Mobilidade de alunos depende de apoio das universidades

Além da saudade da família, custos financeiros para se manter em outra cidade podem fazer com que estudantes desistam de vagas

Priscilla Borges, iG Brasília | 20/06/2011 07:00

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Reitores e universitários são unânimes: para deixar as cidades onde moram em busca de formação longe de casa, os estudantes precisam de apoio. A decisão tomada por 11.432 jovens que se matricularam nas vagas oferecidas pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) no primeiro semestre deste ano não é simples.

Os depoimentos de alguns desses universitários, entrevistados pelo iG em diferentes Estados brasileiros, mostram que a saudade da família é apenas uma parte dos dilemas vividos por eles. Os custos financeiros de se manter em outra cidade pode limitar e até impedir esses jovens de assumir as vagas que conquistaram. Reitores ouvidos pela reportagem contam que os pedidos de ajuda dos estudantes são inúmeros e os recursos para atendê-los, insuficientes.

“A ajuda da universidade é fundamental para mim. Recebo auxílio mensal da instituição para custear o transporte e a alimentação. Como eu moro com a minha avó em São Francisco do Sul, uma cidade próxima, não tenho outros custos. Mas só de ônibus gasto uns R$ 160. É caro”, conta Taiany Krum de Freitas, 17 anos. Ela deixou a casa dos pais em São Mateus do Sul, no Paraná, para viver o sonho de estudar em uma instituição federal. Ela cursa Medicina Veterinária no campus de Araquari (SC) do Instituto Federal Catarinense.

Vanessa Guedes, de 17 anos, acredita que, sem o auxílio recebido da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), não conseguiria morar na cidade e estudar. Estudante de licenciatura em Matemática, ela deixou a cidade de São Lourenço, no sul de Minas, no começo do ano. “Procurar assistência foi a primeira coisa que fiz. Eu não teria condições de bancar tudo”, admite. A jovem mora em uma república e recebe uma bolsa para trabalhar no restaurante universitário.

Por causa do Sisu, o Ministério da Educação aumentou a verba destinada às instituições participantes do sistema para garantir os programas de assistência estudantil. Em 2008, o Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), que custeia projetos de moradia estudantil, bolsas de alimentação e transporte nas instituições federais, tinha um orçamento de R$ 125,3 milhões. No ano seguinte, saltou para R$ 203,8 milhões. Com a criação do Sisu em 2010, as verbas para assistência aumentaram para R$ 304 milhões e, este ano, o MEC prevê o repasse de R$ 395 milhões às instituições. As participantes do sistema recebem mais recursos.

Apesar disso, reitores reclamam que não é suficiente. Deranor Gomes, pró-reitor de Integração, Assistência Estudantil e de Extensão da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), afirma que, para conseguir atender de forma “tranquila” os pedidos de auxílio precisaria ter o dobro do que recebe. Hoje, o orçamento da instituição para os programas de assistência chega a R$ 1,8 milhão. A primeira moradia estudantil acabou de ficar pronta.

“Estamos fazendo uma pressão junto ao fórum nacional de assistência estudantil para lutarmos por mais recursos. O MEC ainda trata as universidades mais novas da mesma forma que as mais antigas. É preciso considerar que as mais novas não têm restaurantes e residências, por exemplo, e precisamos de esforço maior”, pondera.

O reitor do Instituto Federal Catarinense, Cláudio Koller, conta que, no ano passado, perdeu alunos porque a verba ainda não havia chegado aos cofres da instituição na época da matrícula dos alunos. Inseguros, muitos deixaram de se matricular, porque não tinham condições de se manter longe de casa.

A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) teme a falta de recursos prejudique o processo de expansão das universidades e a mobilidade propiciada pelo Sisu. “A política de assistência precisa ser efetivada e precisamos de garantias de que ela será ampliada”, afirma o vice-presidente da entidade, João Luiz Martins.

