No Rio, estudantes querem aprender a forma culta da língua

“Prefiro ser corrigida na aula a sair por aí falando errado”, diz aluna. Professores reclamam de livro que aceita fala popular

Flavia Salme, iG Rio de Janeiro | 18/05/2011 22:35

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Maria Erlaine Mendes da Silva fala “nós pega”, mas sabe que está em desacordo com a norma culta da língua portuguesa. Aprendeu na escola, onde cursa o 7º ano do Ensino Fundamental, em curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA). A aluna não gostou de saber, pela reportagem do iG, que o livro adotado na escola onde estuda, Por uma Vida Melhor, da coleção “Viver, Aprender”, aceita que não seja necessariamente usada a regra na fala. Na escola, professores também reclamam. Mas a Secretaria Estadual de Educação informou que, por enquanto, não vai se pronunciar sobre o assunto.

Erlaine tem 22 anos e ficou oito deles sem estudar. Parou aos 16 quando deixou o Ceará em direção ao Rio de Janeiro, em busca de emprego. Trabalhou todo esse tempo como doméstica e agora tenta completar os estudos na esperança de conseguir um emprego melhor. “Tinha de dormir no emprego. Cheguei a pensar que abandonaria os estudos de vez”, conta a doméstica. “Meus patrões atuais incentivaram. Dizem que não posso ser doméstica a vida inteira”, conta.

Assim como outros colegas, Erlaine diz que prefere ser corrigida na sala de aula a sair por aí “falando errado”. “Não tenho vergonha de ser corrigida. É obrigação do professor ensinar o certo”. Sobre a aceitação – proposta pelo livro – da forma popular na sala de aula, a estudante foi categórica: “Já fui corrigida pelos meus patrões quando falei errado. Fiquei com vergonha. Estou na escola para não precisar passar por isso outra vez”, afirmou.

Foto: Léo Ramos Ampliar

Doméstica Cleonice Vieira da Silva diz já se sentiu mal por ser chamada a atenção depois de escrever um bilhete de maneira "errada"

Cleonice Vieira da Silva tem 56 anos e acredita que a idade não lhe permite buscar um emprego melhor. É empregada doméstica há mais de três décadas. “Estudo porque é um objetivo de vida. A pessoa que sabe das coisas se sente mais segura”, contou. Ouvinte assídua de rádio, ela soube da polêmica em um dos programas que acompanha. Mas diz que não tinha conhecimento de que o livro em questão era o que carregava na mochila. “A gente ainda não estudou o capítulo. Mas não quero aprender errado, não. Já levei bronca por anotar recados errados. Quero fazer tudo certinho”.

Um professor do curso de EJA na rede estadual do Rio que recebeu o livro para ministrar em sala de aula disse que ficou revoltado quando tomou conhecimento da polêmica. “Os alunos falam dessa forma. A maioria. Isso é um fato, e chega a ser lógico. Falam assim porque aprenderam assim. Mas eu tenho a obrigação de sinalizá-los sobre a norma culta”, diz o docente. “Não adianta a escola fazer concessão se o mercado de trabalho, se a vida, não faz”.

Autonomia para escolher livros
A Secretaria de Educação do Rio de Janeiro informou, por e-mail, que as escolas da rede que oferecem cursos para adultos têm autonomia para escolher os livros que o Ministério da Educação disponibiliza para o EJA. A secretaria também afirmou que faz um levantamento sobre os livros adotados – trabalho que ainda não foi concluído –, para que possa comentar o assunto. Por isso informa que por enquanto não tem como abordar a questão.

O iG confirmou que escolas estaduais das zonas norte a sul da cidade receberam exemplares. É o caso da Escola Estadual de Ensino Supletivo Berlin, em Olaria, no subúrbio carioca, e da Escola Estadual Marília de Dirceu, em Ipanema, um dos endereços mais nobres da cidade. O iG não conseguiu identificar nessas unidades de ensino as pessoas responsáveis pela adoção do livro.

“Sou zoado”
Severino Ramos Gomes da Silva, de 15 anos, está no 6º ano do Ensino Fundamental. No curso supletivo. Ele precisou interromper os estudos depois que a mãe, viúva, abandonou a Paraíba para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Na capital carioca deixou no nome de batismo de lado. Prefere ser chamado de “Diego”. Trabalhou um tempo em lanchonete, mas agora está desempregado. “Sei que o salário mínimo é de R$ 545. Mas eu quero receber R$ 1 mil. Preciso estudar”, falou. “Para fazer qualquer coisa nessa vida tem que ter o segundo grau”, disse, em referência à conclusão do ensino médio.

