida, os outros e a si mesmo, construir princípios e referências, ou seja, não falam do que é a função central da escola. Talvez isso seja incluído na ideia vaga de qualidade, mas suspeito que pensam mais no vestibular”, afirmou.

Para ele, a importância dada à disciplina remete a uma concepção conservadora da educação. “Eles poderiam ter citado autonomia, controle de si ou formas democráticas de disciplina”, observa.
O pesquisador, no entanto, admite que devido à desigualdade social brasileira, crianças de classe média podem correr riscos em escolas públicas muito populares. “Os pais sabem disso, por isso a sua insistência sobre o tema da segurança. Mas, também, eles querem que seus filhos sejam educacos num ambiente classe média, como evidenciam os pocentuais que citaram disciplina, amizades e atividades extra-curriculares como importantes", conclui.

Sociedade do medo
A coordenadora do Laboratório de Estudos da Família do Instituto de Psicologia Social da Universidade de São Paulo, Belinda Mandelbaum, analisa esse resultado como desvirtuamento da função de cada setor da sociedade por conta do medo presente em todos os locais. “A gente vive em uma sociedade baseada no medo, o reflexo disso é essa preocupação se tornar principal, mesmo onde deveria ser secundária, como a escola”, diz.

Para ela, o aparecimento da item “amizades e companhias” escancara uma tentativa de setores da sociedade de se isolar das classes sociais baixas que são vistas como ameaça constante. “Preocupados, os pais fecham seus filhos, que não podem sair na rua, não tem sociabilidade. Cada vez mais se encontra mecanismos para isso, o que não é bom para a sociedade, não é bom para a formação da criança e para as famílias.”

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