Responsável por escola acusada de fraude em avaliação da rede estadual de SP afirma que orientação aos fiscais é não ficar na sala de aula

A fiscal responsável pela aplicação do Saresp na escola mais bem avaliada do Estado de São Paulo, a Reverendo Augusto da Silva Dourado, em Sorocaba, não pode garantir que não houve fraude na avaliação, como acusam pais e alunos e conforme revelou o iG . Audrey, que prefere não revelar o sobrenome, não fiscalizou se professores ajudaram os estudantes e até mesmo responderam por eles, porque a orientação da Fundação Vunesp, organizadora e aplicadora do Saresp, aos fiscais é não entrar em sala de aula.

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“No treinamento que tivemos na Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Sorocaba, foram bem claros. Não é que eu não precisava ficar lá. Eu não podia ficar na sala de aula”, afirma a analista de comércio exterior, de 29 anos, em entrevista exclusiva ao iG. A informação contradiz as notas da Secretaria de Educação sobre o caso, enviadas nos dias 2 e 3 de abril, que afirmam que uma empresa terceirizada é contratada para o Saresp (a Fundação Vunesp), e “elabora e fiscaliza a realização do exame, com fiscais presentes em sala de aula”.

Na sala de aplicação, segundo a orientação recebida por Audrey, ficam somente estudantes e o professor aplicador, que deve ser um docente de outra escola ou de uma turma diferente da avaliada. No caso da turma de 5º ano do ensino fundamental de 2011 da Reverendo Augusto da Silva Dourado, uma professora de outra escola foi a aplicadora. “Mas não tenho como saber se outra pessoa entrou na sala. Nem se preencheram provas de alunos que faltaram”, relata a fiscal. Audrey afirma que nos dias do Saresp, 29 e 30 de novembro de 2011, a diretora e outros funcionários – que ela não soube precisar se eram professores dos alunos avaliados – estavam presentes na escola.

A fiscal diz que foi responsável pela abertura dos cadernos de prova, por checar se não houve violação dos pacotes e por guardá-los ao final da avaliação. Enquanto os alunos faziam o Saresp, aguardou na biblioteca da escola e fez apenas duas visitas às salas de aplicação, anotadas em um relatório. Nos dois momentos, somente a aplicadora estava com os alunos, em pé na frente da sala.

A escola estadual Reverendo Augusto da Silva Dourado, em Sorocaba, tirou nota 9,3 no Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo (Idesp), calculado com o resultado do Saresp, mais dados de aprovação e abandono. Todos os 27 alunos tiraram a nota máxima em matemática – fato considerado raro por especialistas e único em toda a rede paulista . Em português a nota média, foi 9,13. Em 2010, os alunos da escola tiraram 6,94 em matemática, e 5,55 em português. No ano anterior, as notas eram menores ainda, 2,13 em matemática e 4,53 em português. Nas últimas três avaliações, todos os estudantes da escola fizeram o exame, segundo os boletins.

O Saresp é a avaliação mais importante da rede estadual de ensino do Estado de São Paulo e base para o Idesp. De acordo com o cumprimento de metas de crescimento do Idesp é calculado o bônus pago a todos os profissionais da educação (professores, funcionários, coordenadores, diretores e supervisores de ensino).

Procurada pela reportagem, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo disse que não se pronunciará sobre o caso, até que a averiguação da apuração preliminar seja concluída. A pasta não respondeu sobre a contradição entre sua nota oficial e o relato da fiscal, nem sobre por que os fiscais são orientados pela Fundação Vunesp a não permanecer em sala de aula. A Vunesp também não se pronunciará sobre o caso, pois todas as informações sobre o caso estão centralizadas na Secretaria.

Veja a íntegra da nota da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, de 3 de abril de 2012:

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo já solicitou à Fundação Vunesp, responsável pela aplicação do Saresp, relatório sobre as circunstâncias da prova realizada na Escola Estadual Reverendo Augusto da Silva Dourado, em Sorocaba. Com base nos esclarecimentos prestados, a Pasta decidirá quais providências serão tomadas. Se forem comprovadas quaisquer irregularidades, os responsáveis serão devidamente punidos na forma da lei, o que poderá ocorrer não só no plano administrativo, mas também no âmbito da legislação penal.
De antemão, cabe elucidar, no entanto, que o exame não foi aplicado por professoras da própria escola, como questionou o portal, mas sim por um docente de outra unidade.
A Secretaria ressalta ainda que, para garantir a idoneidade do Saresp, as provas do 5º ano são aplicadas por professores de turmas ou escolas diferentes. Para a realização da avaliação é contratada uma empresa terceirizada que elabora e fiscaliza a realização do exame, com fiscais presentes em sala de aula. Além disso, dois pais voluntários participaram da fiscalização, circulando pela referida unidade de ensino, e não relataram nenhuma irregularidade.

Após a publicação da matéria, a assessoria de imprensa da Secretaria de Educação entrou em contato com o iG informando que havia uma última nota sobre o caso, do dia 4 abril, ainda não enviada ao portal. Nesta última nota, a Secretaria suprime a afirmação referente à presença dos fiscais em sala de aula. "Para a realização da avaliação é contratada uma empresa terceirizada que elabora e fiscaliza a realização do exame", diz a nota.

A Secretaria informa ainda que analisou, junto com a Fundação Vunesp, a documentação referente à aplicação da prova do Saresp na Escola Estadual Reverendo Augusto da Silva Dourado e não encontrou irregularidades de procedimentos. "Entretanto, em face das manifestações de alunos e seus pais veiculadas pela imprensa, a Pasta decidiu instaurar uma apuração preliminar sobre o assunto. Até que a averiguação seja concluída, a Administração não se pronunciará a respeito do caso".

A secretaria também acrescenta que foram aplicados 26 modelos de provas diferentes em cada disciplina para classes de até 27 alunos.

* Atualizada às 11h50, com os últimos três parágrafos, após envio de nova nota da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo

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