“Diego” também fala “nós vai” e “a gente sabemos”. Justifica a oralidade alegando ser filho de analfabeta e de família humilde. Morador da favela da Rocinha, o aluno contou que já foi corrigido dentro de sala de aula e que ficou constrangido. Mas ressaltou que o “mico” não o fez querer falar diferente das “pessoas que sabem das coisas”. “Fui corrigido algumas vezes e todo mundo na sala riu. Sou zoado, mas prefiro falar como os outros que sabem”.

Aos 33 anos, o marceneiro Antônio Ribeiro dos Santos chega pontualmente ao curso supletivo, às 19h, a fim de concluir o ensino fundamental. Está no 7º ano. Perguntado pelo iG se deveria falar “nós pega o peixe” ou “nós pegamos o peixe”, pediu um tempo para pensar. Em menos de um minuto, ele respondeu. “Nós pegamos o peixe, não é?”.

Por ser um profissional autônomo “já encaminhado”, Antônio não pensa em fazer faculdade. “Sem estudo fica muito mais difícil. Já tive de assinar contrato em que não entendia um monte de coisa e precisei pedir que me explicassem. Não quero mais isso”, falou. “Fiz curso de radialista comunitário, porque gosto dessa profissão. Tenho de falar corretamente quando ligam o microfone, não é?”, perguntou, antes de seguir para a aula.

Foto: Léo Ramos

"No Brasil, a pessoa tem que ter estudos, senão fica tudo mais difícil", diz o marceneiro Antônio Ribeiro dos Santos

Uma coordenadora de curso supletivo na rede estadual ouvida pelo iG manifestou descontentamento com a publicação. “O professor de português me chamou a atenção para o assunto. A sensação que tenho é a de que querem sempre nivelar o aluno da escola pública por baixo”. A professora, que trabalha na rede pública há 27 anos, reconhece que mesmo formados os alunos permanecem fiéis à forma popular, mas afirma que isso não é motivo para que um livro didático aceite novas regras. “Se desfazer de um vício de linguagem é muito difícil, porque quando saem da escola eles voltam a conviver no meio onde aprendem a falar ‘errado’. Porém, considero isso mais um motivo para que a escola sirva de parâmetro sobre o que aceita a norma culta”, conclui.

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    635 Comentários |

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    • luiz | 31/05/2011 16:20

      Gostaria de saber se os filhos do Ministro irão estudar nas escolas que adotarão esse livro M$$$erda..

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    • PATRICIA ELIAS | 29/05/2011 13:39

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    • Lidia Moraes | 27/05/2011 14:09

      Tive a oportunidade de ver e refletir sobre o capitulo em questão. Incialmente, o título já diz "ler é diferente de falar", em nenhum momento o livro está ensinando a falar errado. Está simplesmente fazendo o aluno refletir acerda disso, de que ler realmente é diferente de falar. Passei a vida toda na escola, não tive nada de variação linguistica, só gramática, e infelizmente, temos a falsa idéia de que apenas ensinar a gramática a pessoa aprende a falar "corretamente". Nossa linguagem varia mais do que imaginamos. Não falamos em casa da mesma maneira que falamos no trabalho, só aqui já temos uma variação. O papel da escola sem dúvida nenhuma é ensinar a forma padrão, mas ela não pode deixar de refletir com os alunos a variação linguística. Por favor, quem ainda não teve a oportunidade de ler e refletir sobre o capítulo do livro em questão, analise, o capítulo é bom, você não verá em nenhum momento sendo ensinado a ESCREVER DA FORMA QUE FALAMOS. Ao aluno sempre será ensinado que ele tem níveis de linguagens, ou seja, ele saberá como se portar em sua linguagem, diante de uma autoridade, e saberá as diferenças disso. Ressalto, que em nenhum momento o livro ensina a falar errado. A mídia manipula as pessoas, por isso, tenham opinião própria a respeito do assunto, não se deixe influenciar por opiniões antes de ver o que realmente se passa com a educação.

