Os números da violência nas escolas

Sandro Caramaschi, especialista em relacionamento humano do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), fez uma pesquisa com os professores de educação física.

Isis Nóbile Diniz |

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Queria entender porque sempre eles selecionam os melhores alunos que, por sua vez, devem escolher os colegas para fazer parte do time, diz. Como consequência, deixam os colegas que jogam pior para serem elegidos por último.

Não ser escolhido, ou ficar para o final, é uma sensação esmagadora para a criança. Óbvia e evidente, afirma. A criança desanima com relação ao esporte e abaixa sua sua auto-estima . Então, por que os professores ainda agem assim? Como eles gostam de esporte desde pequenos, eram bons jogadores. Nunca passaram pela experiência de sobrar no final, diz. Uma simples maneira de resolver esse problema seria por meio de um sorteio.

Apesar de prejudicar o aluno e o objetivo do professor, esse problema relatado é apenas um detalhe dentro do universo escolar. Todos os dias, alunos, professores e funcionários das escolas sofrem algum tipo de violência. De acordo com o relatório global feito pela Plan, uma organização não-governamental, a cada dia, aproximadamente, um milhão de crianças passam por violência nas escolas em todo o mundo.

Do outro lado da sala, segundo uma pesquisa realizada pela Fundação SM e pela Organização dos Estados Ibero-americanos, 83% dos professores, de 19 Estados brasileiros, gostariam que fossem tomadas medidas rígidas em relação ao comportamento de alunos . Como, por exemplo, a expulsão da escola.

A situação é delicada. Dados do Sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo (Udemo) mostram que a violência está crescendo. Um dos índices que mais aumentaram foram de depredação e desacato aos professores, respectivamente 63% e 78%. Em seguida, as brigas entre alunos em 45%. Do total, um quarto das escolas sofrem com ameaça de morte aos professores, funcionários ou alunos.

Para realizar a pesquisa, a Udemo enviou um questionário para 5300 escolas estaduais de São Paulo. Apenas 683 responderam. Ela foi comparada com o último questionário de 2003. Quanto mais a sociedade se torna violenta, mas atinge a escola, afirma Luiz Gonzaga de Oliveira Pinto, presidente da Udemo. Os colégios refletiram a violência da cidade e do bairro onde estão inseridos.

Segundo Caren Ruotti, socióloga do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) e uma das autoras do livro Violência na Escola - Um guia para pais e professores, afirma que a violência é diferente em cada escola. Poder ser tráfico de drogas, furto, roubo ou problemas no bairro que interferem no funcionamento da escola.

Mas esses problemas não se restringem às públicas. As escolas de periferia possuem um estigma de serem violentas. Acontece que as escolas particulares evitam expor a violência, diz Caren. Elas se excluem e impedem que sejam feitas pesquisas sobre o tema. Dessa forma, os estudos acabam se concentrando nos colégios públicos.

Efeitos do bullying

A violência afeta a personalidade, o futuro potencial e a saúde física e mental de uma quantidade alarmante de vítimas. Gera danos irreparáveis para a família, a comunidade e a economia nacional. Para evitar o problema, os países como a Coreia, Noruega, Sri Lanka, Reino Unido e Estados Unidos criaram leis proibindo a prática do bullying escolar ¿ atos de violência intencionais e repetidos contra uma pessoa ou um grupo. Como a forma usada, inconscientemente, pelos professores de educação física.

As vítimas, geralmente, perdem o interesse pela escola. Começam a faltar às aulas para evitar novas agressões. Apresentam cinco vezes mais probabilidade de sofrer de depressão e, nos casos mais graves, estão sob um risco de abuso de drogas e de suicídio. A auto-estima da criança pode ser afetada. Causando uma piora no desempenho escolar e na integração social. Se for contra os professores, prejudica seu trabalho e sua relação com os outros docentes.

A vítima, geralmente, faz parte de uma minoria. São grupos que diferem, como exemplo, por ser magro, baixo ou branco demais, afirma Caramaschi. Em seguida, é comum, para se vingar dos colegas e professores que omitiram ou do próprio agressor, o aluno praticar o bullying. Jovens de países desenvolvidos, como o estudante finlandês que atirou nos colegas, geralmente, eram as vítimas de bullying. Eles possuem a ideia de revidar, alimentando sem parar a violência, diz o estudioso.

