Coordenador de ensino médio e técnico nas Etecs, Almério de Araújo fala de sucessos e limites do modelo

O aumento da oferta de ensino técnico a estudantes de ensino médio é apontado por especialistas e governo como uma das principais propostas para melhor a educação brasileira . Com uma experiência no assunto que praticamente coincide com a história das renomadas Escolas Técnicas Estaduais (Etecs) de São Paulo, Almério Melquíades de Araújo conhece de perto o sucesso e as dificuldades de ampliar a oferta da integração entre o ensino médio e o profissionalizante.

Atual cooordenador do ensino médio e técnico em SP, Almério está nas Etecs desde 1983
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Atual cooordenador do ensino médio e técnico em SP, Almério está nas Etecs desde 1983
Atual coordenador das duas áreas na autarquia paulista, o Centro Paula Souza, ele começou como professor em 1983, apenas três anos após a criação das primeiras escolas técnicas. Em quase 30 anos, viu expansões derrubarem a qualidade, recuperações e aacredita que hoje a integração precisa “gradativa e planejada”. Apesar de concordar com a importância da infraestrutura e qualidade docente que fazem das Etecs as primeiras colocadas em todos os rankings paulistas, diz que as escolas comuns poderiam oferecer cursos técnicos de qualidade e aponta como principal dificuldade a contratação dos professores.


iG: A integração com ensino técnico é uma solução para o ensino médio?
Almério Melquíades de Araújo: Até certa medida, mas não pode ser uma panacéia, não deve ser para todo mundo. Em outros países, a oferta de vagas para técnico em relação ao médio chega a 30%. Teoricamente, observando só o número de vagas, no Brasil esse dado é de 10% e no Estado de São Paulo, 18%, mas temos muitos adultos fazendo o técnico depois que já saíram do médio. Ele vai para o mercado de trabalho, não consegue se colocar e corre para o técnico. O certo seria ele já ter feito junto.

iG: Quantos fazem o técnico junto com o médio?
Almério: O médio e o técnico ao mesmo tempo cai para 4,3% no País e 5% em São Paulo. O certo era esse último porcentual crescer seis vezes, para 30%. Em São Paulo, por exemplo, temos cerca de 1,2 milhão de alunos no ensino médio na faixa etária correta, então precisaríamos de umas 350 mil vagas para técnico concomitante.

iG: Qual a capacidade do Centro Paula Souza?
Almério: Oferecemos 65 mil vagas por semestre (130 mil por ano). Tem que considerar que o aluno poderia fazer o técnico nos dois últimos anos do médio, ou seja, em uma conta arredondada teríamos que dobrar as vagas totais ou, para ser mais realista, quadruplicar as atuais 25 mil vagas oferecidas durante o dia porque os cursos noturnos já usam toda a capacidade física das nossas escolas.

iG: O secretário Estadual de Educação de São Paulo, Herman Voorwald, disse que a principal proposta para melhorar o ensino médio em São Paulo é oferecer opção de técnico de quatro anos aos interessados. As Etecs podem oferecer isso?
Almério: Não precisa ser obrigatoriamente de 4 anos, muitos dos nossos alunos fazem em 3 anos, só que tem 8 aulas por dia. Em relação ao plano, uma coisa é dizer que vai começar este processo, outra é atender todo mundo. Além disso eles não contam apenas com as Etecs, mas também com outras parcerias com governo federal, por exemplo.

Teríamos que dobrar as vagas totais ou, para ser mais realista, quadruplicar as atuais 25 mil vagas oferecidas durante o dia"

iG: Qual seria a possibilidade de criar as vagas em parceria com as Etecs?
Almério:
Pela experiência que temos com nossos alunos do ensino médio, não é todo mundo que quer fazer um técnico, só 30% ou 40% mesmo. Então, é aquela conta que fizemos antes, teríamos de criar 100 mil vagas. A maioria quer cursar o noturno, como as Etecs estão lotadas à noite, sobra utilizar a ociosidade das escolas estaduais comuns, que é muito alta: deve ter hoje 40 mil salas ociosas durante algum período do dia. O problema é que não posso mexer na estrutura da escola para criar laboratórios, salas, etc., sem desalojar os alunos dos outros períodos. Teria que fazer um mapeamento e pensar em como resolver isso a médio prazo, ir criando as vagas gradativamente por uns cinco anos.