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    • Ana Zélia da silva | 21/05/2011 18:29

      Aprendi numa época em que ser professor era se ter orgulho do que se aprendia, do que se ensinava. Educação não se transmite por simples contato, mas pelo interligamento entre escola, alunos, pais. Aposentada, mas não morto, escritora e poetisa (não poeta), tenho ordulho dos meus mestres de ontem, sinto falta das famílias de hoje que entregam seus filhos às mestras televisivas, com cantores que ofendem meu Estado achando que em manaus só encontraram índios, prova de que são analfabetos, porque nossos índios, possuem doutorado em faculdades norteamericanas ou francesas. Que pena Brasil, mas confio no Ministério Público, categoria que pertenci por três dias, São Gabriel da Cachoeira, passei três dias e desisti do sonho de defender o Estado, a Sociedade, livros como estes devem ser queimados em praçça pública, os ordenadores da despesa presos e obrigados a devolver ao Estado, nossos impostos que pagam estas vergonhas. Manaus, 21.05.2011 Ana Zélia

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    • Adriel | 20/05/2011 12:41

      Pessoal\nalgum de vocês já leram o livro, creio que não, afinal estão só levando em consideração aquilo que a mídia está falando e posso apostar que daqui não há um com uma formação linguística, ou seja, com propriedade para se criticar ou não o assunto.\nA ideia do livro não é ensinar as pessoas a falar errado, a ideia é mostrar o que acontece no Brasil e em todos os outros lugares do mundo.\numa língua que não tem variação é uma língua morta, cujo falantes não mais existem, como latim, grego antigo, sânscrito.\nAo contrário disso, há variação e muita por sinal.\nvi alguns dos 550 comentários desta página e posso dizer que nesses há uma porcentagem de 98% conter um erro gramático, tanto no meu próprio comentário. E depois disso, vcs ainda dizem q se é necessário que haja uma uniformidade nas falas.\nSeríamos espécies de robôs com discursos prontos e uníssonos.\nAcho que antes de criticar algo vcs deveríam se informar mais e não ficar com essas críticas de senso comum de que o governo quer niverlar os alunos por baixo entre outras.\nrevejam os seus conceitos, afinal de senso comum este país não precisa mais.\nAdriel G. Silva, aluno de Letras da UNESP e pesquisador bolsista na área de linguística.

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      Moacir | 20/05/2011 14:07

      "algum de vocês já leu". Na reportagem acima, são os próprios alunos do EJA que dizem querer aprender a norma padrão, a popular é aprendida na rua, essa eles já conhecem. Eles sentem necessidade de ascender. Não é que tenha que haver uniformidade da língua, mas, na escola deve se dar oportunidade para apreender a norma padrão para que, como os entrevistados mesmo dizem, não venham a ser corrigidos e, as vezes, ridicularizados. Também sou graduado em Letras e interessado pela Lingüística e acredito que não se deve confundir preconceito lingüístico com o dever da escola de oportunizar o aprendizado na norma padrão.

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    • JAIRO ARRUDA | 20/05/2011 08:14

      Queira saber se o MEC vai aceitar "nos pega o peixe", "nos vai" etc nas redações das provas do ENEM, já que o Ministro acha correto a adoção de livros como esses? E uma vergonha o abandono das nossas escolas e professores agora querem anarquizar também a norma culta. Tem razão a Professora Amanda Gurgel (vejam vídeo no youtube), ninhum governante, em tempo algum, jamais elegeu a educação como prioridade desse pais.

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    • ataliba | 20/05/2011 07:28

      essa materia muito tendenciosa. nenhum livro disse que é certo falar nós vai. leiam os livros antes de darem as suas opnioes. ninguem em nenhum momento falou que os professores deixarao de ensinar a regra culta.

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    • Lucas | 20/05/2011 07:21

      Concordo com a maioria: lamentável (para não dizer pior) a adoção pelo MEC desse "livro didático". O que está havendo com a educação no Brasil? O que está havendo com as secretarias de educação (tudo no minísculo mesmo) que não tomaram uma posição contrária ao conteúdo desse livro?? Tenho pena da nova geração: no Brasil, alunos vão para a sala de aula estudar como "falar errado". Na Inglaterra, os alunos tem aula de canto... em latim! É só um pequeno exemplo do abismo que ainda separa o Brasil de um país de primeiro mundo.

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    • Helen | 20/05/2011 07:07

      temos que falar corretamente, não podemos aceitar o que querem nos impor.

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