Ministério Público pede inquérito por crime de racismo na UFMA

Professor afirma que declarações que intimidaram aluno nigeriano foram um “mal entendido”; estudante está sem assistir a aulas

Wilson Lima, iG Maranhão |

O Ministério Público Federal do Maranhão (MPF-MA) pediu na tarde desta terça-feira à Polícia Federal a abertura de inquérito criminal para apurar denúncia de preconceito racial cometido pelo professor do departamento de Matemática da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), José Cloves Verde Saraiva. Saraiva é acusado por alunos do curso de Engenharia Química da Instituição de humilhar, em sala de aula, o aluno do 1º período do curso, Nuhu Ayuba.

A solicitação do MPF foi feita pelo procurador-chefe José Raimundo Leite Filho. No documento, o procurador-chefe também determina que seis alunos testemunhas dos possíveis atos de racismo sejam ouvidos, além do próprio José Cloves e de Nuhu Ayuba. A Universidade Federal do Maranhão (UFMA) também vai ser notificada para dar explicações sobre o cargo exercido pelo professor de Matemática.

Na semana passada, UFMA abriu um procedimento administrativo contra o professor para apurar essas denúncias. O aluno promete ingressar com uma ação na Justiça pelo crime de racismo. Ele pedirá também indenização por danos morais.

Wilson Lima/iG Maranhão
“Fiquei chateado e nem queria mais vê-lo (o professor) pelos corredores. Tive vergonha”, disse o nigeriano Ayuba
A polêmica entre o professor e o aluno começou há aproximadamente dois meses. Informações de colegas de turma de Nuhu Ayuba apontam que ele sempre foi alvo de comentários racistas pelo professor. Em uma das aulas, os colegas de Ayuba afirmam que o professor perguntou se ele “tinha vindo de um navio negreiro”. Em outra, o professor afirmou que Ayuba deveria “voltar para a África”, após ele tirar uma nota abaixo da média. Em uma terceira oportunidade, o professor perguntou, segundo os alunos, se Ayuba “passava o tempo dele caçando leões na Nigéria”.

Ayuba confirmou o teor dos comentários e afirmou que ficou deprimido com a forma como era tratado pelo professor e que pensou até em evitar as aulas de José Saraiva. Ayouba assiste a duas disciplinas com o professor Saraiva: cálculo vetorial e geometria analítica. “Fiquei chateado e nem queria mais vê-lo pelos corredores. Tive vergonha”, disse Ayuba.

A amigos, o aluno contou que pensou em desistir do curso. Ele está há duas semanas sem assistir Às aulas do professor Saraiba. Os dois não se encontram mais pelos corredores.

Alunos da Universidade Federal do Maranhão realizaram um abaixo-assinado pedindo providências à UFMA. Até o final da tarde desta terça-feira, 5,3 mi pessoas já haviam assinado a petição eletrônica.

Natural da Nigéria, Ayuba mora no Maranhão há aproximadamente quatro meses. Ele é um dos beneficiados com um convênio entre a universidade maranhense e o governo nigeriano. Ayuba mora em um quarto com outro africano, de Guiné Bissau, também estudante da UFMA. Ele vive com uma bolsa mensal de aproximadamente U$$ 400, mais uma assistência alimentação da própria UFMA.

Mal entendido
O professor Saraiva, de 57 anos, afirmou que tudo não passou de um “grande mal entendido”. Ele negou que tenha feito comentários racistas dentro de sala de aula e que as referências feitas por ele não foram diretamente ao aluno. “Eu falei para ele que talvez ele não soubesse disso, que a raça dos escravos heroicamente veio em navios negreiros. Ele entendeu que era ele. Não era ele. Isso é um fato histórico. Mas grandes brasileiros foram negros e mostraram o seu valor”, disse sobre o episódio de que Nuhu teria vindo de um navio negreiro.

“Realmente, pode ter outros que eu não sei se são inimigos que possam estar levando essa história mais longe. Eu estou disposto a entender e me retratar diante de um mal entendido. Foi um mal entendido, inteiramente”, defendeu-se o professor. “O pessoal de matemática, química, sempre brinca. Essas disciplinas são disciplinas pesadas e você tem que descontrair um pouco em sala mas sem qualquer conotação de preconceito. Agora, eu posso falar uma coisa e você entender de outra forma”, finalizou.

Alunos amigos do professor Saraiva também começaram ontem a coletar assinaturas de apoio ao docente. E um dos líderes do movimento é negro. O professor também já acionou um advogado para fazer a sua defesa. Saraiva terá como advogado o ex-reitor da UFMA José Maria Cabral Marques. Caso seja comprovado o crime de racismo, o professor Saraiva pode ser suspenso ou exonerado do cargo.

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