“Nosso partido é o estudante da UnB”, diz novo líder estudantil

Davi Brito, coordenador do DCE da Universidade de Brasília, garante que grupo é apartidário e recusa pautas externas à instituição

Priscilla Borges, iG Brasília |

O Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade de Brasília (UnB) , representação máxima do movimento estudantil na instituição, passa por um marco em sua história. A nova fase não é marcada pelo simples fato de uma nova gestão ter começado no dia 1º de novembro, mas pela característica do grupo que o assumiu.

Pela primeira vez depois da redemocratização não são representantes de esquerda que vão liderar os interesses estudantis na UnB, conhecida pela resistência durante a ditadura e atuação política de seus alunos. A chapa 8, encabeçada pelo grupo Aliança pela Liberdade , criado há três anos, se diz “apartidária” e rejeita rótulos de direita ou esquerda.

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“Nosso partido é o estudante da UnB”, afirma Davi Rodrigues Brito, de 21 anos, porta-voz do grupo, que não tem um líder único. Presidente da Aliança pela Liberdade, o estudante do 5º semestre do curso de Direito conta que, no início, o grupo pretendia apenas fazer parte dos conselhos deliberativos da universidade, representando estudantes. Depois, acabou surgindo a ambição política de concorrer à gestão do órgão máximo de representação dos estudantes. 

“Havia uma maioria silenciosa que concordava com as nossas ideias”, diz Davi. Em entrevista ao iG , ele enumera quais são elas: apartidarismo, segurança no câmpus, busca de excelência acadêmica, financiamento privado para pesquisas. À nova gestão do DCE da UnB só interessam problemas internos da universidade.

Alan Sampaio
Davi Brito é porta-voz do novo grupo gestor do diretório estudantil da UnB: "nem esquerda, nem direita"
iG: O grupo de vocês é “novato” dentro do movimento estudantil. Como e por que decidiram criá-lo?
Davi Brito: A Aliança pela Liberdade surgiu na época da invasão da reitoria em 2008 (quando estudantes pressionaram o então reitor, Timothy Mulholland, a renunciar). Muita gente era vaiada apresentando opiniões razoáveis. A depredação do prédio da reitoria, por exemplo, entrou no debate dos ocupantes e quem defendia que era absurdo que isso fosse debatido era vaiado. O grupo nasceu a partir daí, com propostas de defesa da pluralidade, da liberdade de expressão e da excelência acadêmica. Nosso objetivo era ser diferente. O movimento político na UnB sempre foi aparelhado, afiliado a partidos políticos de esquerda e nunca se preocupou com pauta estudantil de verdade. Não é que seja errado se preocupar com pautas de fora da universidade, mas se preocupando só com elas os estudantes não serão representados. Se a gente quer representá-los tem de mostrar para todos que a gente existe.

iG: E vocês acreditavam que teriam apoio diante desse cenário?

Davi: A gente sempre teve a noção que havia uma maioria silenciosa. O movimento estudantil sempre fez muito barulho, mas era muito pouco representativo. Fazendo muito pouco barulho, sempre que expomos nossas idéias, em qualquer lugar da faculdade, somos muito bem recebidos. Quando desenhamos um modelo para criar o DCE parlamentarista, perdemos o medo de disputar as eleições do DCE.

iG: Que proposta é essa?
Davi: Hoje o DCE não representa a maioria dos estudantes, já que pouquíssimos votam. Por isso, propusemos esse modelo parlamentarista. Vamos criar um conselho com representantes de todos os centros acadêmicos. Assim cada curso terá uma representatividade mais próxima. Cada um terá direito a voto e as pautas serão trazidas por eles. As demandas específicas dos cursos são muito reprimidas.

iG: Por que “essa maioria silenciosa” não se aproxima do movimento estudantil?
Davi: Por causa do jeito que o movimento estudantil sempre foi feito, partidário, com pautas externas à UnB, não se preocupando com nenhum ponto da vida acadêmica, nunca buscando verba para pesquisa e melhorias de infraestrutura, avesso à segurança e às empresas juniores por problemas ideológicos. Esse é o espírito normal do movimento estudantil no Brasil todo, na verdade.

iG: O tipo de propostas que vocês apresentavam durante a campanha fugia da demanda histórica de outras chapas da UnB? Como foi a campanha?
Davi: Deu trabalho. A pauta política nacional é importante e, às vezes, temos mesmo poder para mudar. Mas, na maioria das vezes e especialmente do jeito que é feito, não muda nada e ainda atrapalha aulas. Se ninguém se preocupar com a universidade, vai continuar do jeito que está e há muitos problemas visíveis que incomodam. Tivemos uma boa recepção. Fomos muito aplaudidos nas salas de aula.

iG: Que ideias eram aplaudidas?
Primeiro, o apartidarismo. Depois, nossa meta de não tratar de pautas externas à UnB. Seremos contra qualquer coisa que for contra a liberdade e os direitos humanos, mas nosso principal foco é a universidade. É um movimento da UnB para a UnB. Outra ideia aplaudida era nossa defesa por buscar financiamento privado para pesquisas. Isso não é privatizar a universidade, ao contrário do que muita gente pensa. Outra pauta muito forte era o sobre o policiamento nos câmpus da UnB. A gente não quer a polícia aqui simplesmente porque gosta, mas porque existe um problema muito grande de segurança há anos. Você não podia falar de segurança, porque trazer policial para o campus, que é ‘força repressora do Estado’ vai acabar com a liberdade. A discussão é ideológica. Ninguém quer policial, porque policial é do Estado e o Estado é ruim, é opressor, é burguês.

iG: As outras chapas apelidaram vocês de “chapa do papel higiênico”. Além disso, vocês são criticados por “romperem” com tradições de esquerda da UnB, chamados de reacionários. Como lidam com isso? As piadas acabaram?
Davi: Não, mas diminuíram bastante. Muitos dizem que somos apolíticos. Se fôssemos, não estaríamos no movimento estudantil. A questão é a prioridade. A prioridade nossa e da maioria dos estudantes daqui é a UnB. Problemas práticos da UnB também são políticos. Fomos discriminados, mas muitas chapas tinham pautas nossas, que falávamos há dois anos e todos faziam piadas. Nossas propostas representam a voz da maioria que não fala na UnB. É incômodo ver oposição por motivos bestas. Oposição por oposição. Somos chamados de reacionários, mas a postura deles é a reacionária. Muitos querem trazer pautas do partido para a UnB porque ela tem essa história de resistência contra a ditadura, com isso, você aflora emoções e as pessoas se sentem parte disso, mas lutam por uma causa que não existe mais.

iG: Existe uma grande causa na universidade?

Davi: A qualidade do ensino. A UnB tem potencial para ser uma das melhores do mundo e já deveria estar entre as 200 melhores do mundo como a USP. Todo mundo quer uma vida melhor, ter um salário melhor. A universidade está aí para formar cidadão qualificado, que vai produzir. Nosso partido é o estudante da UnB.

iG: Como é a linha de trabalho de vocês? Promoveriam invasões à reitoria, por exemplo?
Davi: A gente respeita a legalidade. Invadir a reitoria, por mais que possa, em algum momento, ser uma ação legítima, não deixa de ser uma ação ilegal. Vai ser o último recurso. Temos uma relação saudável com a reitoria, com reuniões, no mínimo, quinzenais. E esperamos resolver os problemas com diálogo.

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