Mesmo com estímulo, educação integral ainda é para poucos

Ministério da Educação está com inscrições abertas para programa Mais Educação, que financia atividades extras nas escolas

Priscilla Borges, iG Brasília |

Aumentar a carga horária de estudos das crianças e dos adolescentes brasileiros – e, com isso, ampliar a variedade de atividades oferecidas na escola – é uma das soluções mais defendidas por gestores e especialistas para melhorar a qualidade do ensino no País. A educação integral, no entanto, ainda está longe de ser uma realidade para todos os estudantes brasileiros.

De acordo com o Censo da Escolar de 2010, 1,3 milhão de brasileiros matriculados no ensino fundamental têm atividades em tempo integral (4,8% do total de matrículas nessa etapa). No entanto, apenas 469 mil deles permanecem sete horas ou mais na escola. A maioria passa pouco mais do que o tempo regular de aulas (cerca de quatro horas) no colégio e realiza atividades complementares no turno contrário.

Além de programas estaduais e municipais, o Ministério da Educação também tenta incentivar a ampliação dessa oferta. O programa Mais Educação, criado em 2007 para garantir recursos financeiros às escolas interessadas em oferecer ensino integral aos seus alunos, já atende 357 mil estudantes, de acordo com o Censo Escolar 2010. Os números da coordenação do programa, aliás, divergem dos fornecidos pelo Censo.

As atividades do Mais Educação começaram em 2008. As escolas cadastraram no sistema do MEC, naquele ano, 380 mil crianças beneficiadas pelas atividades do programa, oferecido em 1.380 escolas de 55 municípios. Em 2009, houve a ampliação do atendimento para 5 mil escolas em 126 municípios de todos os estados e no Distrito Federal, com a participação de 1,5 milhão de estudantes, de acordo com o cadastro. Em 2010, 10 mil escolas foram atendidas e 2,2 milhões de participantes.

Este ano, 16 mil escolas da educação básica foram pré-selecionadas pelo Ministério da Educação para participar do programa. As inscrições estão abertas e há 15 mil vagas, mas nem todas as escolas preencheram os formulários com os planos de trabalho propostos. Ao todo, 14.300 mandaram propostas. O período para apresentação dos projetos, que encerraria dia 28 de fevereiro, foi prorrogado para 26 de abril.

Jaqueline Moll, diretora de concepções e orientações curriculares da Secretaria de Educação Básica do MEC, lembra que a interiorização do projeto tem aumentado a dificuldade para que as escolas se inscrevam. O uso da informática e da internet e o próprio estranhamento com a ideia de educação integral pelos gestores escolares são entraves para a participação das escolas.

“A visão de escola em turnos está ossificada no Brasil. Isso é o mais difícil de mudar. O recurso chega, mas é preciso compreender o sistema e modificar o olhar sobre a educação integral. Ela deve ser processo de aprendizado diferente e não só ampliação do tempo”, afirma Jaqueline.

Dificuldades vão além do dinheiro

O Mais Educação envia recursos diretamente às escolas pelo Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE-Escola) para financiar as atividades com os estudantes. A prioridade do ministério é atender as escolas que não obtiveram bom desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) , que mede a qualidade da educação brasileira. O dinheiro é depositado na conta da escola para aquisição de materiais, pagamento de transporte e de ajuda de custo a monitores, por exemplo.

Cada escola recebe, em média, R$ 37 mil para aplicar nos dez meses letivos. Os valores variam de acordo com o número de estudantes cadastrados. Quem participa da experiência garante que o recurso tem sido suficiente para manter as atividades propostas. Há outros obstáculos, porém. Um dos maiores é o espaço físico das escolas. Superlotadas de alunos, em todos os turnos, a maioria não possui salas de aulas disponíveis para atividades que não sejam as aulas regulares, quadras de esportes, laboratórios, bibliotecas.

O Centro Educacional Darcy Ribeiro, localizado na região do Paranoá, em Brasília, possui 1,5 mil alunos matriculados pelos três turnos de aulas na escola. Todas as salas de aula estão lotadas. Mesmo assim, a direção decidiu driblar a falta de espaço para desenvolver atividades pelo Mais Educação. Eles queriam mudar as notas no Ideb e sentiam que os alunos, de comunidade carente, precisavam de outras atividades para melhorar a própria formação.

Desde 2010, a escola recebe os recursos do MEC. A pequena biblioteca possui pilhas de livros pelo chão e recebeu uma sala improvisada para atender as aulas de reforço de português e matemática. Um espaço vazio no corredor virou a sala de artes para as oficinas de mosaico. E a direção buscou parcerias fora da escola para oferecer aulas de judô. O problema é que, infelizmente, apenas 120 alunos participam do projeto.

Segundo Sandra Basso Bonazza, vice-diretora da escola, não há espaço físico para mais. Hoje, a escola realiza seis oficinas: reforço de português e matemática, oficinas de mosaico, teatro, judô e informática. “Se tivéssemos apenas os 500 alunos de um turno, poderíamos oferecer muitas oportunidades a todos”, comenta. A diretora Aldeneide Rocha conta que o comportamento dos participantes do projeto mudou. “Eles se sentem parte da escola e se descobriram outros interesses”, diz.

Ítalo Mateus Ferreira Gomes, 13, participa do programa desde o ano passado. Fez oficinas de vídeo, informática, reforço de português e agora participa das aulas de judô, dadas em parceria com a Academia Nacional de Polícia, da Polícia Federal. A PF busca os meninos na escola, dá aulas de judô duas vezes por semana na sede da academia e oferece lanches aos alunos. “Decidi participar para aprender mais coisas. Melhorei minhas notas e gosto mais da escola”, conta. Os colegas dizem o mesmo.

Mudança cultural

Os especialistas concordam que implantar a educação integral no País exige mudanças estruturais. “A gente não pode inaugurar escolas simplesmente com salas de aula, banheiro e direção”, critica Jaqueline Moll. A diretora do MEC defende que as ações sejam pensadas com outras áreas, como esportes, cultura, desenvolvimento social. Até 2014, a meta é chegar a 32 mil escolas no programa.

Nelson Cardoso Amaral, professor da Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG), ressalta que as atividades precisam fazer parte do projeto político-pedagógico da escola. “Não podemos colocar os alunos em atividades aleatórias”, defende. “Não é que isso seja ruim, mas está longe de ser educação em tempo integral”, diz. Para ele, um dos pontos mais essenciais é colocar professores em tempo integral nas escolas.

Cleyton Gontijo, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que o conceito de educação integral não é compreendido. “Precisamos romper com a lógica de organização da escola em turnos para atividades formais, e contraturnos, para as informais. Integral significa que a escola está organizada para atender os alunos durante todo o tempo”, reforça.

Gontijo lembra que, para que a proposta funcione, é preciso valorizar os professores, investir em capacitações e na construção de projetos pedagógicos de qualidade nas escolas. Para isso, o professor defende mais investimentos do que a meta de 7% do PIB em 2020, como propõe o novo Plano Nacional de Educação . “O ensino integral tem um ganho social muito grande e estamos longe de conseguir implantá-lo”, opina.

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