¿O treinador queria me cobrar 8 mil dólares pelo semestre¿

Profissional de marketing relembra perrengues em universidade nos EUA. Recebeu bolsa, mas acabou envolvido até em investigação

Tatiana Klix, iG São Paulo |

Após ter sido dispensado do time de juniores da Portuguesa por não ter um empresário, o profissional de marketing Guilherme Cozza, então com 19 anos, havia desistido de seguir carreira profissional no futebol. Enquanto se dedicava ao curso de Esporte na Universidade de São Paulo (USP), jogar bola havia se transformado apenas em uma forma de diversão até que, sem que houvesse procurado, apareceu um empresário que voltou a relacionar a atividade à sua vida séria. Mas, dessa vez, a ideia era usar a prática em favor da educação.

Há 11 anos, um brasileiro que morava nos Estados Unidos fez uma proposta a Guilherme que pareceu irrecusável: jogar em uma universidade norte-americana em troca de uma bolsa de estudos integral. A passagem e a moradia no campus da faculdade estavam incluídas no pacote. Com o apoio da mãe, Guilherme se preparou para a viagem, intensificou o estudo de inglês (língua a que não havia se dedicado antes porque sempre deu prioridade aos treinamentos) e embarcou com outros três atletas e a promessa de estudar por quatro anos em Jacksonville , no estado da Flórida. Entretanto, antes mesmo do começo das aulas, na chegada aos EUA, enfrentou o primeiro perrengue de uma série que viria a vivenciar antes de voltar ao Brasil pouco menos de um ano depois.

O empresário que convidou Guilherme para a experiência tinha contato com o treinador da universidade na Flórida, um croata que não falava português. Guilherme também não falava inglês. Apesar de ter conseguido passar no Toefl, teste de proficiência na língua exigido para ingressar na faculdade, não conseguia conversar. Foi esse treinador que levou o grupo de quatro jovens jogadores brasileiros para a primeira parte do programa – um mês em Chicago para trabalhar em academias de futebol. O que não estava combinado era que eles ficariam em um motel de beira de estrada com a lençol sujo.

“Não queria passar por isso. Eu estava bem na USP, na minha casa, não queria ficar num lugar sujo”, conta Guilherme.

Divulgação
Guilherme jogou pela universidade de Jacksonville, na Flórida, mas enfrentou problema com treinador
Para exigir uma acomodação melhor, Guilherme enfrentou um primeiro embate com o treinador e o empresário responsáveis por sua viagem. Outros vieram depois. Teve que apelar para a mãe, que entrou na briga por telefone e ouviu ofensas e críticas à educação que dera ao filho: “ele é muito mal acostumado e não sabe nada do mundo”, dizia o homem do outro lado da linha. A tensão voltou a se repetir um mês depois, quando deveria começar o ano escolar em Jacksonville. O empresário havia brigado com o treinador e queria enviá-lo para outra instituição em Atlanta. Guilherme mais uma vez teve que bater pé e dizer “não”. Esse não era o combinado.

Apesar de tentativas do empresário de compensar a mudança com presentes e dinheiro, todas recusadas por Guilherme – ele chegou a levar os meninos para uma loja de artigos esportivos e disse que poderiam comprar o que quisessem – ou das intensas discussões entre os dois, o atleta conseguiu começar as atividades na universidade na Flórida, onde antes do fim do semestre começaria a terceira e última confusão na qual se viu envolvido, dessa vez com participação de outras autoridades da universidade e da polícia.

O treinador croata recebeu punição por ter em seu time estudantes europeus que já haviam sido jogadores profissionais, o que não é permitido nos EUA, e os colegas brasileiros que viajaram com Guilherme foram expulsos da universidade por terem apresentado certificado do Toefl falso. Três meses depois de estarem nos Estados Unidos, eles ainda falavam e compreendiam muito pouco o inglês.

“Depois de toda a confusão, houve uma investigação policial na qual eu tive que depor, e o técnico me procurou e disse que eu não estava mais no time. Pior, queria me cobrar US$ 8 mil pelo semestre de estudo”.

A essa altura, o inglês de Guilherme já era bom, mas ele teve vontade de usar a força física para manifestar sua fúria. “Eu disse que não ia pagar, quase bati nele”, relembra. Para resolver o problema, foi até o presidente da faculdade contar a sua versão dos fatos, mesmo com a mãe insistindo para ele voltar ao Brasil e acabar com a agonia.

“Ela dizia que pagava, mas que eu deveria voltar. Foi o que fiz, mas sem pagar nada. O diretor da universidade entendeu a situação, pediu desculpas pelos problemas e ofereceu além da bolsa uma ajuda de custo para compra de material escolar por quatro anos, mesmo que eu não jogasse mais pelo time da universidade”, relembra.

Não havia mais clima para Guilherme permanecer em Jacksonville, e a viagem terminou com a visita da mãe e a irmã e um roteiro turístico pelos Estados Unidos. Da experiência, trouxe o inglês fluente e o início da maturidade. No retorno ao Brasil, contra a vontade da mãe, decidiu mudar de curso pela terceira vez e estudar marketing. Como o futebol não o abandona, Guilherme, agora com 30 anos, só joga por brincadeira, mas leva muito a sério o trabalho numa empresa de marketing esportivo que colhe os louros do bom momento para a área no Brasil, às vésperas da Copa do Mundo e da Olimpíada.

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