O Brasil que Darwin encontrou

Ao visitar o País, o naturalista inglês reclamou da hospitalidade brasileira e criticou a escravidão. Entenda o porquê.

Isis Nóbile Diniz |

Darwin

Há exatos dez anos após a independência do Brasil, o naturalista Charles Darwin conheceu o País. Viajava a bordo do navio HMS Beagle, carregado de canhões, pelo Hemisfério Sul. Parece coincidência os ingleses desembarcarem na América do Sul, bem nessa época, visitando as ex-colônias. Mas não é.

Foi um choque cultural para Darwin, diz Nélio Bizzo, professor titular da Faculdade de Educação da USP. Já naquela época, conheceu o carnaval baiano. E, apesar de ter se encantado com a vegetação deslumbrante das florestas tropicais, Darwin criticou a recepção e a escravidão brasileiras. Provavelmente, o naturalista não percebeu imediatamente a situação do País.

Basta retomar às aulas de história. Para reconhecer o Brasil como sua ex-colônia, Portugal exigiu um pagamento de dois milhões de libras esterlinas. Dom Pedro recorreu a um empréstimo feito pela Inglaterra. Até que, um ano antes de Darwin desembarcar no Brasil, Dom Pedro abdica o trono e se une aos exilados nas ilhas de Açores. Enquanto isso, a escravidão se manteve.

Carlos Alberto Dória, professor de pós-graduação de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) relembra: Os ingleses foram os propagadores do livre comércio no mundo, por isso mesmo grandes opositores do colonialismo português incentivando a abertura dos portos, as nações amigas. Eles visavam a possibilidade de expansão mundial do capitalismo.

No Brasil, Dom Pedro e empresários facilitaram os ideais ingleses. Como, por exemplo, incentivando a expansão ferroviária. Enquanto a Inglaterra exportava produtos manufaturados, o Brasil vendia para ela seu café e seu açúcar. Embrenhado pelas matas tropicais, Darwin estava no meio de um caos.

O período de regência foi extremamente conturbado. Nos meses que o Darwin ficou no Brasil, passou próximo a três revoluções, conta Bizzo. No Rio de Janeiro, o HMS Beagle chegou a participar de uma armada inglesa para restabelecer a ordem. No livro A Viagem do Beagle, o naturalista cita que vários navios ingleses movimentam suas partes ao mesmo tempo de maneira igual. Esse era um exercício militar, explica Bizzo.

É possível que o capitão FitzRoy, do HMS Beagle, tenha vetado alguns escritos do Darwin sobre esses acontecimentos. Ou até o próprio naturalista tenha desenvolvido uma autocensura. A Inglaterra achava o Brasil e a Argentina instáveis, por isso incentivou a independência do Uruguai, relembra Bizzo.

Do outro lado, o jovem inglês se queixa que em nenhum lugar do mundo foi tratado como aqui. No Nordeste, habitantes impediram que ele cruzasse propriedades particulares ou que conhecesse jardins. Além disso, não é um hábito do brasileiro franquiar a casa para estranhos, conta Dória.

Além disso, o que mais impactou de forma negativa o naturalista no Brasil foi a escravidão. Logo no início da viagem, na Bahia, no Brasil, (FitzRoy) defendeu e enalteceu a escravidão, que eu abominava, escreveu Charles Darwin em sua autobiografia. Certa vez, ele chegou a brigar com o capitão do navio ao defender os escravos.

No livro 'A descendência do homem e a seleção ligada ao sexo', Darwin mostra que todos são iguais independente da raça. Seguindo o oposto do mundo científico da época, influenciado pela ideologia cristã que julgava negros e brancos como espécies diferentes, explica Dória. Mesmo assim, antes de voltar para a Inglaterra esperava ansioso passar pelo Brasil mais uma vez. Onde a esplendorosa vegetação marcou, para sempre, sua memória.

 - VEJA O INFOGRÁFICO SOBRE OS 200 ANOS DO NASCIMENTO DE CHARLES DARWIN


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