No Rio Grande do Sul, grupo coloca biblioteca em ponto de ônibus

Moradores de Porto Alegre são convidados a ler enquanto esperam transporte e a trocar suas obras com outras pessoas

Daniel Cassol, iG Rio Grande do Sul |

Escolher um livro interessante enquanto o ônibus não chega, pegá-lo emprestado não sem antes deixar um outro exemplar para um próximo passageiro, em uma “biblioteca” a céu aberto sem nenhum tipo de organização. Isso é possível desde dezembro em cinco pontos de ônibus de Porto Alegre. Funcionando como experiência e ainda encontrando barreiras, o projeto “Estante Pública” está testando o cuidado da população com sua própria cidade.

Danel Cassol/iG
Membros do projeto organizam biblioteca em ponto de ônibus de Porto Alegre

A ideia nasceu em 2008, de forma experimental e com recursos do próprio grupo. Foram instaladas bibliotecas em cinco pontos de ônibus de Porto Alegre. Algumas mais bem sucedidas, outras menos. Em julho do ano passado, o coletivo Nômade conseguiu aprovar o projeto na Fundação Nacional de Artes (Funarte), do Ministério da Cultura, e em dezembro criaram cinco novas estantes na capital. Até abril, eles devem concluir um documentário sobre a experiência.

“O documentário quer discutir quem se importa com a cidade. Levantar essa pergunta e fazer com que as pessoas pensem”, explica o psicólogo Daniel Caminha, um dos integrantes do grupo Nômade, ao lado do administrador Aron Litvin e do fotógrafo Danilo Christidis. “O projeto serve como um termômetro da gestão coletiva dos bairros”, complementa.

Caracterizado como uma experiência de “participação coletiva e ocupação urbana”, a “Estante Pública” tem um funcionamento simples e preza pela falta de regras e de fiscalização. O grupo aproveitou a estrutura dos pontos de ônibus, utilizada normalmente para peças publicitárias, e, com a autorização da Empresa Pública de Transportes e Circulação (EPTC)m fez as estantes de madeira compensada. O resto fica por conta dos moradores dos bairros e usuários do transporte coletivo, que podem pegar um livro emprestado ou disponibilizar um exemplar para que outras pessoas possam ler.

“O livro é o artifício, o motivo da Estante. O objetivo é criar um espaço de convivência e trocas na cidade”, diz Caminha. Ele conta que algumas pessoas que moram em frente às estantes ajudam na organização, pedindo, por exemplo, que ninguém pegue um livro sem deixar outro. Algumas estantes já têm poucos livros e contam mais com revistas e jornais velhos. Outras já viraram alvo do vandalismo – agora, artistas plásticos estão sendo convidados a remodelar as estantes. Mas, para o Nômade, o que importa é a proposta feita aos moradores da cidade.

“Dar ou não dar certo não vem ao caso. O importante é a reação que as pessoas têm ao receberem um voto de confiança de que aquilo foi feito para elas mesmas cuidarem”, afirma Caminha. O coletivo Nômade trabalha com o conceito de “transvenção” – ao contrário da “intervenção”, não trabalha necessariamente com o choque e a provocação, mas com um convite à colaboração.

O grupo agora está convocando as pessoas a criarem estantes por conta própria. Segundo Daniel Caminha, eles já foram procurados por vereadores de Porto Alegre, que pretendem criar uma lei tornando as estantes públicas como um projeto cultural da cidade.

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