Militantes temem que cotas aumentem racismo

Diferentes militantes do movimento negro se posicionaram contra as cotas raciais no ensino superior durante audiência pública realizada no Supremo Tribunal Federal nesta sexta-feira. Eles argumentam que o efeito da medida pode ser o inverso do esperado pelos que a defendem.

Priscilla Borges, iG Brasília |

José Roberto Ferreira Militão, conselheiro do Conselho Estadual de Desenvolvimento da Comunidade Negra do Governo do Estado de São Paulo, acredita que a igualdade não deve levar em consideração a raça das pessoas.

"O Estado não pode nos submeter aos velhos ideais do racismo e não pode outorgar uma identidade racial às pessoas, sob pena de violar a dignidade humana dos brasileiros e dos afro-brasileiros", comentou.

Para o ativista, o governo deve investir em cotas sociais e as universidades reservar 50% das vagas para estudantes de baixa renda. "Sou um crítico severo da racialização", afirmou.

O juiz federal da 2ª Vara Federal de Florianópolis (SC), Carlos Alberto da Costa Dias, também crê que cotas raciais são discriminatórias. Para ele, o critérios de raça parte de um pressuposto racista e corre o risco de "transformar o Judiciário com árbitro para julgar critério racial".

Ele admitiu que esse debate é delicado e complexo e defendeu ações anteriores às cotas para corrigir as faltas de oportunidades, como o ensino público de qualidade.

Representante do Movimento Negro Socialista, José Carlos Miranda, também rechaçou a proposta de combater o racismo a partir das cotas raciais nas universidades. Para ele, é "romantismo histórico" acreditar que a história foi feita por homens de uma cor ou outra.

"É retrógrada a ideia de classificação racial. Continuamos confiantes na força do povo trabalhador brasileiro e com a convicção de que, por meio dessa força, as imensas desigualdades serão superadas", ressaltou.

Mestiçagem

Para o Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro (MPMB), o STF precisa refletir sobre a situação da população mestiça diante das políticas de ações afirmativas. Helderli Leão Alves, que também representa a Associação dos Caboclos e Ribeirinhos da Amazônia (Acra), não concorda com a unificação de pretos e pardos nos mesmos programas, especialmente porque, nesses casos, os estudantes precisam se declarar negros para concorrer às vagas reservadas.

Para Helderli, é preciso pensar em cotas específicas para a população mestiça. Ela criticou o sistema de cotas para negros adotado pela Universidade de Brasília (UnB), alegando que o programa possui uma ideologia "que visa à eliminação política e ideológica da identidade mestiça brasileira e a absorção dos mulatos e caboclos, dos cafusos e outros pardos pela identidade negra".

A representante do MPMB defende que os mestiços sejam considerados como uma raça.

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