Novas oportunidades na sala de aula

Projeto oferece cursos técnicos, bolsas de estudo e apoio social para jovens deixarem as ruas e a prostituição

Priscilla Borges, iG Brasília |

Em 2008, Cristina Pereira do Nascimento tinha 20 anos e poucos sonhos. Três anos antes, quando a filha nasceu, havia largado a escola na 8ª série do ensino fundamental. Precisava pagar aluguel, ajudar a família e manter a filha, mas não conseguia emprego. Sem opções, escolheu o caminho mais difícil, como ela mesmo descreve: a prostituição. 

“Quando a gente entra na vida, chega ao limite. Uns até gostam, mas muitos fazem por necessidade. As pessoas acham que a gente não é nada. Desisti da escola, que eu gostava muito, mas ou estudava ou trabalhava. Não tinha esperança de mais nada”, admite a jovem, hoje com 22 anos.

A vida de Cristina começou a mudar há dois anos, quando uma associação de enfrentamento à prostituição de Natal, onde mora a jovem, lhe apresentou uma proposta para largar as ruas e voltar à sala de aula. Teria curso grátis e ainda receberia uma bolsa de estudos. “Vi uma luz no fim do túnel”, conta.

O projeto Vira Vida é uma iniciativa do Sesi. Começou em 2008, com projetos-piloto em Fortaleza, Natal, Recife e Belém. Hoje, mais de 600 jovens foram atendidos nessas cidades e em Brasília, Salvador, Teresina e João Pessoa. A meta é atender a 1.600 jovens e adolescentes até o fim de 2010 e em mais estados além desses: Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Maranhão, Acre e Mato Grosso.

Para participar do projeto, os jovens precisam ter entre 16 e 21 anos e voltar a estudar na escola formal. Eles são acompanhados por psicólogos e pedagogos e escolhem o curso que desejam fazer entre o que é oferecido no Sistema S da região. As escolas do Senac e Senai também são parceiras. Cada capacitação dura entre nove meses e um ano.

Durante todo esse período, eles recebem atendimento médico e odontológico no Sesi. A ajuda de custo para cada jovem é de R$ 500 por mês, mas eles só recebem R$ 400. Os outros R$ 100 são guardados em uma poupança e retirados por eles após a formatura. A ideia é ensiná-los a poupar.

Cristina escolheu se tornar cabeleireira. Ela diz que o auxílio foi fundamental para ajudar a família. Mas, perspicaz, começou a adquirir produtos de salão com o dinheiro também. Antes de terminar o curso, ganhou uma casinha de um irmão e montou o pequeno salão em casa. Agora, empregou a própria mãe.

“Minha vida mudou completamente. Vivo com a minha filha e pretendo concluir meus estudos. Consegui montar meu salão, que era meu sonho”, conta. Cristina ainda participou das Olimpíadas do Conhecimento do Senai no ano passado e ficou em segundo lugar no Estado. Para ela, foi um resgata da própria autoestima.

Expansão

Jair Meneguelli, presidente do Conselho Nacional do Sesi e idealizador do projeto, tem ambições para o Vira Vida. “Meu sonho é que ele se torne uma política pública para enfrentamento da exploração sexual de adolescentes. Por isso, busco parcerias com governos, empresas e organizações não-governamentais”, diz.

A seu favor, Jair utiliza os números conquistados com o projeto. Em Fortaleza, onde está a maioria dos jovens formados pelo projeto, por exemplo, 70% estão empregados. Apenas 62 dos 628 participantes desistiram de continuar no projeto. “No próximo mês, iniciaremos no Rio e em São Paulo. Só nesses dois lugares, acredito que abriremos 700 vagas.”

Para Jair, a empolgação dos jovens com o projeto é a maior recompensa. “A gente percebe nitidamente a evolução desses meninos todos os dias. Eles são muito talentosos, o que faltava era oportunidade”, afirma.

Ladjane Maria Pereira Alves da Silva, de 19 anos, não titubeia ao justificar o interesse no projeto. “Minha infância foi muito triste, muito dolorosa. Não queria que meu filho passasse o que passei. Então, a oportunidade surgiu e eu tinha de agarrar”, conta. Mãe de um menino de cinco anos de idade, Ladjane foi abandonada pelos pais com oito.

Vivia em diferentes abrigos no Recife. Foi em um deles que ouviu falar do projeto. “Queria fazer um curso de recepcionista, mas não consegui. Optei pela costura e estou trabalhando em uma fábrica. Meu sonho mesmo é fazer enfermagem, mas o importante é crescer a partir daqui. Não vou desistir”, garante.

Com o emprego, Ladjane conseguiu alugar a própria casa, onde mora com o filho. Ela admite que não esperava conseguir a própria independência tão rápido. “Uma etapa já passei. Foi bem difícil, mas tem de saber lidar. Agora, vou continuar crescendo.”

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