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O quebra-cabeças de Charles Darwin

Saiba como o naturalista realizou a grande descoberta na ciência mundial. E o que é a teoria da evolução por seleção natural. http://educacao.ig.com.br/noticia/2009/05/21/o+brasil+que+darwin+encontrou+6233933.html target=_topO Brasil que Darwin encontrou

Isis Nóbile Diniz |

Darwin

Trata-se, sem dúvida, da principal obra de minha vida, escreveu o próprio Charles Robert Darwin sobre seu livro A Origem das Espécies. A primeira pequena edição, de 1.250 exemplares, foi vendida no dia do lançamento e, logo depois dela, uma segunda edição, com 3 mil exemplares. Até o presente (1876), 16 mil exemplares foram vendidos na Inglaterra. Considerando quão árduo é o livro, trata-se de um número impressionante, completou.

Em sua autobiografia, publicada no Brasil com o nome Darwin: Autobiografia 1809-1882 pela Editora Contraponto, o próprio naturalista afirma que na escola era considerado um menino abaixo do padrão médio intelectual. Certa vez, seu pai Robert o repreendeu por apenas dar importância à caça ¿ esporte preferido praticado durante sua mocidade ¿ e aos cachorros.

Aos 67 anos de idade, Darwin reconheceu em si mesmo uma característica que julgou fundamental para criar a maior obra da sua vida. Ele observava e dava importância ao que os outros não viam. Atualmente, os pesquisadores concordam. Graças ao fato de dar relevância aos dados que pareciam querer ser descobertos, o naturalista britânico conseguiu revolucionar a ciência.

Entenda a teoria

O nome completo do seu mais famoso livro é Sobre a origem das espécies através da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida. De maneira simplificada, a teoria descrita por Darwin em quase 500 páginas explica porque os seres vivos mudam ao longo do tempo. Essa foi a grande descoberta.

Se originando de um ancestral em comum, os seres vivos apresentam pequenas variações. A seleção natural favorece aqueles que possuem diferenças que se desempenham melhor. Como, por exemplo, mais facilidade na obtenção de alimentos.

Darwin já sabia que, em uma dada geração, existem mais seres vivos do que os recursos disponíveis permitem, explica o biólogo e doutorando de microbiologia no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), Atila Iamarino. Na competição pelos recursos limitados, algumas variações mais vantajosas são passadas adiante e perpetuadas pela reprodução, finaliza.

De acordo com estudiosos, A Origem das Espécies é tão importante quanto Galileu Galilei afirmar que é a Terra que gira em torno do Sol. Em novembro de 1859, o lançamento do livro causou um frisson. E Darwin sabia que isso iria acontecer. Basta perceber como, ainda hoje, muitas pessoas acreditam que Deus criou cada ser vivo. O que é o chamado criacionismo.

Imprevisto e surpresa

Um ano antes de publicar a tão aclamada obra, Darwin recebeu o texto Sobre a tendência das variedades a se afastarem indefinidamente do tipo original escrito pelo naturalista Alfred Russell Wallace. Esse ensaio continha exatamente a mesma teoria que o meu, escreveu Darwin na sua autobiografia.

Quando o naturalista recebeu o resumo de dez páginas escrito pela Wallace, percebeu todo o processo de evolução por meio da seleção natural no qual ele estava trabalhando por quase 30 anos, afirma a professora titular em Evolução da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de São José do Rio Preto, Cláudia Carareto. Em seguida, juntos os pesquisadores publicaram um pequeno artigo sobre a teoria. Mas que obteve pouca repercussão.

Assim, Darwin teve certeza do que já sabia. Ao publicar uma nova ideia revolucionária, deve-se explicar com minúcia cada detalhe. Durante esses 30 anos, ele coletou provas. Mas, depois do artigo em conjunto, correu para publicar por inteira sua gigante teoria. Wallace, por sua vez, deixou a atividade científica, explica Cláudia.

Como descobriu o enigma

Viagem pelo Hemisfério Sul?
A viagem do HMS Beagle foi, sem dúvida, o acontecimento mais importante da minha vida e determinou toda a minha carreira, disse Darwin. O professor titular da Faculdade de Educação da USP, Nélio Bizzo, acredita que a viagem foi fundamental para o naturalista ter escrito o livro.

Imagine um jovem que morava no interior da Inglaterra, em um ambiente restrito. De repente, conhece o carnaval da Bahia, os índios a bordo do navio que iria deixar na sua natal Terra do Fogo, entre outros. Foi um choque cultural, conta Bizzo. Ele não encontrou apenas elementos de geologia, botânica, zoologia, humanidades... Fez de tudo para aproveitar ao máximo viagem.

Maria Isabel Landim, professora do Museu de Zoologia da USP, acredita que mesmo se fosse um cientista recluso em seu gabinete, Darwin elaboraria a tão aclamada obra. A viagem foi importante porque o colocou diante de fortes evidências de que as espécies não eram fixas e ele soube valorizar isso, diz.

