Ninguém quer que a USP se abra rápido e perca a excelência

Em entrevista ao iG, reitor da USP diz que é preciso fazer uma pausa no crescimento de vagas para modernizar os cursos atuais

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo |

Cursos superiores que dêem mais "visão de mundo" aos alunos a partir da relação entre diferentes áreas é a meta do reitor da Universidade de São Paulo (USP), João Grandino Rodas, com as mudanças aprovadas pelo Conselho Universitário para revisão de currículos da instituição . As alterações já estão sendo analisadas pelas faculdades, inclusive com apoio orçamentário das pró-reitorias, e as primeiras modificações já devem ser percebidas em um ano ou um ano e meio, segundo o reitor.

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João Grandino Rodas, reitor da USP (arquivo iG)
Para o vestibular de 2011, não há alterações, mas os aprovados podem encontrar grades curriculares mais flexíveis e possibilidade de fazer aula em áreas diferentes. Para ele, antes de aumentar o número de vagas é necessário atualizar a infraestrutura. "Temos que fazer uma pausa no crescimento de pessoas para prover o que for necessário para modernizar e garantir o melhor para a comunidade que já existe. Não se faz mais sala de aula com lousa e giz", diz.

iG: Quais cursos precisam ser revistos com mais urgência. Algum poderá ser encerrado?
Rodas: Eles deverão ser modernizados, mas quem vai pensar na solução para cada curso é o gestor da unidade. Eu não gostaria de citar nenhum deles porque antes todos terão tempo de se avaliar, o que eles, aliás, fazem sempre, mas agora com esta nova diretriz de modernização e integração. A tônica é a seguinte: cada unidade deve se preocupar em rever seus cursos, sua infraestrutura para melhorar o que já existe.

iG: A infraestrutura atual não é suficiente?
Rodas: Tivemos um aumento de vagas nos últimos oito anos, o que é bom, mas também precisa ter mais biblioteca, mais professor, mais equipamento. Os alunos do curso noturno têm direito ao acesso a administração, bibliotecas e é nosso dever garanti-lo. Temos que fazer uma pausa no crescimento de pessoas para prover o que for necessário para modernizar e garantir o melhor para a comunidade que já existe. Hoje, a demanda por infraestrutura é muito maior do que há alguns anos, não se faz mais sala com lousa e giz. Precisa que seja sustentável. Mais alunos, mais funcionários, mais professores, também significa mais conflitos. Você vai criar uma insatisfação maior, vai aumentar antigos problemas. Não podemos – pura e simplesmente – aumentar o público, temos que dar o que eles precisam, senão as insatisfações crescem. E com razão.

iG: As frequentes greves enfrentadas pela universidade têm relação com este crescimento?
Rodas: Essas mudanças foram pensadas em prol da manutenção da excelência. Todos querem a USP pela referência que é. Ninguém quer que ela se abra rápido demais e perca isso. Claro que, no momento em que resolvemos problemas, também diminuímos a possibilidade de greve, o que é bom. Muita gente fala em crescer sempre, mas a USP quer garantir a qualidade. Não estou falando só do aspecto material, é necessário estudar também se um curso, por mais antigo e tradicional que seja, precisa se atualizar, se abrir para novas demandas. Foi isso que o conselho universitário colocou como diretriz.

iG: Quando as mudanças ocorrerão?
Rodas: Elas já está ocorrendo. As pró-reitorias e a reitoria estão dando ferramentas, inclusive orçamentárias, para que as unidades façam estudos com base em tudo isso e comecem já as mudanças.

iG: Pode haver mudanças no Vestibular 2011?
Rodas: Não, para o vestibular não muda nada. O que pode mudar é a grade curricular, aumentar a flexibilização em algum curso em que já se verificar uma oportunidade, mas ninguém quer uma mudança completa.

iG: O que significa maior flexibilização da grade curricular?
Rodas: As unidades é que proporão suas soluções, existem órgãos para isso que não são meramente figurativos. Mas uma possibilidade é que um aluno de uma faculdade possa fazer parte de seus créditos em outra, o que pode ser feito de um ano para o outro. Basta que a unidade resolva que um percentual "x" de seus créditos possa ser preenchido em outras áreas. Também podem ser feitos ciclos básicos, mas esta é uma questão complexa. O importante é que se pense isso. Os problemas que nós precisamos resolver no mundo não são só financeiros, ou só jurídicos, ou só filosóficos, a formação precisa dar visão de mundo.

iG: Existe um prazo para as faculdades se adequarem?
Rodas: Em uma universidade tão grande, certas unidades vão tomar a dianteira e outras, não. Mas existe uma concorrência no bom sentido que fará com que as outras também se modernizem. Acredito que em um ano ou um ano e meio as principais mudanças apareçam.

iG: O que ocorrerá com os cursos que não se adequarem?
Rodas: Todos precisam se adequar, nós não vivemos em um Apartheid, que dizia que era para cada um ter o desenvolvimento que conseguisse em separado, a universidade é uma congregação. Pertencer significa inserção e participação é o sentido universal da universidade, portanto todos devem se adequar, isso pode inclusive ter reflexos nas verbas suplementares destinadas as áreas.

iG: Quem se adequar pode receber mais dinheiro?
Rodas: As unidades têm seus orçamentos, mas existem também as verbas suplementares para projetos específicos. Normalmente distribuímos o dinheiro dentro de várias regras e uma certamente é satisfazer as diretrizes. A preferência é daquelas que já fizeram a sua lição de casa. Não é segredo que quem quiser se intitular a fazer projetos, precisa se modernizar.

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