Na África do Sul, novas escolas reinventam a educação

Aulas de 'orientação para a vida' e alternativas educacionais ajudam a geração pós-apartheid a ter um futuro melhor

The New York Times | 09/09/2010 15:41

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CIDADE DO CABO – Gcobani Mndini, um menino tímido e magro de 17 anos de idade, disse que já era membro de uma gangue quando chegou à nona série. Sua pequena gangue, conhecida como Tomate, roubava as pessoas, brigava por meninas e se dopava com Jack Daniel's e maconha.

“Eu entrei para a gangue porque queria sentir que pertencia a algo", ele disse.

Desde então ele descobriu que se encaixa no último lugar que poderia ter imaginado – em um colégio particular que está reinventando a educação para adolescentes de bairros negros da África do Sul.

Foto: Joao Silva/The New York Times

Estudantes durante aula na Leap School na Cidade do Cabo, África do Sul

Gcobani abandonou a gangue e se mostrou um talentoso estudante de ciência em busca de admissão nas melhores universidades do país. A professora espiou recentemente em uma classe de estudos e perguntou: "Tudo bom?". Gcobani fez que sim.

Enquanto muitas das escolas públicas da África do Sul fracassaram com a geração pós-apartheid de crianças de bairros pobres e zonas rurais, um movimento nascente de educadores, filantropos e pais desesperados cada vez mais busca por alternativas.

Por uma década, bancos e fundações locais têm patrocinado estudantes promissores de pequenos município para que frequentem escolas de elite, principalmente escolas de brancos. Mas agora novas escolas particulares estão surgindo para atender crianças negras da classe trabalhadora, criando concorrência ao sistema público ainda dominante e elaborando modelos que o irão influenciar.

Os 500 alunos de três escolas conhecidas como Leap, representam uma abordagem diferente. Todos os alunos, incluindo Gcobani, são negros. Eles estão imersos em um ambiente educacional que é uma reminiscência de alguns das mais bem sucedidos escolas franquiadas dos Estados Unidos.

Em outra missão, líderes cívicos estão tentando reviver as escolas rurais que educaram muitos dos heróis da libertação da África do Sul, mas foram em grande parte destruídas pelas leis do Apartheid que obrigava as instituições a fazer parte de um sistema racista ou entregar o controle para o Estado. A alma mater de Nelson Mandela, Healdtown, e o Seminário Inanda, primeira escola de ensino médio para meninas africanas da África do Sul, fundada por missionários americanos em 1869, estão entre as que serão restauradas.

E em um pequeno reino rico em platina, perto de Joanesburgo, o rei do povo Bafokeng, Leruo Tshekedi Molotlegi, construiu uma escola privada de US$ 72 milhões para 800 crianças, na maioria meninos e meninas locais que estudam com bolsa.

Mas um número crescente de famílias, mesmo sem o apoio filantrópico e cansadas do que vêem como professores desmotivados de escolas públicas, estão juntando dinheiro por conta própria para mandar os filhos para escolas privadas estabelecidas em fábricas abandonadas, shopping centres, barracões e arranha-céus, revelou um novo estudo de comunidades rurais e urbanas em três províncias.

De fato, os pesquisadores descobriram muito mais destas escolas privadas de mensalidade baixa do que indicam as estatísticas oficiais e surpreendentemente notaram que os professores da escola pública insatisfeitos com seu próprio trabalho estão entre os pais de alunos nessas escolas. Embora estudos nacionais sejam necessários para avaliar o alcance do fenômeno, segundo os pesquisadores, as evidências sugerem que essas escolas são cada vez mais populares.

Nas escolas Leap, os alunos têm aulas durante a semana entre 8h15 e 17h15, além das manhãs de sábado. Eles passam mais tempo estudando matemática, ciências e inglês. Os alunos do ultimo ano que se preparam para os vestibulares que irão moldar o seu future, ficam até 20h na escola três noites por semana.

Mas as escolas incutem mais uma ética de trabalho assíduo. Cada dia, os alunos têm uma aula de orientação de vida conhecida por sua sigla em inglês, LO, onde falam sobre os problemas pessoais que podem inviabilizar sua educação – um padrasto que espera que uma menina limpe a casa ao invés de fazer sua lição, um estudante tentando estudar no barraco que vive com a família e onde funciona um bar e um outro estudante que vai para a escola com fome porque o salário da mãe como empregada doméstica se esgota antes do fim do mês.

Após um ano de negar que ele estava em uma gangue, Gcobani disse que foi apenas na aula de LO que começou a enfrentar as consequências de suas escolhas, mesmo que seus amigos estivessem estavam morrendo em brigas de faca. "Às vezes, toda a classe o confrontava", disse sua colega, Lucinda Plaatjie.

Mas o rigor acadêmico e a honestidade emocional compensaram. Os alunos das escolas Leap têm média muito superior à nacional nos vestibulares. Nove de 10 passaram nos exames ao longo dos últimos cinco anos e a maioria tem se mantido no ensino superior.

Nacionalmente, o desempenho nos exames tem diminuído anualmente nos últimos seis anos, com apenas seis dentre 10 aprovados no ano passado. As escolas públicas, muitas delas prejudicadas por professores mal treinados, não prestam contas e estão prejudicando muitas crianças negras pobres, dizem os especialistas.

* Por Celia W. Dugger
 

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