Porém boa parte das evidências que ele encontrou e corroboraram com a teoria apareceram por meio de pesquisas pelas quais ele não estava envolvido diretamente, explica Maria Isabel. Segundo a pesquisadora, Darwin se correspondia com zoólogos e botânicos do mundo inteiro. Ele enviava questionários com perguntas para pesquisadores, recebia informações de naturalistas e realizou cruzamento entre plantas e animais.

Parada nas Ilhas Galápagos?
Sou muito crítico das chamadas abordagens 'galapagocêntricas', conta Bizzo. Não consta nenhuma carta de Darwin escrita no arquipélago, diz. Além disso, o naturalista teria recebido informações erradas sobre a proveniência dos animais. Na época, falava-se que tartarugas e iguanas foram levadas para as ilhas junto com cabras e porcos. Darwin teria se interessado por mais elementos da fauna e da flora se soubesse que as ilhas estavam menos alteradas do que se pensava.

Galápagos têm uma razão histórica para esse mito, explica Maria Isabel. Darwin tomou nota sobre a fauna e coletou aves nas ilhas, principalmente espécies de sabiás. Reparou que em cada ilha as aves eram parecidas, mas que apresentavam detalhes diferentes de acordo com o lugar. Se os ambientes eram semelhantes, por que existiriam aves distintas em cada ilha? Talvez, estudar isso pode iluminar a questão da origem das espécies, conta a professora.

Além disso, a primeira manifestação explícita sobre essa ideia aparece nos escritos de Darwin meses depois da parada em Galápagos. De qualquer maneira, os dois estudiosos afirmam que o passeio do naturalista pela Cordilheira dos Andes foi marcante. Proporcionou uma experiência ímpar. Ele pesquisou a geologia e faz muitas descobertas inclusive sobre o tempo geológico (formação da Terra), afirma Bizzo.

Correspondências com estudiosos?
Ao voltar de viagem, em 1836, Darwin percebe a série de evidências. Darwin pensava sobre transmutação das espécies. Faz o famoso esquema da árvore genealógica com um ancestral em comum. Já tentando explicar como as diversas formas de vida se diversificaram.

Cerca de dois anos depois, lê o livro Ensaio Sobre a População, do economista britânico Thomas Robert Malthus. Na publicação, Malthus aborda que a população cresce em projeção geométrica, enquanto os meios de subsistência em aritmética. Darwin desenvolve a teoria com a qual trabalha. Em 1842, faz um resumo de 35 páginas sobre a idéia de seleção natural.

Em 1844, Darwin criou um esboço de 230 páginas com discurso argumentativo. Em seguida, foi publicado um livro anônimo sobre a evolução das espécies massacrado pelas críticas. Darwin entregou uma cópia do seu esboço para a esposa Emma e pediu que ela publicasse caso ele morresse, afirma Maria Isabel.

Depois, o naturalista escreve trabalhas sobre geologia, recifes de coral, fertilização de espécies, plantas como trepadeiras e orquídeas, animais domésticos, a expressão da emoção em homens e animais, formas diferentes das flores. Entra em contato com vários pesquisadores. Troca conhecimentos.

A ideia foi se construindo. Ele precisou de todos esses anos pra coletar o maior número possível de fatos da história natural. Ver se sua teoria se encaixava com relação às plantas e aos fósseis, por exemplo. Unificar tudo em um grande corpo teórico. Coletou até possíveis críticas que as pessoas fariam. Não queria que fosse mais uma teoria a cair no ridículo ou no esquecimento, diz Maria Isabel. Ele queria de fato marcar esse momento de mudança da visão de mundo, completa.

Neodarwinismo

Tanto trabalho foi recompensado. Hoje, se comemora os 150 da A Origem das Espécies. Mas, apesar de ter dedicado sua vida para publicar a teoria, ela era incompleta. E Darwin sabia disso. Por exemplo, ele desconhecia o processo que permitia a transmissão da variação ao longo das gerações, conta Cláudia.

Em 1910, aproximadamente, foram descobertos os escritos do botânico Gregor Johann Mendel, contemporâneo de Darwin. Os dois não se conheceram. Cruzando ervilhas, Mendel descobriu a hereditariedade. O que ajudou a entender a transmissão das mudanças das espécies ao longo das gerações.

Mais recentemente, com a descoberta dos genes ¿ ou o famoso DNA -, outro buraco na teoria de Darwin foi preenchido. Por isso, agora os pesquisadores trabalham com o que chamam de neodarwinismo. E assim é a ciência. O quebra-cabeças da vida é, pouco a pouco, completado com a soma de conhecimentos.

 - VEJA O INFOGRÁFICO SOBRE OS 200 ANOS DO NASCIMENTO DE CHARLES DARWIN


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