iG: Já foram feitas reuniões entre o Centro Paula Souza e a Secretaria de Educação?
Almério:
Foram feitas reuniões com o secretário-adjunto (João Cardoso Palma Filho), mas nunca se quantificou. Agora, é bom que se diga que já temos um convênio que nos permite oferecer 9 mil vagas por semestre em escolas estaduais e municipais de São Paulo, só que daí são cursos que dependem apenas de laboratório de informática.

iG: Estes alunos conseguem ter o mesmo aprendizado dos que estudam nas Etecs?
Almério
: Sim, 80% dos nossos alunos são oriundos da rede pública.

iG: Então por que o desempenho dos estudantes da rede pública comum e das escolas técnicas é tão diferente em avaliações como Enem e Pisa?
Almério:
A maioria dos estudantes vem do sistema público, sim, até porque os da rede particular vão fazer vestibular e entrar na universidade, nem se interessam pelo técnico. Agora, geralmente, quem procura uma Etec já é mais focado em um objetivo e, como a procura é maior que a oferta, existe a seleção dos melhores. Depois, quem faz o técnico passa mais tempo na escola estudando e com a contextualização do ensino, a aplicação na prática de conceitos, eles aprendem melhor.

Uma mudança do modelo e de gestão causou uma crise em 1994 e 1995, mas em 5 ou 6 anos as escolas já estavam iguais. Hoje faríamos um processo melhor planejado"

iG: A infraestrutura não tem parte nisso?
Almério:
Com certeza. O aluno que está em uma escola que tem mais laboratórios, trabalha com projetos, tem um ambiente científico, feira de apresentação de trabalhos todo ano, tende a se manter motivado.

iG: E há diferença na formação do professor?
Almério:
Sempre tem. No caso das Etecs, cada curso tem um coordenador, além de um geral que olha o desenvolvimento dos cursos. Estou dizendo o que nós somos, não quero falar o que os outros deixam de ser: 25% dos nossos professores participam de formação continuada, 20% fazem uma especialização, são professores que investem na própria carreira.

iG: Se a infraestrutura e a qualificação do professor fazem diferença, como uma escola estadual comum conseguiria oferecer um curso médio equivalente ao das Etecs para que os seus aunos acompanhassem bem o técnico?
Almério:
Não vou dizer que não dá. Acho que tem escola boa na rede comum, não posso citar nome porque não acompanho. Sei que nos rankings do Enem, por exemplo, 90% das Etecs estão nos primeiro lugares, mas acho que deve haver escolas estaduais bem colocadas também, é que quando você trabalha em larga escala, dilui.

iG: Neste caso, a ampliação das Etecs poderia significar a diminuição da qualidade?
Almério:
Há 4 anos a gente tinha 20 mil matrículas no ensino médio e hoje tem 50 mil e estamos mantendo a qualidade. Não sei dizer se manteríamos se fosse para 300 mil, mas presumo que sim porque existe um modelo de gestão que consegue dar conta do crescimento. Em 1993 tínhamos 14 escolas técnicas, herdamos 84, passamos a ser 98. Por alguns anos, foi difícil, mas acredito que hoje você não vai diferenciar a original das que recebemos. Foi um processo de mudança do modelo de gestão que causou uma crise em 1994 e 1995, mas em 5 ou 6 anos as escolas já estavam iguais. Hoje faríamos um processo melhor planejado.

iG: Qual seria a maior dificuldade para ampliar o técnico?
Almério:
O grande entrave se chama corpo docente, teria que ter salário atraente para o profissional da área técnica optar pela docência no curso diurno, porque hoje boa parte trabalha em empresas durante o dia e dá aulas à noite. Com algumas áreas está difícil competir.

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