Nem sempre a criança, vítima de violência, deve mudar de colégio. O agressor fica com a sensação de impunidade, busca outra vítima, e a escola confortável ignorando o uso da sua autoridade. Além disso, mostra para a sociedade que a vítima sempre deve fugir, conta o pesquisador. O ideal seria os pais, do agressor e agredido, e a escola procurar uma solução. Em casos mais graves, como de tráfico de drogas e ameaças de morte, deve-se entrar em contato com a polícia.

Uma dica para todos os casos seria os discentes e docentes aplicarem um princípio pessoal. Não faça para o outro o que não gostaria que fizessem com você, conta Caramaschi. Talvez, essa seja a única forma, subjetiva, de estabelecer o que é desejável ou não, conta. Principalmente, agora com o surgimento do cyber bullying - a agressão via internet.

Como solucionar o problema

Uma das dificuldades é que os registros sobre a violência e os tipos praticados são interruptos no tempo, diz Caren. Apesar de ser notável a existência da violência dentro da escola, aumentando a cada ano, as pesquisas são parciais. Não existe um estudo feito pelos órgãos públicos abrangendo todas as escolas brasileiras ¿ inclusive as particulares. Os dados, em sua maioria, são obtidos por instituições não-governamentais.

Junto a essa desorganização, a sociedade enfrenta problemas que, antigamente, eram das famílias. Reflexo das consequências da ditadura. Os pais nem sempre colocam limites. Eles não querem ser autoritários, mas acabam empurrando para a escola a função de educar, conta Caramaschi. As escolas, por sua vez, devolvem a responsabilidade para os pais. A expulsão de alunos foi, praticamente, extinta .

Uma reforma de um ano e meio, patrocinada pelo Grupo ABC, de agências de publicidade, na Escola Estadual Dr. Francisco Brasiliense Fusco, no Campo Limpo (em São Paulo), foi suficiente para diminuir a violência no colégio. A perspectiva de melhoria na estrutura física, na condição de trabalho dos professores e no ensino dos alunos, praticamente, erradicou a depredação ao patrimônio público . Incentivou todos que frequentam o colégio.

Muitas vezes, a solução para diminuir a violência seria a escola atuar unida. Os professores e a direção precisam ouvir as queixas dos alunos e as próprias. Para, assim, tentar solucioná-las. Um projeto começa com o diagnóstico do problema, mas é preciso que haja liderança para ter continuidade, afirma Oliveira Pinto. Deve-se acreditar no trabalho, na escola, no professor e que a própria educação pode mudar o cotidiano, finaliza.

A violência era corriqueira na escola

Hoje, com 26 anos, *Patrícia se lembra de dois fatos que aconteceram durante sua adolescência. Ambos se passaram no colégio público, localizado em um bairro de classe média da cidade de São Paulo. A escola era procurada pelos pais por ser considerada um dos melhores colégios públicos da região, diz a jovem. Mas, dentro da escola, a história era diferente.

Durante a aula de inglês, a professora parou enquanto explicava como eram os Estados Unidos. Composta por 75% de alunos afrodescendentes, observou a classe . Em seguida, disse para Patrícia, que possui a pele clara: Uma pessoa como você, jamais poderia colocar os pés nos Estados Unidos. Eles são muito preconceituosos, você é muito morena para entrar lá. Eles não olhariam na sua cara. Nesse momento, sem saber o que dizer, Patrícia se calou.

Senti vergonha e raiva, ao mesmo tempo, conta. Patrícia olhou para o resto da classe, todos ficaram quietos e abaixaram a cabeça. Eu queria dizer alguma coisa, me defender. Mas, ao ver a reação tímida dos alunos, fiquei quieta, afirma a estudante. Segundo Patrícia, desde que se matriculou na escola, um ano antes, essa professora a perseguia. Só que eu não imaginava o quanto ela era racista, diz.

No mesmo colégio, um outro dia, Patrícia foi para a sala de aula após o intervalo. Fazia alguns dias que ouvia por volta de 15 alunos, meninos, afirmando que uma colega precisava de um corretivo. Ninguém imaginou que eles realmente fariam algo sério, conta Patrícia. Quando todos voltaram para a sala de aula, os meninos foram para o pátio. Cercaram uma colega de Patrícia, prenderam ela no centro e passaram a mão na menina.

Ela era uma garota bonita que chamava muita atenção, afirma Patrícia. Segundo a estudante, a colega conversava normalmente com os outros alunos, era extrovertida e alegre. Pelo que me lembre, nada justificaria essa atitude, conta a estudante. Os alunos infratores não foram expulsos da escola. Nós, colegas, ao ver o que aconteceu não sabíamos como reagir, diz.

*O nome Patrícia foi utilizado para preservar a identidade da entrevistada

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