Foto: Arquivo pessoal Ampliar

Pedro (casaco listrado de cinza e preto) deixou o Rio para estudar em Araquari: aprendendo a viver sozinho

Desafios

A preocupação dos pais é outro desafio para os estudantes que escolhem estudar em cidades distantes de casa. Vanessa conta que eles tomaram um susto quando ela decidiu se mudar e só conseguiu autorização para se matricular porque o campus do instituto federal era próximo da casa da avó dela. Pedro Paulo Ferreira da Silva Júnior, 17 anos, também estudante do instituto catarinense, deixou o Rio de Janeiro para viver em Araquari e conta que escolheu o bacharelado em Sistema de Informação por causa da grade curricular. A mãe, mesmo com receio, deu todo apoio. “Era a experiência que eu precisava. Tenho responsabilidades que não tinha. Aprendi a lidar com dinheiro, com a casa. Teria me arrependido se não tivesse aproveitado a oportunidade”, diz.

Roanna Beda, 20 anos, já havia deixado o conforto do lar para fazer cursinho. Baiana de Santa Maria da Vitória, ela foi para Brasília em 2008 se preparar para o vestibular de Medicina. Ela já cursava Farmácia quando viu no Sisu a oportunidade de concretizar seu sonho. Passou para a Univasf, que fica em Juazeiro (BA). “É muito difícil, mas é preciso construir essa cultura de sair de casa. Acho importante para o amadurecimento pessoal e profissional”, afirma.

Foto: Arquivo pessoal

Roanna havia deixado sua casa, em Santa Maria da Vitória (BA) para fazer cursinho. Agora foi estudar em Juazeiro: amadurecimento profissional também

Diferenças culturais

A convivência com estudantes de diferentes Estados e hábitos culturais tem sido tranquila na maioria das instituições, de acordo com estudantes e reitores. Problemas de adaptação e preconceito são casos isolados. Na turma de Marise Bernardo, 19 anos, estudante de Enfermagem da Universidade Federal de Viçosa (UFV), na Zona da Mata de Minas Gerais, os sotaques já se misturaram.

“Tem gente de todo lugar do mundo, até de Moçambique. A maioria é de fora. Minhas amigas são do Rio de Janeiro, da Bahia e de Minas, mas não tem ninguém de Viçosa. Minha adaptação está muito boa”, conta. “Cada um fala de um jeito. Um pega a gíria do outro”, completa a jovem que deixou a cidade de Mauá, em São Paulo, e vive com a ajuda da família.

A niteroiense Rosana Gomes, 29 anos, admite que a chegada em Pelotas, no Rio Grande do Sul, não foi tranquila. Ela conta que quase não tinha vida social fora da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), onde cursa Ciências Sociais. “Minha vida social ia de segunda à sexta”, brinca.

Sem enfrentar problemas de relacionamento com os colegas, Rosana foi ampliando seu círculo de amizades e as atividades fora da universidade. O único estranhamento foi com a vida menos agitada do interior. Agora, ela já pensa em seguir carreira acadêmica no Rio Grande do Sul.

*Com reportagem de Denise Motta, iG Minas Gerais, e Daniel Cassol, iG Rio Grande do Sul

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Notícias Relacionadas


1 Comentários |

Comente
  • Taís Oliveira. | 20/06/2011 13:35

    Sou de Belo Horizonte-MG e mudei-me para Caçapava do Sul-RS para cursar geociência em uma instiuição fereral devido ao primeiro processo de seleção do Sisu. Além da diferença cultural e dos desafios de convivência diária, a universidade deveria ter o papel de conscientizar a população que recebe os alunos em suas respectivas cidades sobre a agregação de valores sociais e financeiros trazidos pelos novos estudantes assim como respeitar o pagamento das bolsas institucionais oferecidas pelo governo federal pois a maioria dos alunos depende único e exclusivamente deste recurso para sua manutenção. Isto é, a partir do momento em que as aulas começam todo processo de requisição e análise para obtenção do benefício já deve ser encaminhado para o recebimento do mesmo no mês seguinte. Mas infelizmente não é essa a realidade.

    Responder comentário | Denunciar comentário

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!




*Campos obrigatórios

"Seu comentário passará por moderação antes de ser publicado"

Mais destaques

Destaques da home iG


Ver de novo